Benedito Roberto Ribeiro (Dito Saruva)

Transformações no bairro Icapara e memórias | Data da entrevista: 11 de setembro de 2015 | 2 visualizações

Trecho da entrevista em vídeo:
Este vídeo apresenta apenas um trecho da entrevista. A transcrição completa está disponível logo abaixo.

Transcrição da Entrevista

Benedito Roberto Ribeiro, é... 75 anos. Já vou fazer em novembro 76. Quando era aquele tempo, nossa idade, enquanto nós era novo, aquilo era difícil para nós. Foi uma vida muito difícil. A nossa idade, a minha idade, a idade dos outros e dos que já se foram. Que nós não tinha estrada, nós não tinha o trânsito de motor, porque ninguém possuía motor. Ou era canoa a remo ou a pé pela estrada... estrada do telégrafo.
Aí depois, quando começou a melhorar.... nós não tinha luz elétrica, nós não tinha água encanada, nós não tinha o gás. As mulheres se serviam lavar roupa, tirar água do rio. A vida ali, nossa, era duas vidas aqui sofridas. Uma era a pescaria e outro era a roça. E as mulheres era o serviço mais de roça. Tudo tinha com fartura... pegava o peixe... a fartura nós tinha aqui. Só que o dinheiro não sei por que que era escasso. O dinheiro escasso. Você não conseguia... se você precisava de comprar um sapato, estudar na escola, como nós estudamos até a terceira série. Mas muitos não fez a terceira série porque nós não tinha escola. Icapara não tinha escola. Icapara era uma cid... um lugar isolado. Até muita gente falava, as professoras que vinham do interior de São Paulo, daí ... diziam que isso era uma aldeia. E era mesmo, porque dificultava ela né. Não tinha casa de escola. A primeira casa de escola é aquela que está ali ainda uma metade que foi feito pela colônia de pesca e depois não terminou. Foi terminado depois que veio o prefeito Pedro Coutinho e o filho dele, Marcondes, que veio pra cá de professor que meteu a mão por conta dele, que ele podia mexer né, aí ele conseguiu falar...: “Não, eu vou fazer, se foi feito pela colônia então é do povo. Eu vou dar uma arrumada”.
Mas nós estudamos em casa particular, em casa de Gonzaga, aqui em casa de seu Vitoca, em casa de seu Claudino. A escola era dividida pra lá. Até que depois de ... dali de uns anos de... de [19]46 para [19]50 aí veio a primeira escolinha ali onde está aquela mesma. Então ali já foi melhorando. Foi melhorando pra criançada. A criançada já foi estudando. Só que era um estudo que a quarta série demorou pra chegar no Icapara. Então ali era tudo difícil pra nós. Era difícil. Muito trabalho e pouca coisa. Ali você tinha dificuldade até pra comprar uniforme para ir para a escola. Nem tudo tinha, que era calça curta e camisa branca de, de..., de algodãozinho. Então, mas nem tudo tinha. Esse sapato pra nós não era... não existia. A vida era difícil mesmo.
Eu acho que hoje melhorou muito. Melhorou. Que hoje nós temos a estrada, tem a... o mercado hoje no Icapara, já tem os comércios melhores no Icapara, que naquele tempo não tinha né. Aí tem a água encanada. Já não precisa ir pro rio buscar água né, lavar roupa né? Já temos o gás que hoje já todo mundo já tem o seu fogão a gás em casa que nós... já parou de... de ir pra lenhar, né, catar lenha no mato. Mas hoje a vida já está mais fácil. Está mais fácil num sentido. Mas no outro sentido... Acho que na convivência que nós tivemos e na convivência de hoje a vida é mais difícil. Porque antes tempo tudo era bom, tudo era respeitado. Por exemplo quando você “aprontava-se” numa época de carnaval. Aqueles dias parava pra brincar o Carnaval, parava com pescaria, para com o serviço. E tudo dava certo. Tudo trabalhava na base da união. Tudo no amor um no outro, um ajudava o outro. Como a gente ajudava os outros os outros nos ajudavam né? E assim era o Icapara inteiro. Você tinha por exemplo naquela época uma roça. Aí juntava-se 10, 12 pessoas. Mesmo sem você saber, quando você estava na roça o povo estava chegando. Poxa vida, pois eu não convidei. Mas estava chegando pra ajudar você. Ah, mas eu não convidei os senhores pra trabalhar. Não, mas nós viemos ajudar você. E quando você...o outro tinha você também já ia ajudar ele. Que hoje a classe de Icapara e dos outros municípios como até a cidade é cada um por si e Deus por todos.
Entre as famílias que eram pessoas de respeito, pessoas de amor e mandavam na vizinhança e tinha aquele controle. E dizer que aquilo, pra hoje a gente estranha... que hoje você não pode chegar pra um moleque que está bagunçando ou está até desacatando um mais velho onde estiver, você não pode nem falar. É melhor você sair, levantar e não discutir com eles.
Os mais velhos, coitados. Eles trabalharam a vida inteira no serviço e não tiveram condições de ter nada. Não tinha nada. É o que a gente está se referindo aqueles tempos que passou.
Bailes

