Genira Pereira Villa e Gilson Villa

Lembranças e primeiras impressões | Data da entrevista: 18 de maio de 2018 | 3 visualizações

Transcrição da Entrevista

(Genira) Meu nome Ă© Genira Pereira Villa, eu tenho 63 anos e a minha famĂ­lia Ă© Trudes Pereira.
(Gilson) É... Meu nome é Gilson Villa. Não sou filho daqui de Icapara, casado com uma autêntica icaparana...

(Genira) É, na minha infância aqui era casa de sapê e a gente buscava água nos potes lá na fonte, lá no morro, né, que a gente buscava água. Tinha um rio aqui em volta da nossa casa, bem encostado a casa, tinha um rio, que era muito lindo aquele rio.
Todo mundo nadava lá, parecia uma piscina. E pescava também quando a mare estava cheia né, e pescava, tinha peixe, tinha siri. E depois foi mudando né aqui, aí começou a fazer casa de tijolo, né de... a maioria... e aí foi acabando as casas de palha, de sape né, que era de sape.

Aqui era como se todo mundo fosse uma família. A gente ia, saia, era criança, saia aí no quintal de alguém, pegava laranja, ia num pé de goiaba, catava goiaba, igual os meninos hoje ainda fazem, tem muita criança que faz isso daqui, mas a nossa época de criança foi muito lindo, muito, muito, muito bom. Jamais vai voltar uma infância que igual a gente teve aqui, não volta nunca mais.

Faziam muita farinha. Que minha mãe fazia muita farinha porque ela teve bastante filhos e... mas o pouco que plantavam era pra nós comer, que era muito pouco, né. Arroz também quando eles plantavam também, pra... o consumo que não dava nem pra... não dava nem pro mês né, porque nossa família era muito grande.

Tem gente que pensa que meu pai não trabalhou mas eu sei que ele trabalhou muito, meu pai trabalhou. Pescou muito, ia vender, pegava as canoas com peixe, canganguá que ele comprava... que ele pescava e ia de canoa remando até a cidade pra vender. Chegava lá ficava o dia inteiro lá no mercado pra vender o peixe. Não tinha valor nenhum, sabe. As vezes ficava aquela montoeira de peixe lá pra vender, mas ele trabalhou muito, meu pai... e minha mãe então nem se fala. Minha foi a ... trabalhava... minha mãe fazia coisas que... ela fez um buraco no chão e forrou com um pano, enquanto meus irmãos colhiam arroz. Eles não tinham levado nada pra comer. Nada, a não ser um pouco café. Ela pegou o arroz, fez um buraco no chão, pôs o arroz ali, socou com um pau e dali ela tirou o arroz e fez uma panelada de arroz pra eles. Quando chamou eles pra tomar o café eles vieram tudo sem graça né pensando que ia só ter o café. Chegaram tinha uma panela de arroz. Nossa foi uma alegria pra eles, coitados.

Foi uma vida sofrida também, né. Muito sofrida. Pobre. E hoje em dia ainda tem né? Tanta... A gente vê na televisão tem gente muito pobre ainda também né? Passou muita necessidade. As vezes eu até fico me imaginando, que nós... acho que passamos alguma necessidade, mas imaginou minha mãe e minha vó então o que que não passou né? Se a gente já passou imagina eles. Nossa, eles esperavam que alguém ia lavar peixe no rio, que jogava as tripas do peixe. Depois que saía , ia embora eles iam lá e catava as tripas de peixe pra comer. Minha mãe, minha tia, sabe? Minha avó.
Na minha infância... bem, eu lembro das brincadeiras né, que... eu e minhas amigas, Durvalina, Concessa, Marilina, Marlene né, era uma turma né... Então a gente fazia turma de... era Valinho contra o Buruí. Eu pertencia ao valinho, né, ainda Durvalina, tudo. E a turma de lá... e nós fazia... brincava de Barrabau... ali... tem a casa de... aonde tem o bar... ali que é a casa de César, tudo.. e a gente brincava ali, né, que era grandão pra brincar... ali na porta da escola também. O que eu lembro da minha infância é isso, que também subia lá em cima do morro, fazia pegar essas barquinhas de coqueiro, não tem igual uma gamelinha, uma canoinha... A gente entrava dentro daquilo e subia lá no topo e escorregava até lá embaixo, lá... Nossa, eu brinquei muito. Barrabau era como se... era um jogo... tinha a turma do valinho e do Buruí. A gente pegava a bola, saia correndo né, e nós tinha que jogar lá pro lado deles pra cair... como se fosse jogo de futebol, não tem a trave pra... e daí eles corriam pra pegar a nossa bola pra pe... outro dia eu estava falando pra Dita de Mário, né? Falei: -Dita... Ela falou pra mim se eu lembrava, se eu tinha saudade da... eu falei –Eu tenho Dita, eu tenho muita saudade. Ela falou: -Eu lembro tanto de quando nós brincava de Barrabau, né? Ela também lembra né. Ela também tem saudade de... Não tem mais, acabou tudo.

