Memória, mito e colonização: a construção do passado em uma comunidade caiçara do litoral paulista
Resumo: Este artigo analisa a construção do passado em uma comunidade caiçara do litoral sul paulista, articulando memória coletiva, mito fundador e experiência colonial. A partir dos conflitos luso-espanhóis do século XVI e das disputas em torno do chamado bacharel de Cananeia, investiga-se como tais eventos foram reelaborados na tradição oral e na narrativa histórica local. A pesquisa combina análise documental com registros memorialísticos e depoimentos orais. Sustenta-se que a memória local não constitui simples distorção dos fatos, mas forma ativa de interpretação, na qual a colonização é ressignificada como mito de origem e fundamento identitário, demonstrando que documento e tradição oral se complementam na construção da experiência histórica comunitária.
Palavras-chaves: colonização; história regional; identidade caiçara; memória coletiva; tradição oral.
Abstract: This article examines the construction of the past in a caiçara community on the southern coast of São Paulo, articulating collective memory, founding myth, and colonial experience. Focusing on the sixteenth-century Luso-Spanish conflicts and the disputes surrounding the so-called Bachelor of Cananeia, it investigates how these events were reworked in oral tradition and in local historical narratives. The research combines documental analysis with memoiristic records and oral testimonies. It argues that local memory does not constitute a mere distortion of historical facts, but rather an active form of interpretation in which colonization is resignified as a founding myth and a basis of collective identity, demonstrating that documents and oral tradition complement each other in the construction of the community’s historical experience.
Keywords: collective memory; colonization; caiçara identity; oral tradition; regional history.
INTRODUÇÃO
História regional e produção do passado
A história do litoral sul paulista costuma ser narrada a partir dos marcos institucionais da colonização - fundações, disputas territoriais e administração colonial - enfatizando agentes oficiais e processos político-militares. Contudo, tal perspectiva raramente considera os modos pelos quais comunidades locais reinterpretam esses eventos na elaboração de sua própria identidade histórica. Como adverte Michel-Rolph Trouillot, “qualquer narrativa histórica é um conjunto específico de silêncios, o resultado de um processo singular, e a operação necessária para desconstruir estes silêncios variará de acordo com eles”1. Assim, a produção do passado, nesses contextos, não se limita àquilo que é registrado nos documentos oficiais, mas envolve também processos sociais de memória, transmissão cultural e elaboração dos símbolos míticos.
Distante 8 km do centro de Iguape (SP), a comunidade de Icapara ilustra bem esse processo. Historicamente reconhecida como o berço da cidade, abrigou o núcleo original do município que foi depois transferido para a sua posição atual entre 1620 e 16252, motivo pelo qual Icapara também foi chamada de Vila Velha até o século XIX. A respeito do núcleo original e de sua transferência, Ernesto Guilherme Young pontua:
Quem conhece esta localidade concordará que ella não possue as qualidades requeridas para o estabelecimento d’uma povoação grande, ainda que offereça certas vantagens pela proximidade da barra, por ser situada em terreno fértil, com água potável, vertendo d’um pequeno monte ao pé do qual foi collocada a povoação; porém há ao mesmo tempo a desvantagem de ser pequena a planície e muito açoitada pelos ventos do Leste e Sud’este, que são os que mais reinam em tal localidade.3
Se, por um lado, a historiografia oficial associa a região aos conflitos do século XVI e às disputas em torno do bacharel de Cananeia, por outro, a própria comunidade mantém vivas narrativas orais sobre sua origem. Nessas memórias, a colonização, os eventos históricos e a ancestralidade se fundem, formando a base de sua identidade e de seu pertencimento social.
A formação histórica do litoral sul paulista ocorreu em um contexto particularmente complexo. Desde os primeiros anos do século XVI, a região foi marcada pela presença de degredados europeus, náufragos de expedições do atlântico, grupos indígenas e aventureiros ligados às redes de exploração ibéricas. Antes mesmo da instalação efetiva das instituições coloniais portuguesas, formaram-se núcleos híbridos de ocupação, nos quais práticas indígenas e europeias coexistiam e se transformavam mutuamente. Essa condição produziu um espaço social relativamente autônomo, no qual lideranças locais - como o bacharel de Cananeia - exerceram forte influência política e econômica.
Apesar da relevância desse contexto, a historiografia tradicional frequentemente tratou esses episódios como eventos de menor importância dentro da narrativa da colonização portuguesa. Em geral, o foco recai sobre a fundação de vilas, a organização administrativa das capitanias hereditárias ou as ações de autoridades coloniais. A experiência cotidiana das comunidades que permaneceram nesses territórios, bem como as formas pelas quais essas populações interpretaram e transmitiram sua própria história, raramente ocupam posição central nessas análises.