Aqui no Icapara sempre foi dois lados de baile, que a gente que... na época mesmo chamava de fandango, né? A gente Chamava o fandango. Era ou na casa de seu Claudino, ou falecido Amaro Trudes, aqui na casa de finado Júlio Barbosa, onde está a pracinha, ou aqui em casa de seu Vitoca, em casa de seu Dionísio. O baile né?
Ali era o seguinte, se fosse o carnaval, na época de carnaval você deixava tudo, todo mundo deixava, ia brincar o carnaval. Brincava o carnaval de Sábado, de sábado de carnaval, de sábado gordo que a gente falava até de noite, a meia-noite ou mais de quarta-feira, de terça pra quarta-feira. Aí você tinha aquilo como uma tradição pra todos os tempos quando chegava você ia brincar, você brincava com harmonia com o povo.
O povo tinha aquela educação, o povo gostava daquilo e tudo dava certo. Os novos não podiam quase se aproximar de uma sala de baile porque nós mesmos, eu mesmo, antes de começar a tocar em fandango com os meus pais, meus irmãos, a vida da gente era ficar na rua. Não podia permanecer, a não ser que estivesse chovendo, queria entrar no baile. Então depois que a gente já começou a tocar viola, cantar no baile, então a gente já tinha o direito de entrar no baile né? E... quando eu... quando Floramante era vivo..., Floramante era uma pessoa, que eu gostava muito de Floramante. Floramante para mim era igual um irmão. Então ele era a única pessoa que quando nós estava em casa, muitas vezes ele, sábado assim, inventava um baile, ia ele, falecido Pido Pava, Olivio né, que já todos eles já foram né, já faleceram, eles iam lá convidar para o baile. Não, vamos fazer... É mais nós queremos fazer... falar com papai, com Elói né? Vamos fazer o baile? Vamos.
Nós tinha a casa de Gonzaga, ou finado Joaquim Trudinha, nós ia lá fazer o baile. Aquilo ali dançava até de manhã. E o baile que... aí convidava a moçada, eles mais convidavam a moçada... as moças, por exemplo, os pais das meninas né, os pais da moça. Convidavam para eles irem ao baile pra levar as moças né? E a gente ia. Aquilo era diversão a noite inteira. Aí você dançava a moda que dançava, você tocava a moda que eles pediam, você fazia tudo... Aquilo era uma alegria para o povo.
Folia da Bandeira

