Trecho da entrevista em vídeo:
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Transcrição da Entrevista
FamÃlia e Trabalho: Faziam o quê? Meu pai é pescador, pescava, trabalhador, era considerado o maior homem trabalhador de Icapara. Papai era um peixe assado, café e, ó, aquela farinha branca que nós chamamos, aquilo era o almoço dele. Ao pescar, ele não deixava os companheiros dormir de madrugada, reclamavam dele, porque ele não dormia de noite, pelo menos na época da tainha, né. A minha mãe era, era mais calma, né. Só trabalhava na roça, trabalhava assim, colhia arroz, ia plantar mandioca. Era o serviço da época, né, que hoje em dia não se faz mais; hoje a turma virou tão folgada, e eu também! E aà a vida mudou, né. Dificuldades e Transporte: Pra cidade nós Ãamos de canoa. Aà a remo daqui lá, que dá 12 quilômetros, ia de canoa, dependendo da maré, do vento, à s vezes pegava a estrada. Depende do horário que ia chegar, eu já remei quantas vezes contra a maré, vento de frente. Que era obrigado a levar a minha mulher que estava grávida e eu tinha que enfrentar, que aqui não tinha jeito mesmo, as parteiras... levava no lugar mais seguro, né, levava lá pra Iguape. A Prática da Medicina Local: Tinham uns caras que consultavam aqui, né. Tinha um... era da famÃlia daquele Alemão... até esqueci o nome dele. Muito antigo, eu era criança na época. Aà depois apareceu o Benedito Nascimento. O Benedito entendia bem, ele entendia mais do que algum farmacêutico de Iguape. Aqui surgiu uma doença chamada paratifo. Ele descobriu pelos livros, né, que ele leu, e ele receitava o remédio, a farmacitina ou quimicitina. Chegaram até a processar ele, querer prender ele, mas ele fazia, o povo confiava nele. E ele lia, ele tinha livros, lia e sabia qual o remédio. Ele era bom, bom mesmo. Era melhor do que cargo de farmacêutico em Iguape. Isso faz uns 30 anos atrás. O Clima na Região: Na época do frio, então é um vento... aqui é um vento norte, né, mas aparece quando tá amanhecendo o dia. Agora é o norte, então saem aquelas nuvens que têm muita cerração. Então aqui o meu pai e todos os antigos chamavam de "terralão". Então era um vento norte fraquinho que dava isso só na parte da manhã. Aà chegava à s 9 horas ele desaparecia, mas um vento frio daquele que o cara tinha medo de pisar na água mesmo, que era ruim. Identidade e Juventude: Meu nome é Calino. Me chamam de Caleno. Calino de Mattos, com dois "t" no final. Mas me chamam de Caleno, agora muda. Sou de 14 de julho de 1939. Então tô com 78, né, 78 anos. Eu gostava de dançar, né, ó. Chega mais! Mas hoje não... acabou aquilo. Tinha a sede, pulava o carnaval. Mas eu não ia lá dançar, que eu não gostava de pular não. Mas uma dançadinha assim segura... gostoso... Quem não gosta? De abraçar várias mulheres naquela época. Tudo moça, né, eu era moço, e também depois de casado aà a minha mulher virou crente, aà a coisa foi ficando diferente, a gente ficando velho, deixando, e também acabou aquilo, né.