Transcrição da Entrevista
(Genira) Meu nome Ă© Genira Pereira Villa, eu tenho 63 anos e a minha famĂlia Ă© Trudes Pereira. (Gilson) É... Meu nome Ă© Gilson Villa. NĂŁo sou filho daqui de Icapara, casado com uma autĂŞntica icaparana... (Genira) É, na minha infância aqui era casa de sapĂŞ e a gente buscava água nos potes lá na fonte, lá no morro, nĂ©, que a gente buscava água. Tinha um rio aqui em volta da nossa casa, bem encostado a casa, tinha um rio, que era muito lindo aquele rio. Todo mundo nadava lá, parecia uma piscina. E pescava tambĂ©m quando a mare estava cheia nĂ©, e pescava, tinha peixe, tinha siri. E depois foi mudando nĂ© aqui, aĂ começou a fazer casa de tijolo, nĂ© de... a maioria... e aĂ foi acabando as casas de palha, de sape nĂ©, que era de sape. Aqui era como se todo mundo fosse uma famĂlia. A gente ia, saia, era criança, saia aĂ no quintal de alguĂ©m, pegava laranja, ia num pĂ© de goiaba, catava goiaba, igual os meninos hoje ainda fazem, tem muita criança que faz isso daqui, mas a nossa Ă©poca de criança foi muito lindo, muito, muito, muito bom. Jamais vai voltar uma infância que igual a gente teve aqui, nĂŁo volta nunca mais. Faziam muita farinha. Que minha mĂŁe fazia muita farinha porque ela teve bastante filhos e... mas o pouco que plantavam era pra nĂłs comer, que era muito pouco, nĂ©. Arroz tambĂ©m quando eles plantavam tambĂ©m, pra... o consumo que nĂŁo dava nem pra... nĂŁo dava nem pro mĂŞs nĂ©, porque nossa famĂlia era muito grande. Tem gente que pensa que meu pai nĂŁo trabalhou mas eu sei que ele trabalhou muito, meu pai trabalhou. Pescou muito, ia vender, pegava as canoas com peixe, canganguá que ele comprava... que ele pescava e ia de canoa remando atĂ© a cidade pra vender. Chegava lá ficava o dia inteiro lá no mercado pra vender o peixe. NĂŁo tinha valor nenhum, sabe. As vezes ficava aquela montoeira de peixe lá pra vender, mas ele trabalhou muito, meu pai... e minha mĂŁe entĂŁo nem se fala. Minha foi a ... trabalhava... minha mĂŁe fazia coisas que... ela fez um buraco no chĂŁo e forrou com um pano, enquanto meus irmĂŁos colhiam arroz. Eles nĂŁo tinham levado nada pra comer. Nada, a nĂŁo ser um pouco cafĂ©. Ela pegou o arroz, fez um buraco no chĂŁo, pĂ´s o arroz ali, socou com um pau e dali ela tirou o arroz e fez uma panelada de arroz pra eles. Quando chamou eles pra tomar o cafĂ© eles vieram tudo sem graça nĂ© pensando que ia sĂł ter o cafĂ©. Chegaram tinha uma panela de arroz. Nossa foi uma alegria pra eles, coitados. Foi uma vida sofrida tambĂ©m, nĂ©. Muito sofrida. Pobre. E hoje em dia ainda tem nĂ©? Tanta... A gente vĂŞ na televisĂŁo tem gente muito pobre ainda tambĂ©m nĂ©? Passou muita necessidade. As vezes eu atĂ© fico me imaginando, que nĂłs... acho que passamos alguma necessidade, mas imaginou minha mĂŁe e minha vĂł entĂŁo o que que nĂŁo passou nĂ©? Se a gente já passou imagina eles. Nossa, eles esperavam que alguĂ©m ia lavar peixe no rio, que jogava as tripas do peixe. Depois que saĂa , ia embora eles iam lá e catava as tripas de peixe pra comer. Minha mĂŁe, minha tia, sabe? Minha avĂł. Na minha infância... bem, eu lembro das brincadeiras nĂ©, que... eu e minhas amigas, Durvalina, Concessa, Marilina, Marlene nĂ©, era uma turma nĂ©... EntĂŁo a gente fazia turma de... era Valinho contra o BuruĂ. Eu pertencia ao valinho, nĂ©, ainda Durvalina, tudo. E a turma de lá... e nĂłs fazia... brincava de Barrabau... ali... tem a casa de... aonde tem o bar... ali que Ă© a casa de CĂ©sar, tudo.. e a gente brincava ali, nĂ©, que era grandĂŁo pra brincar... ali na porta da escola tambĂ©m. O que eu lembro da minha infância Ă© isso, que tambĂ©m subia lá em cima do morro, fazia pegar essas barquinhas de coqueiro, nĂŁo tem igual uma gamelinha, uma canoinha... A gente entrava dentro daquilo e subia lá no topo e escorregava atĂ© lá embaixo, lá... Nossa, eu brinquei muito. Barrabau era como se... era um jogo... tinha a turma do valinho e do BuruĂ. A gente pegava a bola, saia correndo nĂ©, e nĂłs tinha que jogar lá pro lado deles pra cair... como se fosse jogo de futebol, nĂŁo tem a trave pra... e daĂ eles corriam pra pegar a nossa bola pra pe... outro dia eu estava falando pra Dita de Mário, nĂ©? Falei: -Dita... Ela falou pra mim se eu lembrava, se eu tinha saudade da... eu falei –Eu tenho Dita, eu tenho muita saudade. Ela falou: -Eu lembro tanto de quando nĂłs brincava de Barrabau, nĂ©? Ela tambĂ©m lembra nĂ©. Ela tambĂ©m tem saudade de... NĂŁo tem mais, acabou tudo. Deixaram acabar. Aqui tinha