Então, depois vinha também uma coisa que foi tradição pra nós foi a folia de bandeira, a bandeira do Espírito Santo ou de São Benedito ou de Nossa Senhora da Conceição.
Quando começava, entrava no Icapara, e a bandeira do Espírito Santo cada um fazia seu trecho, um ia pro Ribeira acima, o rio Ribeira que começava de Iguape pra cá, outro ia aqui beira-mar, que começava do Prelado pra cá, outro ia pro lado de Peroupava, rio de Una, rio das Pedras. Então, aquilo, quando chegava aqui a bandeira, todo mundo deixava seu serviço.
Eu lembro que finado seu Claudino, finado Joaquim Trudinha, falecido Dorandino, tudo deixavam lá e vinham pra cá acompanhar a bandeira, que era uma festa. Onde pousava, chegava aqui e dizia: Hoje nós vamos pousar na sua casa? Você dizia: Não, pode pousar. A bandeira vai dormir hoje aqui, vai pousar aqui. Se tivesse condição, à noite era o baile.
Pousava, tinha aquele jantar para todo mundo e a noite o baile. Pelas 4 horas e meia, 5 horas da manhã aí parava o baile e ia cantar a alvorada. Aí os foliões pegavam os instrumentos e iam cantar desencerrar a bandeira. Quando era no encerro da bandeira de noite, cantava, pedia pouso com a chegada, pedia pouso depois ia para o encerro. Era embolada a bandeira, guardada num fardo e madrugada ao clarear do dia ia ter a cantoria para desencerrar a bandeira. Só ia deixar de acompanhar a bandeira quando se jogava lá para a casa do falecido João Gomes, que terminava aqui. Ia pra lá porque ia seguir pra enseada, lá pra toca do Bugio. E muitos ainda iam acompanhando.
Aquilo o povo ficava até com saudades, porque aquilo é uma tradição que nunca mais a gente viu. Não tem mais ninguém pra aquilo e nunca mais a gente vai ter. Aquilo era uma festa para o povo, era uma festa para o povo.
Mesmo a gente, nós em casa fomos 4 filhos. Começou de Elói, depois veio João, depois veio eu e depois foi Roberto... e papai. Papai era folião, papai cantava folia. Elói, de cantador passou a ser rabequista, aprendeu a tocar a rabeca, já saia como rabequista. Agora, nós fomos “cantador”, eu, João, Roberto, já fomos “cantador”. Compadre Totó, “Totó Baixinho” cantou folia muito, né, cantou muita folia.
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Estrada

A primeira... essa estrada aqui pelo morro ela foi aberta em... foi começado a passar máquina foi de [19]64 pra [19]65. Mas veio ser aperfeiçoado mesmo..., mas sem asfalto, com dificuldade, mas sem asfalto, foi pedregulhado tal... foi de [19]69 pra [19]71. Aí já começou... aí veio a companhia da Sudelpa, que os prefeitos requisitaram pelo Estado né, pelo governo. Naquela época foi Paulo Izidio Martins, antes foi... Paulo Izidio Martins eu lembro muito bem. Que tinha a equipe da Sudelpa, que aquilo era pra ajudar todos os municípios né, todos os municípios. Então eles trabalhavam de que jeito? Eles trabalhavam com uma frota de caminhão, máquina, e todos os funcionários pra ajudar. Então eles pegavam ... por exemplo, nós trabalhamos aqui com eles. Foi em [19]72 que nós trabalhamos com eles pra fazer o aterro da estrada de lá, que o prefeito na época foi Jofre Manoel. Aí ele “contratou eles”, eles vieram se instalaram em Iguape. E de Iguape eles vinham trabalhar e a gente trabalhava com eles. E eles... a sede deles era em Pariquera-açu. Fez muita falta o governo desativar a companhia da Sudelpa, porque a Sudelpa ajudou muito. Fazia ponte.
Onde precisava fazia... construía ponte e trabalhava nas estradas. Então daí em diante, desta data em diante, a estrada foi se aperfeiçoando, agora está asfaltada. Então virou uma beleza né? Tem 2 morros, mas o morro sobe com facilidade. Não puderam rebaixar aquela... onde está a caixa d’água ali do morro do Pinheiro porque tem um lajedo de pedra muito grande no meio ali.
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Escola