Nesse sentido, observar o caso de Icapara permite deslocar o olhar da história institucional para a história social da memória. Ao longo dos séculos, a comunidade construiu uma narrativa própria sobre sua origem, reinterpretando personagens e conflitos do século XVI para adaptar-se ao seu contexto local. O bacharel de Cananeia, por exemplo, figura nos documentos coloniais como um degredado envolvido em disputas políticas e comerciais; na tradição oral, contudo, ele aparece frequentemente transformado em um fundador simbólico, associado ao surgimento da própria vila.
Essa transformação evidencia um fenômeno recorrente nas comunidades tradicionais: o passado histórico não é simplesmente preservado, mas continuamente reorganizado para produzir sentido no presente. Eventos registrados na documentação colonial passam a integrar narrativas comunitárias que combinam fatos históricos, memória familiar e elementos míticos. Assim, a história local não é apenas lembrada, mas reinterpretada e incorporada à própria identidade social da comunidade.
Problemas de pesquisa e hipótese
Diante desse quadro, este artigo parte do seguinte problema: de que maneira a memória coletiva de uma comunidade caiçara do litoral paulista constrói e reorganiza a experiência da colonização na produção de seu passado?
A hipótese defendida é que tal memória não representa mera reprodução de eventos documentados, mas uma prática social de significação, na qual o passado é transformado em uma narrativa da identidade local. Nesse processo, elementos históricos são selecionados, reinterpretados e integrados a estruturas simbólicas que unem a comunidade e legitimam sua continuidade histórica.
Mais do que preservar lembranças, a memória coletiva atua como um mecanismo de organização da experiência histórica. Ela define quais acontecimentos devem ser lembrados, quais personagens ganham destaque e quais episódios são reinterpretados de forma a reforçar valores e vínculos comunitários. Em sociedades de pequena escala, como Icapara e outras comunidades caiçaras do litoral paulista, esse processo está profundamente ligado às redes de parentesco, à permanência territorial das famílias e à transmissão oral das narrativas entre as gerações.
Fontes e procedimentos metodológicos
Metodologicamente, a pesquisa articula análise documental - com destaque para relatos quinhentistas e interpretações historiográficas dos séculos XVIII, XIX e XX - com o exame de registros escritos de memória local e depoimentos orais coletados na comunidade. Ao aproximar documentação histórica e tradição oral, o estudo busca compreender como diferentes camadas narrativas se sobrepõem na construção do passado.
Entre as fontes utilizadas destacam-se relatos de viajantes e cronistas do século XVI, documentos administrativos coloniais e estudos historiográficos posteriores que analisaram a presença do bacharel de Cananeia no litoral sul paulista. Paralelamente, são considerados registros produzidos pela própria comunidade, como relatos de memória, narrativas tradicionais e pesquisas sociológicas realizadas na região ao longo do século XX. Esses materiais permitem observar como determinados eventos históricos foram reinterpretados ao longo do tempo e incorporados ao imaginário coletivo local.
O estudo dialoga com abordagens da história social da memória, especialmente com a noção de memória coletiva formulada por Maurice Halbwachs, segundo a qual as lembranças do passado são sempre organizadas dentro de quadros sociais específicos. No contexto latino-americano, essa dinâmica funciona como uma forma de resistência contra as narrativas dominantes. A autora Ana María Alonso explica que as comunidades costumam criar “contra-histórias” populares para questionar a história oficial do Estado e, assim, defender sua própria identidade4. Paralelamente, Silvia Rivera Cusicanqui, com seu conceito de “memória longa”, mostra que os grupos marginalizados usam a lembrança de antigas lutas coloniais para reformular o presente e reivindicar o seu espaço socia5l. Nesse sentido, as narrativas sobre a fundação de Icapara não representam apenas recordações de eventos distantes, mas expressam as formas pelas quais a própria comunidade se reconhece enquanto grupo histórico.
Ao problematizar as relações entre memória, mito e colonização, busca-se demonstrar que a produção comunitária do passado constitui fenômeno historicamente situado, no qual documento e narrativa simbólica coexistem como dimensões complementares da experiência histórica. A análise conjunta dessas fontes permite compreender não apenas o que ocorreu nos primeiros séculos da ocupação do litoral sul paulista, mas também como essas experiências foram reinterpretadas e transmitidas pelas gerações que permaneceram no território.