folia de...da Bandeira. Eu lembro... Meu irmĂŁo, eles foram... esses.... lugares assim que Ă© em volta aqui de Iguape... Ă©... Peroupava, tudo esses lugares... Eles ficaram mais de um mĂŞs pra lá, sabe? Meu irmĂŁo. Depois eles vinham aĂ saia vinha a folia de Bandeira, eles iam em todas as casas, sabe? Era muito lindo... cantava folia, tocava caixa, batia, sabe? Mas era muito lindo... Isso daĂ tudo acabou... acabou tudo. Aqui em Icapara... aqui Ă© um lugar que deixou acabar tudo. E perguntar pra essas crianças eles nem sabem o que que Ă© isso. A gen... que eles falavam nĂ© muito... que ela contou pra uma pessoa aqui que a pessoa sĂł falou depois que minha mĂŁe morreu e nem falou pra nĂłs, falou pra minha irmĂŁ Maria Isabel, que a mulher chamou minha mĂŁe e falou: - Benedita, vamos... vamos lenhar, nĂ©? Minha mĂŁe foi com ela. Quando já estava já... já... tinha feito... já amarrado a lenha pra trazer ela falou: -Benedita, espera um pouco aĂ que eu vou... eu já volto. E saiu. E minha mĂŁe ficou ali terminando de amarrar. AĂ de repente quando ela veio, e ela...minha mĂŁe ainda deu pra perceber que ela estava com as mĂŁos tudo peludas, sabe? Minha mĂŁe disse que arrepiou inteirinha, inteirinha que quase morreu de medo. SĂł que minha mĂŁe chegou em casa e falou que nunca mais se ela chamasse minha mĂŁe para ir pra roça, lenhar, alguma coisa, mamĂŁe saia... ia com ela nĂ©, de medo. SĂł que eu nĂŁo vou falar quem era nĂ©, porque fica nĂ©... Ă© chato. (Gilson) EntĂŁo eu... eu morava em SĂŁo Paulo nĂ©... nascido lá. Nem havia ouvido falar de Iguape, muito menos de Icapara nĂ©? E como a gente estava namorando um dia ela me propĂ´s de vir aqui nĂ©, conhecer a terrinha dela. Isso foi em 71 hein, faz tempo, nĂ©? Eu tive que andar 12km atĂ© chegar aqui a pĂ©, porque era bem complicado aquela Ă©poca, alias, era uma estrada de terra desde a BR 116 atĂ© aqui. EntĂŁo, mas eu encantei com o lugar. Ela falava que aquele tempo era pobre nĂ©, acho que nĂŁo dá nem pra qualificar. Pobre somos hoje. Aquele tempo era muito... como aqui nĂŁo tinha nem luz elĂ©trica, nĂŁo tinha nada, vocĂŞ ficava em frente da venda, uma Ăşnica venda que tinha aqui, que era do tio Celso, entĂŁo vocĂŞ via chegar as pessoas lá, comprar 200g de arroz, 100g de feijĂŁo, 50g de mortadela... comprar de gramas... falava meu, isso aĂ nĂŁo... mal dá pra uma pessoa, nĂ©, comer. Mas era assim aqui o lugar. Mas apesar de toda essa pobreza era um lugar muito bonito, muito tranquilo, as pessoas se respeitavam de uma maneira que hoje nĂŁo se vĂŞ mais. Eu nĂŁo nasci aqui, mas eu vim muito aqui e tenho saudade. Aqui, final de ano eu sempre vim pra cá porque tinha uma equipe aqui de... pra tirar folia de reis. EntĂŁo minha casa era a primeira a eles chegarem dia de ano. Eu gostava muito disso daĂ. Hoje infelizmente essas pessoas já faleceram, as tradições praticamente sumiram... culpa de quem? Do progresso. (Genira) Tinha muito baile na casa da minha tia Lála nĂ©, que eles faziam. Minha tia Lala, nossa, Ă©... outro dia a gente atĂ© estava atĂ© falando que A casa da minha tia a cozinha, atĂ© que era uma cozinha boa, Ă©... o quarto dela era pequenininho, tinha uma varan... um corredorzinho assim que Ă© aonde... tinha uma mesa grande que o padre vinha... porque era pra baile mesmo nĂ©, eles faziam baile lá. E eu lembro de ver minha mĂŁe que, minha mĂŁe nĂŁo dançava, nĂ©, minha mĂŁe nunca ia em baile. Mas nas... essas... eu via minha mĂŁe muitas vezes na casa dessa minha tia, eu era criança ainda. Uma dança bem bonita, eles falavam algo, nĂŁo sei se era quatira que eles falam nĂ©. Disso daĂ, do carnaval tambĂ©m da minha infância eu lembro que... o carnaval aqui... tinha uma velin... um negocinho lá, entĂŁo quando saiam os blocos ficava tudo aquelas luzinhas acesas, sabe, era tĂŁo bonito. E os rapazes na...quando eram moços... eles saiam...batucavam, sabe, a batucada deles, saiam na rua... e daĂ era dia de calor assim... calor... eles saiam dali e na hora do almoço eles iam tudo lá pro rio do finado Pedro, que chamavam, nĂ©... tomavam banho, iam pra casa comer alguma coisa e já voltavam pra ... pra farra de novo... pra batucada, nĂ©. Que era muito bom, muito... Carnaval, antigamente aqui nĂŁo tinha luz, nĂŁo tinha água encanada, nĂŁo tinha nada, mas era tĂŁo gostoso que quando terminava aquilo lá ficava no ouvido da gente. O que eu sinto saudade? Eu tenho muita saudade do rio aqui. Tenho. Mas muita, muita saudade desse rio. Que esse rio era muito, muito, muito bom, muito bonito pra nĂłs.