O respeito na escola. Apanhava na escola e era mandado. Se ele apanhava na escola ele tinha que apanhar e ficar quieto. Que ele ia chegar em casa e apanhar outra vez. Isso era uma educação que hoje não pode fazer né. Eles dizem que não pode fazer isso na escola, mas na minha época faziam. Só eu não alcancei, que isso já foi dos meus tempos mais velhos, foi a palmatoria que era batido pra quem fazia a ... a rebeldia na escola. Aí a professora pegava, ou diretor, e punha a mão da gente, era um pedaço de pau e dava uma prancheada na mão. Aquilo inchava. A palma da mão inchava. Então era a palmatoria. E existe até hoje o nome. E muita gente tem guardado. Palmatória. Por exemplo professores, que passou por aqui ou por outros lugares tem a palmatória.
Então, a escola, o tempo de... o tempo de ... o tempo de um exame na escola pra você ser promovido, por exemplo, do segundo pro terceiro ano, que aqui quarta serie não tinha, tinha que fazer em Iguape ou pra São Vicente. Então era o seguinte, a professora... essa matéria nossa, por exemplo, História, Geografia, Português, Matemática, você tinha que... os cadernos chamavam-se Caderno de Ponto. Caderno de Ponto tava tudo as matérias. Aí você tinha que estudar tudo as matérias, porque quem vinha fazer a... vinha fazer o exame era um professor... um diretor, seja de São Paulo ou fosse de Iguape. O falecido Bento Rocha que era muito bravo, ele vinha fazer. Só que quando ele chegava na sala, A sala de aula, ele chegava no barquinho, no motor, chegava no porto. A professora falava assim:
“- Olha, o professor Bento Rocha chegou.”
“- Ai meu Deus.”
Bento Rocha era uma fera. Chegava na escola nós tudo levantada, fechava a carteira. Ficava tudo de pé. Aquilo era um silêncio. Era um silêncio só. Quando ele entrava, que batia o sapato na entrada, a professora mandava tudo ficar quieto, nós ficava. Ele chegava, pedia bom dia, sempre ele chegava às 8 horas... pedia bom dia, aí ele ia lá pra frente, onde estava a mesa dele né. Aí ele falava assim:
“- Agora vamos cantar o hino nacional, ou o hino da bandeira, ou o hino da independência.”
A molecada tinha uma voz ativa de cantar, que vou te contar. Aí depois ele falava:
“- Bom professora, agora a senhora deixa comigo e pode se retirar que a molecada agora é comigo.”
Aí conforme você... ele passava na pedra, lá na lousa as matérias, e passava tudo.
“- Pode trabalhar.”
Todo mundo ia trabalhar no silêncio. Quando entregava... quando estava pronto... traz o caderno pra mim. Quando você terminava aquelas questões que estavam na lousa né, aí você terminava e levava lá pra ele. E ele já ia corrigir. Já Ia corrigir pra dar nota. Se ele te chamava:
“- Vem na frente, você pode ir embora, você está...”
Você já estava reprovado. Ele não falava que tinha reprovado, mas a gente já sabia que tinha reprovado. E aqueles que ficavam, aí depois que ele corrigia todos os cadernos aí tinha que cantar novamente, despedir dele e levar ele até o porto. E não tinha perdão. Que a gente andava com o caderno, a gente andava pelo caminho estudando, você tinha que decorar, porque senão lá você não sabia. Então a gente andava estudando pelo caminho, lendo, pra decorar, igual um bobo... parece uma pessoa bobo... falando sozinho... pra decorar.
Fandango

Esse é Sirindi. Sirindi é gostoso de dançar ele.
Você sabe uma ocasião, já faz muito tempo. Eu estava lá em Iguape com meu primo, com o falecido Natalino. Aí eu dormi lá, Dirce ficou em casa da irmã e eu fui lá, que nós vinha pra cá pra trabalhar. Aí ele falou:
“- Parente Dito vamos ali comprar um pão?”
Aí fomos comprar um pão. Na descida do Inaguisawa, ali estava um carro. Rapaz, estava tocando um fandango... Puta merda..., mas quando... pela cantoria que eu estava escutando, Natalino... finado Natalino falou:
“- Olhe parente Dito. Fandango aí ó, vamos lá escutar.”
Cheguei lá eram 2 caras. Aí olhei na chapa do carro, chapa do Paraná. Aí ele... ele... você... um rapaz novo assim, na sua altura assim. Eu falei:
“- Rapaz, é o fandango...”
Ele quando me viu assim ficou meio parado assim, encostado, olhando pra mim. Aí finado Natalino falou assim pra ele assim:
“- Fandango! De onde você traz ele?”
Ele falou:
“- Ói quem está cantando.”
Aí que eu:
“- Eu que tô cantando?”
“- É você, é você que está cantando com seus pais, seus irmãos e seus companheiros lá em Icapara na casa do falecido Júlio Barbosa. Numa noite que eu passei lá era sábado e vocês estavam fazendo um baile lá, eu gravei esse no meu gravadorzinho. Eu gravei o fandango, uma moda de fandango que você estava cantando. Quem tá cantando aqui é você. É você com seu pai.”
De fato, era mesmo.
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