"Survey" de Icapara

Por Donald Pierson e Carlos Borges Teixeira | Publicado em 30 de dezembro de 1947 | 2 visualizações

"Survey" de Icapara

"Survey" de Icapara

Notas Sociológicas


Secção dirigida por DONALD PIERSON, Ph. D.

da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo e Instituto de Antropologia Social da Smithsonian Institution.

"Survey" de Icapara


DONALD PIERSON e CARLOS BORGES TEIXEIRA.

PARTE I: O "Survey"


Em abril de 1946, empreendemos um "survey" social do sudeste paulista e das áreas contíguas. O principal propósito dêste "survey" foi o de familiarizar-nos mais com a vida cultural desta região, e com a sua base ecológica e econômica, de modo que pudéssemos escolher, com maior certeza, um ou dois lugares que seriam os mais indicados, tomando em consideração certos critérios de nosso especial interêsse, para um estudo posterior, in loco, demorado, e pormenorizado.
Nos meses seguintes, até meados de janeiro do presente ano e, na medida em que outras responsabilidades nos permitiram, visitamos 48 povoamentos nessa região, observando cuidadosamente o que podíamos observar e entrevistando os sempre acolhedores habitantes. A área abrangida foi: (do sul para o norte), de Iguape e Xiririca, na parte meridional do Estado de São Paulo, até a cidade costeira de Mangaratiba, no Estado do Rio de Janeiro, e Paraisópolis e Camanducaia no sul de Minas; e (do leste para o oeste), da costa paulista e fluminense até Angatuba e Tietê.
Este "survey" e o estudo mais demorado acima referido constam de um programa de pesquisas e de preparo de jovens pesquisadores, em que estão colaborando a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo e o Instituto de Antropologia Social da Smithsonian Institution.
Apresentamos aqui o "survey" de um dêsses 48 povoamentos, uma pequena vila de pescadores no extremo sudeste do Estado de São Paulo. Por necessidade durou êste "survey" pouco tempo. Não se deve pensar, portanto, que apresentamos aqui estudo profundo e acabado; é, como todos os "surveys", antes preliminar e provisório. Cada afirmação é neste estagio, de maneira especial, simples hipótese e, assim, está sujeita à verificação, modificação ou mesmo abandono, de acordo com os resultados de possíveis estudos posteriores.
Não deixa, contudo, êste "survey" de possuir certo valor positivo. A capacidade de observação foi aguçada de antemão, através de treino na teoria e metodologia científicas. Os contatos com os habitantes foram estabelecidos e as informações obtidas com cuidado, tomando sempre em consideração o papel que o pesquisador automaticamente assume ao entrar em qualquer comunidade e o estabelecimento e a manutenção de rapport e de confiança, sem os quais se enfraquece qualquer esfôrço, mesmo de longa duração, para "penetrar" na sociedade e cultura, e entendê-los com precisão.
Além disso, tivemos a sorte de encontrar na vila uma professora esclarecida (1), a qual, sendo pessoa que originalmente veiu de fora e também residia no lugar, na época em que o visitamos, há quasi un ano, combinou em si, talvez até certo ponto inconscientemente, certas virtudes tando do forasteiro (2), como do "observador participante"(3).
Outro motivo para apresentar aqui êste exemplo de "survey" foi seu possível interêsse do ponto de vista metodológico; motivo sugerido pela utilidade deste "survey" e outros semelhantes, experimentada no "Seminário de Métodos e Técnicas nas Ciências Sociais", que dirige o Professor Pierson, na referida Escola (4).

1. A esta professora, Dona Maria Rosa, estamos muito gratos pela útil e simpática colaboração.
2. Vide Georg Simmel, Soziologie (Leipzig, 1908), p. 685-91; Donald Pierson, Teoria e Pesquisa em Sociologia (São Paulo, 1945), . 448.
3. Vide Florence Kluckhohn, "The Participant-Observer Technique in Small Communities", American Journal of Sociology, Vol. XLVI (1940), N.º 3, p. 331-43; traduzido e publicado nas "Notas Sociológicas" da Sociologia, Vol. VIII (1946), N.º 2, p. 103-118, sob o título, "O método de 'observação participante' no estudo de pequenas comunidades".
4. Neste Seminário, organizado em 1940, por Bruno Rudolfer e Donald Pierson e continuado após a morte daquele infatigável pesquisador, pelo Professor Pierson, têm colaborado alunos da Escola Livre e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo, e funcionários do Instituto de Administração da mesma Universidade, e da Divisão de Estatística e Documentação Social do Departamento de Cultura.

O principal problema em mira é escolher um lugar que, devido às necessidades práticas, não fique muito longe da capital paulista e que, provavelmente, contribua mais do que qualquer outro ao esclarecimento de certos processos sociais que pretendemos estudar (e que oportunamente indicaremos aos nossos leitores). O nosso conhecimento da região não bastava para realizar esta escolha com o devido grau de precisão; nem se achavam publicados os dados necessários. O único recurso era ir, ver e registrar. E uma vez que o tempo e a verba disponíveis eram bastante limitados, as sondagens não poderiam ser demoradas.
Recorremos, então, ao "survey"; aliás, um "survey" detalhado, sistemático e que abrangeu as várias localidades das regiões em aprêço, que tinham possibilidades de fornecer a melhor amostra dos processos em que estávamos interessados.

