Trecho da entrevista em vídeo:
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Transcrição da Entrevista
Nasci Aqui mesmo nesse lugar, aqui mesmo, foi. Pois aqui era a gente mesmo desse jeito. Nossa casa era de tábua. Primeiro era de sapê por cima. Nossa casa era assim, era. Não tinha dinheiro pra comprar telha. Nós ia no mato, arrancava sapê, aquele mato, comprido assim. Estendia pra secar, depois estendia pra secar, depois trazia pra cobrir a casa. Assim fazia. Era aqui mesmo a casa, era. De papai era aquele lá, aquele lá. De papai era aquele que Alda mora, aquele lá. A casa de papai. O nosso era aqui no mesmo lugar, então. Nós ia pra pular o barranco do rio. Nós ia com mamãe lá. Nós ia só pra pular o barranco do rio. Subia aquele barranco e pow, pula... mas nós não morria na água, nós não entrava na água, não. O rio aqui. Nós ia pra brincar só. Eu, mamãe e Alda. Alda era pequena, bem pequena. Ela não pulava, quase. Era pequena, ficava com nós, com mamãe, na casa de Mamãe Grande. Ciranda, cirandinha, vamos tudo cirandar, vamos dar a meia volta, meia volta vamos dar. As crianças que cantavam, a gente cantava também, né. Tudo eles cantavam com a gente, né, as crianças. Tudo criança, era criança do nome... da gente, né... da idade da gente, tudo assim. De canoa. Papai arrumava a canoa de tio Dionizio. Do meu tio. Tio Dionizio. Era meu tio. O Filho de Vovô Barbosa, era. Ele tinha canoa, papai ia pedir a canoa dele pra nós ir pra Iguape, em festa, festar a festa de Agosto. Então, nós não tinha nada. Ele pescava, papai pescava, quando ele pescava, no tempo nosso, eu morava com ele, né. Mamãe fazia fogo, a brasa batia... tirava aquela brasa assim, ponhava aquele peixe seco naquela... naquela... assim... naquela brasa, passava beber... tomar com café, quando vinha da roça, não tinha nada feito pra comer, naquele tempo papai tinha saúde, naquele tempo, mas ele quase não pescava, né. Mas depois ele ficou doente, é. Depois ele morreu, deu doença nele... morreu. Tio João Barbosa vendia as coisas. Vendia café, açúcar, arroz. Mamãe mandava nós comprar. Ele que ficava no balcão, pra dentro do balcão, pesando as coisas que a gente ia comprar, né. E ele gostava da gente, né. Foi gostando da gente, gostando, depois pronto, queria morar com a gente, né. Mamãe falava assim: - Agora ele quer morar com você, pois então vá morar com ele. Depois papai.... Papai gostou. Papai gostava dele, do Antonio... mamãe falou: - Oi, Antonio quer morar com Anita, viu? Você deixa ele ir morar? - Eu deixo. Vá morar com ele. Aà ele foi, morar com ele, foi. O casamento foi assim mesmo, então. Papai não tinha dinheiro pra nos fazer casar, pra fazer casar... mandou eu morar com ele, com o finado aqui. Ele era filho de Amaro. Amaro Trudes. Nós... nós morava lá, depois mudamos pra aqui. Ele fez nosso rancho aqui, de sapê e viemos morar aqui. Aqui crescemos, se criaram-se tudo aqui, foi. Criaram-se tudo aqui. Meu... o outro meu filho, Ademir, foi embora pra Santos, mora pra lá, Ademir, é. Mas naquele tempo me dava maleita. Meu Deus, a maleita. Eu era amarela, não tinha um pingo de sangue. A maleita me dava tudo dia. Febre, febre, tremor de frio e febre. Chamavam de maleita, né. Mamãe me dava um remédio, comprimido, mas não parava. Quando no outro dia me dava aquele tremor de frio e febre aà me levaram pra Iguape, isso eu me lembro, de canoa. Pediram a canoa de tio Dionizio, me botaram numa canoa e levaram lá em Iguape. O médico passou... chamado AtaÃde, AtaÃde, o médico. Passou remédio pra mim. Depois disso parou de me dar maleita. Foi. A Mercedes foi a primeira filha meu. Ela nasceu no meio da maleita. A febre. Febre, tremor de frio e febre, Ô. Ela nasceu no meio da maleita. A minha filha Mercedes. Finado Evaristo. Ele vendia remédio de homeopatia. Vidrinho assim. É. A gente ia lá, mamãe ia lá. - Olhe, Evaristo, prepare esse remédio aqui pra Anita. Pra mim, as vezes era pra Antonia. Porque minha irmã tinha chio de peito. Ah, era sufocado do chio de peito. É. Mas ela não morreu disso daÃ. Agora que ela morreu, faz pouco de tempo. Agora, pouco tempo. Ela morreu de idade, já. Estava