Eurides Pontes Ribeiro

Famílias, lembranças de infância e casamento. | Data da entrevista: 09 de setembro de 2015 | 10 visualizações

Trecho da entrevista em vídeo:
Este vídeo apresenta apenas um trecho da entrevista. A transcrição completa está disponível logo abaixo.

Transcrição da Entrevista

Era melhor de viver, era mais bonito, não tinha dinheiro. Não tinha dinheiro mas tudo o que se arranjava era como uma família só, se repartia. E agora não, é diferente. Está tudo mudado, tudo desunido. Não é a mesma coisa.

Naquele tempo aqui, a agricultura, o que mais socorria o povo era o arroz. A maioria do povo do Icapara viviam pro Capoava. Iam para o Pindú, Cuanduruquara plantar arroz. Plantar arroz e era uma coisa que dava muito, muito, muito aqui. Meu pai tinha que plantar arroz, nós tinha. O Itapema inteirinho era nosso. Da família do meu p... aí nós plantava muito ali. Tudo tinha com fartura, o peixe era por demais. Tinha com muita fartura. Todo mundo tinha sua lavoura de arroz, de feijão. Feijão a gente plantava até aí pro Caparinha. Todo mundo plantava e colhia muita raça de feijão.

Meu pai vivia mais era da pesca. Eles iam pescando daqui até Iguape. Chegava lá, naquele tempo, tinha mercado público e na volta, de tarde, já voltavam com o sustento pra casa. E quem trabalhava na lavoura de arroz fazia a mesma coisa, vendia o arroz pra manter a casa. E sempre tinha. E o que nunca deixou de faltar foi a farinha de mandioca. Porque se tivesse a farinha de mandioca e tivesse peixe com fartura ninguém passava fome, porque dinheiro praticamente não existia.

Mas pra falar a verdade era melhor. Era bem melhor que agora. Agora a ganância, a ambição pelo dinheiro aqui dos... só agora nessa época o que visa mais é o dinheiro e naquele tempo não, a pessoa... coisa... tinha seu bom arrozal de arroz que desse bastante, tinha o feijão que aonde plantasse ele dava mesmo com fartura. Eu comi muito feijão dali do pé do Abricó do caminho do pontal. Comi muita raça de feijão dali.

Sinto muita falta dos meus pais. Mas eu tenho saudade da família grande. Nós era doze pessoas. Eram 10 filhos, doze filhos. A menina morreu desse tamanho já de maleita e o menino também. O menino com 6 anos, já atirava de bodoque, tudo, morreu, tudo os dois da maleita. A maleita virou uma peste neste lugar que matou muita raça de criança, de gente.

Agora falta de dizer que agora tem feijão de fartura, as coisa de fartura, tem dinheiro de fartura, isso eu não sinto falta.

Se qualquer um tinha uma roça pra carpir, pra plantar, nós já chamava de ajuntório. Vai ter ajuntório, vai ter ajuntório, vamos lá na roça daquele fulano. Cavamos tudo e plantamos num dia só, de tarde era cozido uma panela de arroz, socado no pilão cinco ou seis quilos de farinha com umas tirinhas de carne seca. Chamava todo mundo ali, todo mundo comia igual. Chamava de ajuntório, e aquela pessoa ficava com sua roça plantado, feliz da vida, seguro de que ia ter, pronto. Porque se ele tivesse nós tinha também.