PARTE II: Icapara


I. ECOLOGIA:

1. Terra:

a. localização:
1) distância da capital paulista: até Iguape, 304 quilômetros por estrada de rodagem; de Iguape, duas horas de canoa tocada a remo (aproximadamente uma légua).
2) altitude: dois metros acima do nível do mar.
b. topografia da região: típica do litoral, isto é, com grandes partes planas. Neste lugar, a Ilha Comprida, que faz uma espécie de longo anteparo ao mar grosso, está separada do continente por um longo canal chamado por uns "Mar Pequeno" e por outros "Mar de Dentro". Esse "Mar Pequeno," cuja largura seria de um a dois quilômetros, vem desde Cananéia, na extremidade sul do Estado de São Paulo, até a barra natural do Rio Ribeira, ponto em que o "Mar Pequeno", se encontra com o "Mar Grosso", na extremidade norte da Ilha Comprida. Um pouco ao sul da barra natural do Ribeira, no continente, acha-se o povoado de Pontal, e um pouco ao sul dêste, a cêrca de 3 quilômetros, está o povoado de Icapara, também no continente. Dizemos "barra natural" do Ribeira, porque na altura de Iguape existe uma barra artificial do mesmo rio, que foi um "furado" feito há anos para a passagem de canoas, e hoje, é um canal de cêrca de 200 metros de largura. Essas duas barras do Rio Ribeira fazem com que Iguape e Icapara fiquem numa ilha triangular que é, de um lado, cercada pelo mar e, dos outros dois lados, pelo rio bifurcado. A povoação de Icapara fica bem próxima do mar e é servida de água doce pelo ribeirão de Icapara que aí desemboca.
Há alguns morros que dão nota pitoresca à paisagem e que se desdobram até Iguape. Esses morros, entre êles os chamados "Bacharel" e "Itinga", na altura de Icapara, estão separados do mar por uma região plana e arenosa cuja maior extensão é pantanosa. Entre a Ilha Comprida e o continente, próxima ao povoado de Icapara, existe uma pequena ilha, chamada "Ilha das Garças": é pantanosa e, como se pode ver da canoa, povoada de garças e outros pernaltas como o "socó", o "colheireiro", etc. É bonito o aspecto que essas aves dão à ilha, respingando-a de pontos brancos, entre o fundo verde da vegetação do pântano e o mar, numa faixa escura e plana de brejos sem vegetação. No "Mar de Dentro" não há praia de areia, de ambos os lados, desde Cananeia até a barra do Icapara, existe apenas pântano, que de quando em quando, é interrompido por pequenas elevações pedregosas ou de terra firme. Praias de areia só existem, e belíssimas, do outro lado da ilha Comprida, na face voltada para o mar grosso.
c. qualidade do solo: arenoso e pantanoso, ficando o pântano à beira mar e a parte arenosa para dentro do continente.
d. grau da fertilidade da terra: a mata frondosa, mesmo sobre a areia, indica ser fértil o solo. A agricultura, embora muito pouco desenvolvida, tambem indica um considerável grau de fertilidade.
e. clima: húmido e quente no verão, no inverno "faz frio de rachar" e a humidade é permanente.
2. Gente:

a. população total: o povoado tem 460 habitantes, segundo o inspector de quarteirão. Há uma estimativa de 500 habitantes, que é mais vulgarizada no local. Existem 82 casas.
b. raças: predomina, de modo absoluto, o "caiçara". É o tipo racial que habita o litoral ou as margens do rio, e cujas características somáticas (e culturais) indicam a mistura fundamental de dois elementos, o europeu português e o índio; fora das zonas "ribeirinhas", isto é, no interior do país, na serra e no sertão em geral se chama de "caipira" o mesmo tipo racial. Em Icapara, o tipo físico predominante é de estatura média para cima, robusto, olhos amendoados e não raro claros, maçãs do rosto salientes, pouca barba e bous dentes. Os cabelos são castanhos, escuros ou claros, em proporções semelhantes e sempre lisos. Não se vê outro tipo humano além do descrito.
c. nacionalidades: só existem brasileiros. Quanto às origens desta nacionalidade, houve, como vimos, fusão dos colonizadores portugueses com os nativos. Há hipótese, levantada por um dos entrevistados, de que também alguns espanhóis aportaram aí no século XVI. Entre os vocábulos que colhemos e que se encontram adiante, existem alguns que talvez apoiem esta hipótese.
d. mobilidade: esta população se distingue, entre outras coisas, pela estabilidade. Contudo, os homens, pescadores, viajam para Iguape com certa frequência. Na temporada da pesca, de outubro a março, saem quase toda as noites, para vender no mercado de Iguape. Os laços de parentesco que ligam quase todos os habitantes, talvez indiquem, de certo modo, a ausência de imigrações de há muito para cá.
3. Condições higiênicas:
do ponto de vista de um habitante de cidade grande pode-se dizer que aí não há higiene. Contudo, a higiene desta população é concebida em outros têrmos. Quanto à higiene corporal não colhemos dados além do aspecto físico das crianças e dos adultos; os primeiros são de tal modo sujas de terra e de outras coisas que até a cor se lhes modifica; as pernas e a cabeça apresentam verdadeiras crostas de sujeira. E quando tomam banho, o que é coisa rara, segundo se presume, é no ribeirão Icapara, cujas águas pardas e grossas vem do pantanal. Quanto aos adultos, suas roupas não primam pela limpeza; os homens lidam no mar e estão sempre entrando n'água para puxar as redes, e isto talvez constitua sua principal higiene corporal. As casas não têm banheiro nem chuveiro e nem se vêm bacias grandes ou gamelas para banho. Também não há privadas, (a não ser a da casa da professora). A medicina é desempenhada por um "consulteiro", que entende de homeopatia. Há também uma benzedeira, dona Célia: "benze e cura erizipela, espinho de peixe encravado, e faz reza a Santo Antonio para aparecer coisas perdidas.". Contudo, as casas são mantidas perfeitamente bem varridas e não há acúmulo de lixo próximo das residências. Parece que a higiene com relação à casa é a que está mais desenvolvida, não obstante a promiscuidade em que vivem e que veremos adiante. A dificuldade de buscar água, que é obtida em uma fonte, bem distante, a cerca de quase dois quilômetros, impossibilita uma higiene mais acurada.
4. Configuração do povoado:
construídas dentro da mata, as casas se comunicam por trilhos que atravessam estreitas faixas de mato, de cerca de 20 a 50 metros. Algumas casas estão mais agrupadas e outras mais esparsas, o que talvez se ligue ao fato de serem herdadas as propriedades das famílias e de se localizarem as casas dos parentes dentro do perímetro da propriedade dos antepassados. Alguns possuem áreas maiores e outros, menores. Não obstante estar o povoado bem próximo ao mar, a poucos metros não se vê, ao chegar, nem uma casa devido ao mato. Não é possível ter-se uma vista do conjunto, a não ser de avião. Contudo, talvez possamos descrever êste povoado como uma série de "clareiras" na mata, agrupadas e salpicadas de casas que se comunicam por trilhos através da mata. As casas apresentam um aspécto pitoresco, pela grande variedade de tipos de construção. Umas são de pau a pique, barreadas; outras são apenas de madeira roliça, dispostas em duas camadas, uma vertical, outra horizontal, podendo se ver através dos quadradinhos tudo o que se passa dentro da casa; há construções que combinam os dois tipos descritos, dividindo em duas partes a casa, uma barreada, outra não; há também construções apenas de madeira rachada, disposta verticalmente; há ainda construções cujas paredes são de palha até o chão. A coberta mais comum é de palha de sapê e uma folha grande (jussara), sendo esta mais rara que a primeira. Há uma capela em construção (dedicada à N. Senhora da Conceição). A escola com a casa da professora constituem uma única construção. A capela e a escola são as únicas construções de tijolos.
II. O PASSADO:

1. Circunstâncias da fundação do povoado:
o inspetor de quarteirão, entrevistado, deu as seguintes informações sobre a fundação de Icapara: "Foi um português que, vindo para o local onde é hoje Iguape, junto com outros, parou aqui, no morro Itapé. Esse português vivia da pesca. Nesse tempo a barra do Icapara, ou por outra, a extremidade norte da Ilha Comprida, terminava em frente do que hoje é Iguape, no local onde está "Vale Grande" ou a barra artificial do Rio Ribeira. A Ilha Comprida cresceu, dêsse tempo para cá, cerca de quatro quilômetros e meio para o norte, tapando o mar grosso, até além do povoado do Icapara, próximo da barra natural do Ribeira. O referido português é considerado o fundador de Icapara; seus descendentes, misturados com o elemento indígena, desenvolveram a população e fizeram do lugar o que é hoje". De seus antepassados êste entrevistado conta que: "A imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Icapara, estava até o ano passado numa casa particular onde eram feitas as cerimônias religiosas ministradas por um leigo. Essa imagem deve ter uns 200 anos. Foi comprada por um tal capitão Mateus, da Guarda Nacional, no tempo da Guerra do Paraguai. A igrejinha estava sendo construída em terreno doado por esse capitão. Foi êle mesmo, o Capitão, que administrou a igreja, fazendo todas as cerimônias religiosas durante a sua vida. Depois dele, seu neto, João Vicente, continuou a ministrar as cerimônias. Agora vem o Padre José, três vezes por ano".
2. Características originais quanto à:

a. população: pode-se presumir que a população original era de índios, pelos traços que hoje podemos observar.
3. Modificações havidas (se houve) desde a fundação até recententemente, quanto aos característicos da:

a. população: a formação do "caiçara" indica a mudança havida com a chegada dos portugueses, cujos traços físicos e culturais se acham hoje fundidos com os dos indígenas.
III. ECONOMIA:

1. Coleta:
êste povoado pode ser chamado "colônia de pescadores"; é, portanto, a "economia coletora" a base da vida de seus habitantes. (5. N. S. B. Gras, Introdução à história econômica (São Paulo, 1943), p. 9-25). A pesca constitue a principal atividade econômica. A caça esporádica de uma capivara ou porco do mato, existe como suplemento da alimentação.
2. Plantação:
a mandioca é o principal produto agrícola; além dêsse, o milho, o arroz, principalmente o arroz, constituem as produções básicas da agricultura local. Embora haja algumas frutas como a banana e a laranja, seu cultivo não é sistemático. Disse um informante: "Toda a plantação é só para o consumo local. De dois anos para cá, porém, tem-se vendido um pouco de arroz para Iguape".
3. Criação:
só vimos galinhas como criação doméstica, e não em grande escala. Um dos moradores, pouco tempo antes da visita, levou para Icapara, um ou dois porcos para engordar. Este fato foi narrado com certo entusiasmo e o narrador fez questão que o visitante visse os porcos, como sendo uma novidade auspiciosa.
4. Indústria:
a indústria local, muito rudimentar, limita-se ao fabrico da farinha de mandioca. O maquinário constitui-se de uma roda raladora tocada à mão por uma pessoa; uma prensa também virada à mão (às vezes substituída pelo "tipiti") e o forno ou tacho para secar ou torrar a farinha. A todo êsse conjunto dão o nome de "tráfico". A farinha produzida é só para o consumo local. Em muito pequena escala, fazem a seca do camarão, mas só para conservá-lo para o consumo doméstico.
5. Comércio:
existem duas ou três vendinhas, quase sem estoque e este é o comércio interno. O comércio exportador consiste na venda do pescado em Iguape; levam em canoas o que pescam e vendem no entreposto de peixe.
6. Tipos de propriedades agricolas:
em geral são pequenas, pois, as propriedades vem sendo divididas, por herança, há muitos anos, talvez desde que existe o povoado. Pela árca geral onde se espalha a população, não pode haver propriedades grandes, pois toda a região é relativamente pequena.
7. Técnicas de subsistência:
toda a técnica usada na pesca é um mixto possivelmente da técnica portuguesa e indígena. As rêdes, em suas diferentes formas e tamanhos, bem como anzois, cada tipo adequado para uma espécie de peixe, parecem ser partes materiais da cultura portuguesa. A maneira como lançam as redes e pescam os peixes também parece ser herança portuguesa. Usam, por outro lado, armadilhas, como o "cêrco" que parece ser técnica indígena, bem como o "covo" e um faixo de madeira cujo fogo produz luz para atrair os peixes na pesca noturna. Esse faixo é feito com um pedaço de lenha roliço, de cerca de dois metros, que racham em muitos sentidos e depois reconstituem, amarrando-o com cipó e mantendo-o na forma quase primitiva. Ateiam fogo em uma das extremidades e êle vai queimando lentamente, sem apagar com o vento e penetrando pelas frinchas dos rachados. O tipo de canoa usado parece também mais de técnica indígena do que portuguesa. Constitue-se este tipo de canoa de uma longa tora cavada e trabalhada com machado e talvez outra ferramenta. A manufatura da farinha d'agua, de polvilho e de um bolo chamado "coruja" dão um exemplo típico, talvez, da mistura de técnicas nativas com a trazida pelos portugueses: trabalham a mandioca, inicialmente, raspando-a com uma concha do mar. Esta concha tem ainda outras serventias, substituindo, muitas vezes, a faca no uso doméstico. A referida concha e seu emprêgo são, provavelmente, traços indígenas; descascada a mandioca por êste sistema, que em geral é feito pelas mulheres, de cócoras no chão, vai a mandioca para o "ralador" que é uma roda com asperezas feitas por furos em seu aro e que é virada à mão por um homem, à medida que, em geral, uma mulher vai ajustando a mandioca ao rolo da roda. A mandioca ralada cai numa espécie de cocho ou "gamela", em baixo. Este ralador, possivelmente, é um traço cultural português. A mandioca ralada passa, em seguida, para o "tipití" e este para a prensa. A prensa, talvez portuguesa, é construída por um quadrado pesado que é comprimido contra uma base que tem sulcos para o escoamento do caldo, por uma grande rosca com um torniquete que é virado à mão. O "tipiti" é uma espécie de cesta redonda feita com um cipó flexivel chamado "timbopeva" ou com um outro denominado "imbê". Esta cesta ou "tipiti" é quase completamente fechada, tendo uma pequena boca em cima. Depositam por essa boca a mandioca ralada e comprimem-na fazendo sair o caldo; deixam depois pendurada a cesta para acabar de secar a farinha. Este "tipití" é feito pelas próprias pessoas do lugar e parece ser completamente um traço indígena. Excluindo a roda de ralar, a prensa e o forno de secar, que é um grande tacho de metal, todos os aparelhamentos como as redes, algumas das canoas, o "tipiti", cerco, o covo, as esteiras para dormir, etc., são manufaturadas pelos próprios icaparenses. Com relação às esteiras em que dormem, e constituem a cama mais comum nesse lugar, são feitas em geral de "taboa" ou "piri", sendo preferido o "piri" por ser menos quebradiço. Essas plantas são ambas nativas em regiões alagadas ou pantanosas. As esteiras são feitas costurando-se ou amarrando-se com cipó chamado "uvira", cada haste de "piri" ou taboa, uma ao lado da outra. Não são trançadas mas sim amarradas lateralmente. De cabaças cortadas ao meio ou "porungas", como se ouvem chamar em Minas Gerais, fazem as vasilhas que servem para tomar água ou para comer, substituindo, portanto, os copos e pratos. Esta vazilha chama-se "cuia". A propósito do meio de conseguir sal e açucar, diz-se o seguinte: "O que sobeja do peixe, trocamos com açúcar e sal". Com relação ao cipó "imbê” para amarrar esteira e as taquaras do cerco, disse um informante a seguinte frase: "Cipó imbê para amarrar cêrca é melhor do que arame; este dura só dois meses embaixo d'água e o cipó dura quatro meses". O camarão que também é pescado para servir de isca para outros peixes, é guardado vivo dentro d'água, preso num cesto manufaturado também por icaparenses. Esse cesto, redondo em geral, é tampado e feito com os cipós "imbê" e "timbopeva". "Do cipó timbopeva ha duas qualidades, o liso e o piririca; êste é mais resistente que o liso. Quando seco, o liso é escuro e o piririca é de cor clara". Também são usadas para fazer o "tipiti". São cipós macios, flexíveis, muito resistentes e cilíndricos. A agulha para fazer redes é manufaturada por êles mesmos. É de madeira trabalhada com grande habilidade, pois é uma peça delicada. A água é transportada das fontes chamadas "Guacauva" ou da chamada "Fonte do Morro", em geral sobre a cabeça das mulheres, dentro de latas de querozene ou em baldes que são adquiridos em Iguape.
8. Meios de transporte:
é a canoa o único meio de transporte usado pelos icaparenses.
9. Salários:
pelos conhecimentos que obtivemos neste sentido, não há salários propriamente ditos, ou por outra, o pagamento é feito mais comumente por troca de serviços ou de mercadorias. Existem uma solidariedade e cooperação na feitura das roças, da farinha e da pesca; não pudemos saber até que ponto esse traço está desenvolvido nesse meio. Verifica-se a existência do que aí chamam "demo" (demão) e o que é chamado "muchirão" ou "putirão" em outras regiões do Estado e do país. A "demo" é feita em geral "nas derrubadas de mata e nas plantações de roça". A pessoa que lidera a "demo" dá almoço e pinga para os que participam do trabalho. Há um certo compromisso moral, na participação da "demo" generalizada entre os membros da comunidade e isto vem a ser, em suma, um fato econômico que pode ser traduzido por "troca de serviço" ou "pagamento por serviço".
IV. SOCIEDADE E CULTURA:

1. Dificuldade ou facilidade de entrar em contato:
é gente muito dada, desembaraçada e alegre. Conversam sem acanhamento, com uma simplicidade sadia. Não tivemos a menor dificuldade em estabelecer contatos em Icapara.
2. Modo de falar e outros gestos:
falam, em geral, com grande velocidade, economizando movimentos dos lábios. Nos ditongos com a vogal "i", esta é geralmente omitida. Falam dos, pos, cosa, em vez de dois, pois, coisa. Quanto ao rítmo da linguagem e a acentuação das frases, dão um sotaque característico cujos traços, menos acentuados, se encontram também em Iguape, Xiririca, Juquiá e Miracatú. Não obstante as grandes dificuldades para analisar o modo de falar em regiões diferentes onde se passou pouco tempo, podemos assegurar que os "caiçaras" do litoral sul, que nós conhecemos, falam bem diferente dos "caiçaras" do litoral norte. Esta diferença existe, pelo menos quanto aos traços que se descrevem acima, encontrados naquelas cidades, e que não encontramos em São Sebastião, Ubatuba, Ilha Bela ou Caraguatatuba, no litoral norte. Quanto ao vocabulário, encontramos em Icapara grande número de novidades, porém só as encontramos nesse povoado e não em Iguape, nem em Jipovura, outro povoado nas margens do Rio Ribeira, situado a três horas de canoa a motor, rio acima, partindo de Iguape. Colhemos as seguintes expressões em Icapara: surucou (caiu), aivo (ruim), caniço (vara de pescar), maenga (credo! que amolação!), acinte (vaiar, fazer fusquinha), concertar a carne (preparar a carne), alhures (algum lugar), nelhures (nenhum lugar), lancear (pescar com redes), lanço (lançar as redes), fornear (levar a mandioca ralada e desidratada ao tacho de torrar), tráfico (aparelhamento completo para fazer a farinha de mandioca; ralador, prensa ou tipiti e tacho de torrar, com o dispositivo para por fogo embaixo), fandango (baile), chú de peito (bronquite), inhamipoia (mandioca brava), cascuda (mandioca brava), demõ (muchirão ou putirão), sobejô (restou, sobrou), bradar (gritar, chamar), tágua (táboa), aipí (mandioca), mana (irmã), lenhar (tirar lenha do mato), mandipuva (mandioca brava curtida para fazer bolo "coruja", cuscús e bejú), coruja (bolo feito com mandipuva que leva ainda amendoim, coco brajauva ou coco indaiá), brajauva (coco nativo da região), indaiá (coco nativo da região), gadanho (rastelo), casamenteiro (festa de casamento), matar peixe (pescar, exemplo: "Fulano matou muito camarão ontem!"), amboré (peixe preto), torrar (embriagar, beber muito), cachaça (aguardente de cana), caldeira (sopa; em geral peixe e água), banana caturra (banana nanica), cortar frutos (colher frutos, banana ou laranja), quizilha (raiva, zanga), enquizalhado (raivoso, zangado), pitoco (pequeno), tatapóra (catapora), Calú (apelido de Carolina), Jango (apelido de João), Totó (apelido de Antonio), desgranado (desgraçado), farinha manema (farinha d'água; esta farinha é feita com mandioca curtida ou "mandipuva"), mandioca cascuda (mandioca de casca áspera), mandipoia (mandioca de casca lisa), mandimpiriá (mandioca de casca preta, cuja rama é listada), mandi-sampedrinho (mandioca de rama amarelada), tabôa (planta do brejo da qual se faz esteira, quebradiça), pirí (planta do brejo da qual se faz esteira, flexivel), sacy-saperê (sacy-pererê), uvira (cipó de amarrar esteira). Encontra-se, também, êste modo de falar quando fazem interrogações: "Você foi lá, foi?" "Você tomou café, tomou?". É comum este modo, repetindo o verbo no fim da frase, para interrogar. O gesto de esconder o rosto com as mãos ou com o braço quando está acanhado é relativamente comum, especialmente entre as crianças. Observamos, porém, êste gesto também entre mulheres, mas estas, em geral, quando em tais circunstancias, abaixam ou viram a cabeça.
3. Modo de cumprimentar, de fazer cortezias, descortezias, etc.:
observamos que o hábito de cumprimentar quando se encontram é geral. Cumprimentam-se automaticamente, quando se encontram, homens e mulheres, e muitas vezes dizem "bom dia", "boa tarde", simultaneamente. Quando se encontravam comnosco no entanto, encaravam-nos e esperavam que tomássemos a iniciativa do cumprimento que, invariavelmente, era respondido com prontidão e amabilidade. Um grupo de cerca de 8 crianças, meninos e meninas, entre 8 e 12 anos, revezando-se às vezes, passou todo o dia em torno da casa em que estávamos hospedados. Quando chegávamos, faziam roda, com uns rostinhos atentos e curiosos. Procuramos conversar com alguns, mas foi impossível. Pedimos, então, um voluntário para ir à venda comprar cigarros para nós. Com este pedido, foi possível verificar a boa vontade que havia entre eles para conosco, embora esta boa vontade estivesse condicionada, talvez à expectativa de serem premiados; contudo disputaram com vivacidade o privilégio de fazer esse servicinho. Como existem três vendas nessa localidade, demos a três deles a incumbência para ver quem a fazia em menos tempo. Foi uma correria dos que foram e uma torcida dos que ficaram para ver quem chegava primeiro. Narramos este fato, porque ele serviu para aumentar muito o grau de intimidade entre o pesquisador e as crianças de Icapara; depois desse pequeno incidente, recebemos muitas atenções e amabilidades daquelas crianças que, até há poucos momentos antes, estavam separadas de nós por uma barreira que parecera intransponível. Dai em diante, chegaram mais perto e permitiram que lhes acariciássemos as cabecinhas e já não olharam mais com aquela curiosidade inicial, mas sim com uma expressão de amizade. Passeando por Icapara, em todas as casas vimos o dono à porta, paramos e cumprimentamos tomando atitude de quem estava interessado no trabalho que fazia. Invariavelmente fomos convidados a entrar e sentar. As atenções que nos foram dispensadas nessas circunstâncias impressionaram-nos bastante. Explicaram-nos com clareza os detalhes do trabalho e conversaram como se nós fossemos também Icaparenses. As mulheres não participaram das conversações a não ser esporadicamente com um aparte lacônico, dirigido ao marido ou ao filho, com o fim de esclarecer alguma dúvida dêstes. Como estava chovendo (aliás choveu o dia todo), os homens ficaram em casa, fazendo algum serviço. Dos que visitamos, dois faziam redes de pescar e um fabricava uma agulha de fazer redes. A este demos de presente um canivete que foi recebido com prazer manifestado pelas expressões do rosto e pelo modo de pegar o objeto. Contudo, não agradeceu verbalmente.
4. Alimentos e hábitos de comer:
o alimento básico da população é o peixe e a farinha de mandioca; é básico e quase exclusivo, embora existam outros alimentos, como banana, arroz, uma caça como a capivara ou catetú, mas estes são alimentos usados esporadicamente. O gambá, que abunda na região é, segundo informações, o prato predileto sempre que é caçado, comem-no com manifestações de especial prazer gastronômico. As refeições que, em geral são as simples "caldeiradas" com farinha de mandioca, são preparadas e servidas assim: a caldeirada constitue-se de uma sopa de peixe; põem no caldeirão o peixe que têm, enchendo-no d'agua com um pouco de sal e deixam ferver. Uma vez cosido, a ponto de ser desmanchado n'agua, o caldeirão é colocado no chão, onde a família se reune e se serve em "cuia" e, às vezes, em pratos. Próximo ao caldeirão, põem uma vazilha com uma pirâmide de farinha de mandioca, onde enfiam as colheres. Cada um toma o seu prato ou cuia, despeja nele um pouco de caldo da caldeira, toma uma colher e vai tirando a farinha da pirâmide central, de onde todos se servem. Alguns misturam a farinha no prato e fazem com o caldo uma espécie de "pirão"; outros jogam-no na boca e uma colherada de caldo por cima para "rodar a farinha". Em suma, uns fazem "pirão" no prato e outros no estômago. Não têm mesa nem bancos, comem, em geral, agachados ou em pé, encostados nas janelas ou portas. A maneira clássica é ficarem os comensais agachados ou sentados no chão, em tôrno da pirâmide de farinha e do caldeirão.
5. Vestuário:
andam em geral descalços, homens, mulheres e crianças. Não vimos nem um par de sapatos (a não ser os da professora e de sua mãe). O tecido usado tanto para os homens como para as mulheres e crianças, é o algodão. Paletó é relativamente raro, e gravatas não existem. Os homens andam apenas de calças e camisas e, pelos furos e rasgos das roupas, pode-se ver, em alguns casos, que não há outra vestimenta por baixo.
6. Mobiliário:
as casas são limpas de mobília, mas há um ou outro banco ou caixão. Não vimos mesas, nem armários, nem camas. Cadeiras são raríssimas. A cama é substituída pela esteira que em geral fica enrolada durante o dia nos cantos das salas. À noite, estendem as esteiras sobre o chão de terra batida e aí dormem. As casas são constituídas, em geral, de uma sala grande e uma cozinha. Na cozinha come tôda a família e na sala dorme toda a família, em promiscuidade. Dormem com a roupa no corpo e com a sujeira do dia.
7. Relações entre raças:
Não vimos nenhum preto. Sondamos, porém, as atitudes com relação a essa raça. Perguntamos: "Aqui não há pretos?" Responderam simplesmente: "Não". "Porque?" "Com certeza é porque eles não gostam daqui", foi a resposta. Numa reunião, dentro de uma casa, voltamos a falar sobre o assunto: "Não há pretos aqui?" Responderam: "Só esta que está aí (U'a moça escura sem traços característicos da raça negra). O primeiro fato, ao nosso ver indica, pelo modo como foi falado, a inexistencia de prevenção contra o preto. O segundo fato confirma essa hipótese, pois não cremos que, se houvesse prevenção, seria permitido a essa moça considerada preta, permanecer ali na mais completa igualdade de condições, em uma reunião familiar como a que presenciamos. Além disso, falaram com toda a naturalidade sobre o preto, sem mostrar a menor atitude desfavorável.
8. Sistema de familia e de parentesco:
pareceu-nos que existe um entrelaçamento de parentesco que abrange, senão toda, quase toda a população local. Isto é uma hipótese que levantamos baseada nos seguintes fatos. No livro de chamada escolar, examinamos os sobrenomes entre os quais se encontram os seguintes: Trudes, Pereira, Barbosa, Matos, Silva, Ribeiro, os dois primeiros sobresaindo-se muito pela frequência. Observamos, também, entrelaçamentos entre estes cinco sobrenomes pela existência de vários nomes de alunos com dois sobrenomes compostos dos sobrenomes acima. Os entrevistados declararam: "De três partes da população, duas são Trudes". "Matos é a maior família depois desta, Barbosa é a seguinte". "Essas três são aparentadas entre si".
9. Ritual e cerimônia:
O "batimento do arroz" constitui uma cerimônia celebrada do seguinte modo: espalham o arroz em palha sobre o chão de uma sala e fazem um "fandango" por cima. "Ao som do tambor, batem o pé, moços e moças, o dia inteiro e à noite até amanhecer; depois jogam a palha e põem o arroz em outra sala, repetem êsse fato até bater toda a safra de arroz". "Quando acabam o 'fandango', que é ritmado por um tambor e às vezes acompanhado com rabeca, estão todos bêbados de pinga e de cansaço". O "fandango" é feito do seguinte modo: "As moças rodeiam os rapazes dançando, e estes ficam batendo os pés e as mãos ao ritmo da 'caixa' (tambor).". Obtivemos também descrição de duas formas de casamento. A primeira, mais antiga, constitue-se no seguinte: "Depois de haver se manifestado o entendimento entre os dois membros do futuro casal, as famílias entram em combinação e um determinado dia fica marcado para a cerimônia. Esta se resume no seguinte: a moça que, em geral, se casa aos 11 ou 15 anos, abandona a casa dos pais, de madrugada, levando todas as suas posses pessoais, indo bater à porta da casa do pai de seu futuro marido. Este recolhe-a em sua casa e o casamento fica assim concluído. Vive o novo casal na casa da família do pai do marido (na mesma promiscuidade comum). Com o tempo, fazem uma casa e constituem definitivamente o novo lar". Outra forma de cerimônia de casamento existente é costume menos antigo que o já descrito; é o chamado "casamento em Iguape" e é assim efetuado: "Os parentes e amigos mais chegados dos nubentes acompanham-nos até Iguape, todos em canoas. Lá o casamento é feito nas formas comuns, no cartório e na igreja, às vezes só na igreja. Na volta, ao se aproximarem de Icapara, ainda no mar, soltam foguetes cujos estampidos anunciam a próxima chegada. Então o pessoal que ficou em Icapara, vai ao chamado "porto" para o "casamenteiro". O "casamenteiro" que vem a ser a festa do casamento, constitue-se do seguinte: a chegada em terra dos recém-casados, com seus companheiros, os quais, ao desembarcar, cumprimentam, apertando a mão de todos os que estão esperando no porto. Atrás dos recém-casados, vem uma pessoa distribuindo, aos que vão sendo cumprimentados, cachaça aos homens, vinho às mulheres e balas às crianças. Feito isto, acaba-se a festa e a vida toma o seu ritmo normal, incluindo para o novo casal que apenas vai à sua casa, troca de roupa e pega no serviço comum de todo dia". "O padre que vem uma ou duas vezes por ano, obriga todos a se casarem no religioso; celebra a cerimônia em qualquer lugar, até à beira do fogão". Existem em Icapara católicos e protestantes. "Há, porém, mais católicos que protestantes". As duas autoridades locais são dois inspetores de quarteirão. Um é católico e outro é protestante. O primeiro dirige as cerimônias católicas, como a reza e outras, o segundo dirige os cultos protestantes em sua casa e na de um companheiro.
10. Contrôle social:

a. meios
1. lei: é mantida pelos inspetores de quarteirão, oficialmente; contudo, estes inspetores, nativos do lugar, são antes mantenedores de uma ordem oriunda dos costumes, do que de leis formais. Um deles disse: "Aqui não há necessidade de polícia; a única coisa que temos de combater é o álcool".
2. folkways e mores: não obstante ter faltado oportunidade para penetrar mais a fundo na organização social desta sociedade, tivemos a impressão de que os folkways e os mores constituem as principais maneiras de controle social.
b. instituições:
1. polícia: os inspetores de quarteirão desempenham essa função.
2. associações religiosas: as igrejas católica e protestante como instituições, exercem forte controle sobre os costumes. Obtivemos informações de pessoas que não bebem e não fumam por motivos ditados pelos princípios protestantes. O casamento não sancionado pela igreja ou pelo Estado, é condenado por católicos e protestantes.
11. Meios de aproveitar o lazer:
o "bate-papo" à noite é vulgarizado como meio de passar o tempo; vão uns às casas dos outros formando-se grupos de conversa. Na casa da professora, onde estávamos hospedados, houve uma dessas reuniões à noite em que lá passamos e que durou até às vinte e duas horas e pouco. Um dos inspetores de quarteirão assina a Folha da Manhã e vai buscá-la quase diariamente em Iguape.
12. "Mundo mental":
a conversa, mais comumente, trata da pesca e coisas ligadas a essa atividade fundamental para a vida ali. Tivemos impressão de que as mentes estão comumente voltadas para problemas e coisas materiais diretamente ligadas à subsistência. De vez em quando a conversa se dirige ao passado, comentando lendas ou fantasias, outras vezes, falam de alguma coisa futura, principalmente ligada às perspectivas futuras de Icapara quanto a certos fenômenos naturais que tem modificado a topografia da região. Dizem que a Ilha Comprida está crescendo, o que de fato acontece, e que isso acabará fechando a Barra de Icapara, o que impossibilitará a continuação do povoado nesse lugar.
13. Atitudes:
dois pescadores manifestaram grande animosidade contra os políticos de Iguape e contra os comerciantes de Santos, que segundo eles dizem, exploram os pescadores, que são os que realmente tem o trabalho da pesca, pagando-lhes preços mínimos, impingidos pelos políticos com que se mancomunam. "Já fomos enganados muitas vezes por essa gente, mas agora sabemos o que fazer, eles vão ver nas próximas eleições...".
14. Lendas e histórias peculiares ao lugar:
a história do "sacy-pererê" (sacy-sapererê, para eles) que vem jogar futebol à noite, no campinho das crianças brincarem. Dizem que à noite se ouve o apito e o baque dos chutes na bola, barulho este feito pelo "sacy-pererê" que está jogando no campo. "Jogo é coisa feita pelo sacy, todo jogo e coisa que não presta, inventada pelo sacy". "As crianças ainda brincam lá de dia, porque o sacy tem medo de criança; as crianças ainda são mais "levadas" do que ele, o senhor não sabe da história? Pois, o sacy quís judiar e fazer as crianças brigarem e para isso trouxe-lhes um cavalo para passearem, mas êsse cavalo tinha o lombo muito curto e não cabiam todos. Assim, eles brigariam para montar no cavalo. Mas sabe o que as crianças fizeram? Enfiaram um pau no cavalo e montaram todas e o sacy saiu perdendo. Nunca mais mexeu com criança...".

Tags: Survey Icapara Sociologia
Referência Bibliográfica

Pierson, D; Teixeira, C.B