de idade. mais velha, bem mais velha de eu. Era ela. Antonia, era. O baile? Na casa de nhô Constantino. A casa de Gonzaga, sabe onde é? Ali. Ah, a sala grande ali. Ah, nós ia pouco, dançava pouco lá! Mamãe levava nós. Nós dançava. Papai também ia. Ele ia, quando ele ainda tinha saúde ainda ia. Sentava lá no banco. Ficava sentado lá. Mamãe também ficava lá com nós. Era. Depois ele morreu, mamãe ficou indo com nós. Mamãe levava nós em fandango. Nós ia com ela. Hum hum. Nós ia lá, nós dançava. Depois já era mocinha, né, nós gostava de dançar. Aquele gente... chamavam a gente dançava com eles, dançava. Então, se enchia de gente, aquele povo tudo sentado. Era banco assim. Era tudo sentado naqueles bancos, tudo dançava ali. Aquele tempo tinha fandango, Ôh, aqui. Era fandango aquele tempo, agora é baile. Igreja, não tinha igreja, né. Tinha um homem chamado João Vicente. Era o padre. Ele que era daqui mesmo do lugar. Ele que fazia a reza, hum hum. Era bem pra lá da casa de Horácio e de Sizenando. É lá, aquela banda, aquela rua. Passava mais um pouco de Macau. Nós ia fazia o mastro, erguia o mastro, sabe aquele mastro enfeitado, ôh, era mais bonito. Santo Antonio, São Joao, São Pedro, Santa Isabel não faziam. Santa Isabel era essa reza, era reza só. Agora não tem nada mais, acabou. Aqui não tem mais nada. Passa Santo Antonio, passa São Joao, São Pedro, não tem nada. Mamãe que fazia fogueira. Nossa... todo ano ela fazia fogueira, ôh... aà nós não tinha lenha, nós entrava nesse mato, nesse charco arranjava lenha com ela, ôh. Cada um num machado, um podão, arranjava lenha. Trazia aquele bocado de lenha pra fazer fogueira, jogava ali fora, de noite fazia fogueira, tão bonito. Agora não tem mais. Acabou tudo. Anjo. Quando morria anjo, criança pequeno, chamavam mamãe, mamãe que ia fazer a mortalha. Não tinha dinheiro pra... essa... ir em Iguape comprar roupa, a roupa de casa que tinha, a mãe tinha uma roupa, a mãe rasga... dava pra mamãe, mamãe cortava, fazia no tamanho da criança, mamãe furava para por pelo pescoço, pela manga, por aqui, passava costura assim depressa, mesmo assim, na mão, costurava, assim, pronto. Pra vestir no anjinho. Toda criança que morria chamavam ela pra fazer mortalha. Morria, morria porque não tinha remédio esse tempo. Não levavam em Iguape. Dava gripe, dava Sufocante. Chamava catarro Sufocante. Afogava a criança, afogava, ôh. Tia Maria Barbosa teve uma filha, morreu afogado da Sufocante. Tia Luiza, minha tia também, teve uma filha, morreu com sufocante. É, bastante gente que morria, criança, menino, menina. Agora não tem mais. Porque agora dá gripe nas crianças já dão remédio né. Lá em Iguape, levam no médico, já dá remédio tudo. Naquele tempo não davam. Homeopatia. Davam vidro de remédio assim, com água e pingavam aquelas gotas de homeopatia. Acônito, beladona, Quinha, Cinha, não sei o nome mais do nome que tinha. Mamãe... Papai tinha uma gaveta cheia de comprimi... de vidrinhos de remédio assim. O médico era Benedito Nascimento também que dava remédio. Ele também dava remédio. Pernica morava ali onde é a casa de Narciso, é ali, a casa dele era ali. Narciso ficou morando ali. Aà o Pernica morreu. Pernica morreu porque acharam ele morto, por baixo da porta acharam ele morto. Xingava pouco tia Maria Barbosa de miserável, de desgraçada, de tudo nome ele xingava. Ele saÃa aà na rua e xingava ela. Vinha com a foice pra matar ela. Ah, ela dizia: -Venha me matar, venha! Eu vou chamar Totó Barbosa!, que Totó era inspetor de quarteirão naquele tempo, sabe? - Eu vou chamar Totó Barbosa, ele é Inspetor de Quarteirão. Ele dizia: - Inspetor de merda – com a licença dele – É, ele falava assim, sabe. - Venha aqui – se ele invés de chamar aqui polÃc... inspetor de miserável, xingava de tudo. Era Totó Barbosa que ele xingava né? Aà tia Maria, tia Maria falava assim: - Eu Vou chamar Totó – Totó era irmão dela, né, tia Maria Barbosa – Vou chamar Totó que ele vem aà prender você. - Não, ele vem aqui eu mato com a foice. Vem aqui eu dou uma foiçada nele. Ah, ele tinha a foice lá, do lado dele. Nós... Mamãe falava: - Não fique lá fora, que