A família maior aqui era os Trudes. Depois dele era nós, os Pontes. Nós também era uma família grande.
Os Trudes eram mais do que tudo. Esses eram igual pixaxó pra plantar arroz. Pra plantar arroz igual os Trudes não existiu. Eles eram danados.
Nós morava lá, lá... você sabe onde era a casa de papai lá na ponte grande. Nós nunca saímos de lá. E pra nós tudo o que nós tinha que comprar era no bar de tio Celso. Era o bar de tio Celso que pagava o Pato.
Papai dizia: - Vai mandar essas duas meninas por aí – que era eu com Zenaide – essas horas da noite o povo já está cada um no seu rancho acomodado, vão cair aí pro caminho. – Que cair nada.
Aí quando foi um belo dia papai disse: - eu não vou deixar essas duas irem sozinho por aí, eu vou levar eles até ali..., mamãe disse: -Levar aonde, pois você tá morto de bêbado, você chegou agora da cachaça desde que chegou da cidade – que ele andou lanceando pra cidade, deixou as coisinhas em casa, o trocado que ele veio com ele da cidade ele veio torrar aí no inferninho, que chamavam o bar de Amélio de inferninho. Aí torrou-se, foi pra casa, mamãe mandou nós pegar um litro de querosena, que nós ia anoitecer sem luz, sem querosena em casa. Aí nós viemos com Naide, comprar fiado em casa de tio Celso. Ele tocou-se, veio de camarada pra nós, tomar conta de nós. Aí chegando, no vim de casa de nós até cá onde é a casa de Angelo, pra cá mais, não tinha a casa de Angelo, não tinha aquelas casas por ali, era tudo um caminho escuro, grande. Chegou lá, papai deu uma trupicada e caiu de lá, Naide empurrou ele vuuuuh no Caraguatá, joguemos papai num caraguatá. Joguemos papai.. – E agora Ide, o que fazemos? – Deixe ele deitado aí! Não Ide, aqui tem cobra grande nesta coisa de valinho, de mangue, tem cobra grande. -Você derrubou, agora você suspenda ele. Porque... Aonde você pensa que papai vai nos levar desse jeito que está. Quando é que vamos voltar. Vamos apanhar todas as duas por causa de você.
Aí levantemos papai, um grudou pro um ombro, outro grudou pro outro. Chegou bem ali no nhô Chico Maneco pra cá, que já tinha mais claridade, peguei, deixemos ele sentado lá, porque ele não aguentou a viagem, ele estava morto de torrado. Zenaide assentou-lhe um baque nele que...
Aí viemos, compramos a querosena, na volta peguemos papai de volta, levemos pra casa. Chegou em casa mamãe desconfiou que ele estava todo cutucado.

Amanheceu só caraguatá por tudo. Nos xingava que só vendo. Quem manda!
Mamãe disse:
- Arre, por uma parte bem feito. Hu-hum, você Tomou o que precisava.

Ô, pois nós namoremos desde que nascemos, desde que era moleque, desde que coisa. Papai chamou o pai dele, o pai dele bebia feito um candango, papai do outro lado também, se juntaram os dois lá em casa. Chegou lá ele chamou eu e ele e disse:
- Vocês dois de hoje em diante não podem olhar pra cara de ninguém porque vocês dois vão casar.
Ahhh, mamãe queria matar ele. Nossa, Mamãe até tocou o compadre de lá, que era compadre dela duas vezes, o pai dele e a mãe dele. Hum, hum. De raiva desse... de papai ficar arranjando. Levou ele lá pra me apresentar que era meu namorado, meu marido.
(Narciso) Só que depois que casemos fiquemos 10 anos separados.
(Eurides) Dez anos separados, por causa de uma doença que me deu. Por causa de uma tuberculose. naquela época tuberculose era doença terrível de curar. Era difícil, difícil. É.
Pra se juntar é que mamãe de casa não saía... Não deixava sair. Chamou Ezanao, levou a gente pra cidade, tudo, me vestiram, me arrumaram e levou a gente pra cidade e fizeram o casamento. Fomos de canoa, de barco...
(Narciso) Numa bateira que...
(Eurides) Numa bateira. Naquele tempo não tinha carro, era de bateira. Que de carro daquele jeito mamãe não queria e ele também não podia aceitar.