Deixaram acabar. Aqui tinha folia de...da Bandeira. Eu lembro... Meu irmão, eles foram... esses.... lugares assim que é em volta aqui de Iguape... é... Peroupava, tudo esses lugares... Eles ficaram mais de um mês pra lá, sabe? Meu irmão. Depois eles vinham aí saia vinha a folia de Bandeira, eles iam em todas as casas, sabe? Era muito lindo... cantava folia, tocava caixa, batia, sabe? Mas era muito lindo... Isso daí tudo acabou... acabou tudo. Aqui em Icapara... aqui é um lugar que deixou acabar tudo. E perguntar pra essas crianças eles nem sabem o que que é isso.

A gen... que eles falavam né muito... que ela contou pra uma pessoa aqui que a pessoa só falou depois que minha mãe morreu e nem falou pra nós, falou pra minha irmã Maria Isabel, que a mulher chamou minha mãe e falou: - Benedita, vamos... vamos lenhar, né? Minha mãe foi com ela. Quando já estava já... já... tinha feito... já amarrado a lenha pra trazer ela falou: -Benedita, espera um pouco aí que eu vou... eu já volto. E saiu. E minha mãe ficou ali terminando de amarrar. Aí de repente quando ela veio, e ela...minha mãe ainda deu pra perceber que ela estava com as mãos tudo peludas, sabe? Minha mãe disse que arrepiou inteirinha, inteirinha que quase morreu de medo. Só que minha mãe chegou em casa e falou que nunca mais se ela chamasse minha mãe para ir pra roça, lenhar, alguma coisa, mamãe saia... ia com ela né, de medo. Só que eu não vou falar quem era né, porque fica né... é chato.

(Gilson) Então eu... eu morava em São Paulo né... nascido lá. Nem havia ouvido falar de Iguape, muito menos de Icapara né? E como a gente estava namorando um dia ela me propôs de vir aqui né, conhecer a terrinha dela. Isso foi em 71 hein, faz tempo, né? Eu tive que andar 12km até chegar aqui a pé, porque era bem complicado aquela época, alias, era uma estrada de terra desde a BR 116 até aqui. Então, mas eu encantei com o lugar.
Ela falava que aquele tempo era pobre né, acho que não dá nem pra qualificar. Pobre somos hoje. Aquele tempo era muito... como aqui não tinha nem luz elétrica, não tinha nada, você ficava em frente da venda, uma única venda que tinha aqui, que era do tio Celso, então você via chegar as pessoas lá, comprar 200g de arroz, 100g de feijão, 50g de mortadela... comprar de gramas... falava meu, isso aí não... mal dá pra uma pessoa, né, comer. Mas era assim aqui o lugar. Mas apesar de toda essa pobreza era um lugar muito bonito, muito tranquilo, as pessoas se respeitavam de uma maneira que hoje não se vê mais. Eu não nasci aqui, mas eu vim muito aqui e tenho saudade.
Aqui, final de ano eu sempre vim pra cá porque tinha uma equipe aqui de... pra tirar folia de reis. Então minha casa era a primeira a eles chegarem dia de ano. Eu gostava muito disso daí.
Hoje infelizmente essas pessoas já faleceram, as tradições praticamente sumiram... culpa de quem? Do progresso.

(Genira) Tinha muito baile na casa da minha tia Lála né, que eles faziam. Minha tia Lala, nossa, é... outro dia a gente até estava até falando que A casa da minha tia a cozinha, até que era uma cozinha boa, é... o quarto dela era pequenininho, tinha uma varan... um corredorzinho assim que é aonde... tinha uma mesa grande que o padre vinha... porque era pra baile mesmo né, eles faziam baile lá. E eu lembro de ver minha mãe que, minha mãe não dançava, né, minha mãe nunca ia em baile. Mas nas... essas... eu via minha mãe muitas vezes na casa dessa minha tia, eu era criança ainda. Uma dança bem bonita, eles falavam algo, não sei se era quatira que eles falam né.
Disso daí, do carnaval também da minha infância eu lembro que... o carnaval aqui... tinha uma velin... um negocinho lá, então quando saiam os blocos ficava tudo aquelas luzinhas acesas, sabe, era tão bonito. E os rapazes na...quando eram moços... eles saiam...batucavam, sabe, a batucada deles, saiam na rua... e daí era dia de calor assim... calor... eles saiam dali e na hora do almoço eles iam tudo lá pro rio do finado Pedro, que chamavam, né... tomavam banho, iam pra casa comer alguma coisa e já voltavam pra ... pra farra de novo... pra batucada, né. Que era muito bom, muito... Carnaval, antigamente aqui não tinha luz, não tinha água encanada, não tinha nada, mas era tão gostoso que quando terminava aquilo lá ficava no ouvido da gente.

O que eu sinto saudade? Eu tenho muita saudade do rio aqui. Tenho. Mas muita, muita saudade desse rio. Que esse rio era muito, muito, muito bom, muito bonito pra nĂłs.
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