ele está com a foice lá, ele vem de lá com a foice e dá uma foiçada em vocês aÃ. Nós corria pra dentro. Tinha medo dele, sabe. Pernica. A minha tia que viu uma fan... uma pessoa né, no mato lá, diz que. Nós estava lenhando né, buscando lenha pra trazer pra casa. Aà minha... era eu, tia Amélia, minha tia, e Alda, minha irmã, nós estava com ela... mamãe... mamãe, não era Alda, era mamãe. Nós estava lenhando, ela correu do mato, de lá... correu, que deixou pano dela, rodilha, deixou tudo lá. Que ela viu uma gente encostada no pau, lá na lenha, de um jeito muito feio pra ela. Ela correu. Aà ficamos: - Quem era que você viu? – Uma gente que eu vi lá naquele mato, aÃ, não sei quem era, correu do mato, ela correu. Ficou lá, o pano dela ficou até hoje, nunca mais foi lá nesse lado buscar lenha nesse mato. Nesse lugar não fomos mais lenhar. Ficamos com medo. Nós tinha medo. Aqui no Icapara, diz que passava gente na rua, né, coisa que.... que viam. Nós nunca vimos, né. Nunca vimos. Mamãe... Nós falava: - Mamãe, a gente tem medo. - Nada, a gente fecha a casa. Em casa da gente não entra ninguém. Mamãe falava pra nós. Não, graças a Deus nunca passava, diz que passava na rua. Visagem de outra pessoa que morria né, deixava... diz que aparecia pra pessoa. Mamãe contava de bruxa, mamãe falava, contava pra nós. Mas nós nunca vimos, graças a Deus nunca vimos. Mamãe falava que uma mulher que andava... ponhava roupa no pilão assim. Foi uma mulher que chegou pra ela, falou pra ela, mamãe contava, a mulher chegou e falou: - Você ponha a roupa no pilão e soque, quando estiver socando, quando está socando aparecia uma mulher. Era aquela a bruxa. Diz que era assim, mamãe contava. Diz que bruxava as crianças, diz que no corpo, parece que no rosto, aonde tivesse descoberto. Mamãe cobria tudo a gente, bem coberto por causa da bruxa não pegar, não bruxar a gente. Diz que falava assim, mamãe falava, não sei se era verdade isso aÃ, que mamãe contava. Tudo o que ela contava a gente acreditava, né. Lobisomem, era. Esse diz que... Mamãe falava que era... um cachorro grande. Um cachorro grandão que passava, mamãe falava que era lobisomem é, aquele. O cachorro grande que passava diz que era o Lobisomem. Saudade? Não tinha barulho muito. Pois agora não tem barulho também. Não tem nada. Agora não tem nada. Fandango tinha, é verdade. Ah, naquele tempo tinha fandango, ôh. Era alegre, parece que era mais alegre o Icapara. Agora não tem mais nada. Anoitece todo mundo pra casa. Os homens andam por aÃ. Nós ia em casa de Mamãe Grande. Mamãe grande era a minha avó, Mamãe Grande. Nós chamava de Mamãe Grande porque mamãe ensinou. E Papai Grande era papai, era o marido dela. Então, Papai Grande. Morava ali onde é a casa de Celina, sabe? Ali. Mamãe Grande ficava no pé do fogo lá sentado, ela ficava lá pitando o pito dela. Ela pitava no pito, é. Mamãe Grande morreu de uma gripe que deu nela. Era velhinha já, tava velhinha, tava arcadinha, arcadinha ela, andava arcadinha ela, andava arcadinha, sentava no pé do fogo só, pitando aquele pito. Ah, ninguém não planta mais nada. Nós plantava feijão também, mas era só pro gasto da casa né. Era. Só pro gasto da casa. Nós não vendia. Arroz nós vendia. Ele ponhava no sa... buscava... ia buscar saco lá em Iguape. Era arroz, era feijão, era arroz. Ah, feijão quase a gente não plantava. plantava pouquinho só pro gasto da casa. Arroz que nós colhia bastante. Na sala, um paiol grande assim, enchia de arroz até pra borda, assim, na altura da telha. Aà soltavam tudo no meio da casa, a sala era grande, soltava tudo, chamava os moços, molecada né, pra vim bater, entravam tudo bater um com outro, arrumavam caixa lá fora, bater o gomo pra alegrar eles, né? Bate, bate minha gente essa palhinha de arroz, o dinheiro que render é repartido com entre nós dois. Eles falavam né. Os homens que cantavam já nem me lembro muito. É. Eles cantavam. Batendo arroz e cantando, cantando, davam a volta por lá tudo assim, a sala era grandinha né, andava rodando assim. Eu tenho... Eu sou Anita. Anita. Agora, quanto anos que eu tenho? Eu não sei. - 91 - Quanto? - 91. - 91? É.