A mãe dele nos deu uma surra no dia do casamento, que. Não foi Narciso? Nós que cheguemos de casar, a festa, o padrinho dele era tio Benedito Feitiço. Papai, Ezanao, tudo, entramos tudo pra dentro. Tia Maria Francisca já tinha arrumado a festa. O pai dele ainda apoiou, apareceu por lá.
(Narciso) Não, papai não apareceu, porque papai já era doente.
(Eurides) Já era doente.
A mãe dele passou o dia inteirinho na roça pra não ter que ver esse casamento. Aí quando ela chegou da roça nós estava chegando de casar da festa lá também. Minha sogra que chegou primeiro grudou nele. Primeiro grudou nele, imprensou ele de contra a porta, deu-lhe uns corcovos nele, hum, hum, deu-lhe uns corcovos nele, ele só se defendia assim, aí ela veio pra cima meu. Quando ela veio pra cima de mim me xingando de teimosa, de não sei do que e avançou pra me bater, eu vumm, na mão dela. Eu disse:
- Hum, hum, em mim não! apanhei e apanho da minha mãe a hora que ela achar que eu devo apanhar, mas da senhora não. Não fiz nada errado. E eu vou ficar aqui, vou morar com seu filho aqui.
- Aqui não!
Eu disse:
- Aqui mesmo, a casa é dele.
Ela avançou pra me bater, que. Aí não se contentou foi pegou uma lasca de tábua e veio pra cima de mim. Eu disse:
- Nada feito, não vai me bater.
Pulou tia Telvina, tia Cota, todos eles e não deixaram.
(Narciso) Passado pouco tempo que papai morreu aí ela foi pra Santos e eu fiquei sozinho aqui.
(Eurides) O Pai dele faleceu, ela largou ele sozinho com Edilson que era pequeno. Aí Mercedes vendo e Ezanao, o que ele ia sofrer com o menino porque não ia poder pescar, não ia poder nada, como é que ia viver. Aí Ezanao... Ela largou por não suportar esse casamento, mas isso não vai acabar aí não, essa história. Ela ficou sozinha, solitária lá. Olha aí a casinha que fizemos pra ela. Fizemos a casinha e trouxemos ela pra cá. Com nós ela não queria morar, então fique no seu ranchinho. E ela veio aí e foi aí que ela acabou a vida conosco.

(Narciso) Naquela época já tinha padaria aqui que era ali no porto.
(Eurides) Tio Arcelino.

Tinha esse caminho desde ali da casa de Totó Pipa até lá a casa de Amadeu que chamavam do caminho grande, era só um tenebroso de um escuridão. Não tinha luz, não tinha nada, era só na escuridão. Nós andava com o tição assim alumiando.

Mas pra falar a verdade o povo do lugar naquele tempo era melhor, era bem melhor o povo do lugar.... a criação, sabe.

(Narciso) Era três famílias só... era o Trudes, o...
(Eurides) Os Franco...
(Narciso) Os Franco e... esses coisa aqui de Alcides aí...
(Eurides) Os Mattos, não era Franco, era Mattos. Os Mattos, os Trudes eram mais de tudo. Uma grande mistura de gente, era de tuda raça.
Aí tio Teodoro bebia uma cachaça, assoprava a boca pra cima pfuuu, Icapara é Pão de Açucar, pfuuu, Icapara é Pão de Açucar. Ele chamava de Pão de Açucar porque ele não gostava que tudo vinha se acoitar aqui, tudo vinha parar aqui. Era uma mistura de gente, uma mistura de família que não tinha conta, e tio Teodoro Vito não gostava então ele chamava que o Icapara era Pão de Acúcar, tinha açúcar.

João Gomes, o marido do... que se juntou-se..
(Narciso) Com minha avó...
(Eurides) É, ele fugiu da família, ele era refugiado, escravo refugiado. E depois a avó dele foi morar com ele isolado lá no meio do mato, no Itapema. João Gomes, um valente de um negro, que...
Ele não tinha dinheiro como esses, tinha prata do tempo da escravatura, nhô João Gomes, só prata. Sacos e sacos de prata assim, de moeda. Mas a gente nem ligava, nós... não... pra... gente não tinha valor aquilo ali.
(Narciso) Aí a família veio e carregou tudo.
(Eurides) As duas filhas foram embora, pegaram ladinesa e vieram aí carregaram a prata. E nós ia lá, Narciso ia lá que a mãe morava com ele. Aí pegava um e trazia pra tio Celso trocar pra dinheiro bom pra ele, esse abobabo aí, que se conhecesse tinha enchido o bolso de prata... de moeda de prata.

Olhe, o Trudes veio de longe, né Narciso, vovó Etelvina contava aí.
(Narciso) Diz que vieram da Espanha.
(Eurides) Foi um refugiado, foi um refugiado que refugiou-se desses mambembes desses estrangeiro e veio parar aqui, veio parar aqui num navio, chegou aqui já encontrou esse lugar aqui e ficou. Daqui foi multiplicando, foi multiplicando que encheu o Icapara. Quase todo mundo aqui é Trudes.
O de papai, nós não era daqui. A família do meu pai não era daqui, era do Momuna. E chegou aí no Itapema encontrou mamãe. Mamãe morava com vovó. Mamãe eram donos do Itapema. Que quando vovó abriu o olho mamãe já estava namorando com papai. Namoro foi esse que ela surrou... deu uma surra muito grande em mamãe e entregou na mão de papai. Mas uma surra! Surra de criar bicho. E ela morreu, vovó, e não abriu mais a boca pra falar com nenhum dos dois, de caprichoso que era. Com papai, ela disse que papai que era de raça de bugre, era feio e mamãe era neta de alemão.

É que naquele tempo a gente respeitava muito os mais velhos.

A única pessoa engraçado que tinha naquela época era o filho de tia Olimpia, Sérgio. Sérgio era aleijadinho, era aleijado. Mas era desgracido pra brigar. E pra jogar, empurrar a gente no rio, então. E se nós ia tomar banho nesse rio aí ele vinha sossegado, pegava na roupa de todo mundo e jogava n’água, que era pra ver todo mundo sair dali pelado porque a gente tomava banho sem roupa, porque se molhasse a roupa que o pai e a mãe visse ia apanhar, né. Nós apanhava toda tarde. Era só nós vir nadar no rio Sérgio estava lá de espreita. Era uma tentação, o tal de Sérgio.

Nós ia dançar na veira da casa, as meninas. Nós corria dançar pra veira da casa. Mas se arranjasse algum namoradinho, que o namorado fosse dançar e a gente fosse escondido, nossa. Papai tirou Zenaide pelo cabelo do braço de Osvaldo Chuchu, que chamavam ele de Osvaldo Chuchu, tirou ela pelo cabelo, levou ela pra veira da casa, deu-lhe uma corça, que.

(Narciso) Antigamente aqui tinha muita festa.
(Eurides) Muito, Muita festa.
(Narciso) Muita festa.
(Eurides) Muito. Tudo fim de semana tinha fandango.
Dançava pouco! Esse é um arruinado que andava aí atrás de fandango.
Festa tinha, era tempo mais alegre, olhe. Agora vem dia de São Joao não tem nada, dia de Santo Antonio não tem nada, de São Pedro não tem nada. Naquele tempo não se perdia. Chegava... começava de Santo Antonio... festa, festa de rodar a noite, do fandango rodar a noite. São Pedro esse que nem coisa. O, cada pai de família, um ano era um, outro ano era outro, outro ano era outro, que pegava-se de festeiro. Era todo mundo... naquele tempo... hoje você não vê homem do Icapara nenhum na Igreja, mas antigamente todo o Icapara inteiro frequentava a Igreja. E lá na Igreja era feito o sorteio:
- Este ano quem vai ser festeiro de Santo Antonio, quem vai ser festeiro de São Pedro, de São João.
Xiii, nós levava o mastro, o Icapara inteiro ia buscar o mastro de lá, acompanhando. Chegava na Igreja ia erguer o mastro, tudo enfeitado, enfeitado, enfeitado. E fazia a festa pra São Pedro. E agora não tem mais nada disso, acabou-se tudo. Ficou tudo minguera aí pra beira da Igreja, unzinho, dois vai, outro tanto não vai. Por isso que acabou-se. Isso acabou-se. Foi o primeiro que acabou-se.

Ai meu Jesus Cristinho.

(Eurides) Eu sou Eurides Pontes Ribeiro, tenho 71 anos, é, né Narciso. É 71.
(Narciso) Narciso Trudes Ribeiro, 75 anos.
Somos casados a 50 anos.
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