ICAPARA NOS REGISTROS COLONIAIS
O bacharel de Cananeia e o litoral sul paulista
Desde os primeiros relatos de navegadores no início do século XVI, uma figura sempre chama atenção na historiografia da costa sul do Brasil: um bacharel português cujo nome e biografia ainda geram certo debate. No relato de Américo Vespúcio sobre a expedição portuguesa de 1501-1502, documenta-se que foi deixado em Cananeia um bacharel degredado, provavelmente no dia 24 de janeiro de 1502, “Do porto de S. Vicente passou a esquadrilha ao da Cananéa, no qual deixou degradado um bacharel portuguez, que ainda, ahi vivia trinta annos depois”6. Em 1527, o navegador Diogo Garcia, em expedição pelo Brasil na busca pelo capitão Juan de Cartagena e por passagens para o Rio da Prata, depara-se com um bacharel na região de São Vicente ou Cananeia. Este indivíduo, já muito bem adaptado à região, fornece-lhe mantimentos, carne, peixe, e ainda lhe oferece um genro como intérprete para auxiliá-lo no restante de sua viage7m. Anos mais tarde, durante a passagem da armada colonizadora de Martim Afonso de Souza por Cananeia, em agosto de 1531, o diário de navegação de Pero Lopes aponta novamente o encontro com este mesmo bacharel português:
Desta ilha ao norte duas léguas se faz um rio mui grande na terra firme: na barra de preamar tem três braças, e dentro oito, nove braças. Por este rio arriba mandou o capitam J. hum bargantim; e a Pedro Annes Piloto, que era língua da terra, que fosse haver fala dos índios. Quintafeira desasete dias do mes d’agosto veo Pedro Annes Piloto no bargantim, e com elle veo Francisco de Chaves e o bacharel, e cinco ou seis castelhanos. Este bacharel havia trinta annos que estava degradado nesta terra, e o Francisco de Chaves era mui grande língua desta terra.8
A recorrência desses registros documentais consolida a sua imagem como uma autoridade constante na região.
Para compreender a influência desse personagem, é útil recorrer à análise de Capistrano de Abreu. O historiador explica que o europeu, ao ser lançado nas praias isoladas do Brasil, passava por um processo de “mestiçagem moral”. Sem os recursos da Europa, ele precisava adotar os métodos indígenas de sobrevivência, como a caça e a agricultura local. Nesse cenário, Capistrano identifica três tipos de colonos: o que se entregava totalmente aos costumes nativos; o “homem medíocre”, que vivia de forma passiva entre as duas culturas; e, por fim, o “homem voluntarioso e indomável”, que não se deixava dominar pelo ambiente selvagem, mas usava seu conhecimento para se impor como um verdadeiro líder local9. É neste último perfil que o bacharel de Cananeia se encaixa, atuando como uma forte liderança política e comercial.
Em um estudo de Sallum et al. sobre genealogia e redes de solidariedade, indica-se a existência de documentos que sugerem ser o bacharel um tetradecavô (14º avô) de ceramistas tradicionais que habitam a cidade de Apiaí, no Alto Vale do Ribeira, evidenciando como a sua descendência se articulou com as comunidades do vale ao longo dos séculos. Esse mapeamento genealógico, que conecta o século XVI ao presente, oferece um suporte documental valioso para a compreensão das redes de parentesco que sustentam a memória coletiva em comunidades como a de Icapara10.
Foi com as pesquisas de Ernesto Guilherme Young e Theodoro Sampaio que a sua identidade mais provável surgiu: o bacharel seria Cosme Fernandes Pessoa, frequentemente chamado nos documentos de “Mestre Cosme”. Por ser um homem letrado, seu título profissional acabou se tornando mais conhecido do que seu próprio nome.
Ele se estabeleceu no litoral sul de São Paulo, na região que compreende Cananeia e Iguape. Segundo a tradição historiográfica e oral da região, o bacharel estabeleceu o seu núcleo principal ao pé de uma pequena elevação que passou a ser conhecida como Outeiro do Bacharel e que hoje é popularmente conhecido como Morro do Farol. Relatos descrevem que, nos primeiros anos de seu degredo, ele passava dias inteiros sobre este monte observando o oceano.
Consta, por tradição em Iguape, que em tempos remotos um bacharel desterrado estabeleceu-se ao pé d’um pequeno monte situado em frente à barra de Icapara, sobre cujo monte ele levava dias inteiros assentado olhando para o lado do mar, até que chegaram mais alguns homens náufragos d’um bote, com os quais ele formou o núcleo da antiga vila de Iguape.11
Com a chegada, a partir de 1508, de castelhanos remanescentes da expedição de Juan Díaz de Solís e Vicente Yáñez Pinzón, o bacharel português, os náufragos espanhóis e a população indígena Tupi formaram um núcleo poderoso e geopoliticamente autônomo. A liderança de Cosme Fernandes ficou evidente em 1531. Quando a frota de Martim Afonso chegou a Cananeia, o bacharel e seu genro, Francisco de Chaves, falaram sobre a existência de grandes riquezas em ouro e prata no interior do continente. Seduzido pela promessa, Martim Afonso enviou uma expedição de 80 homens, comandada por Pero Lobo, para explorar o sertão. A expedição, que partiu no dia primeiro de setembro de 1531, terminou em tragédia, sendo exterminada pelos indígenas nas proximidades do rio Iguaçu ou na região de Iporanga. Este desastre plantou a semente de desconfiança entre a Coroa Portuguesa e esse grupo de degredados do litoral sul.
A presença expressiva de uma população indígena autônoma em Icapara, possivelmente uma aldeia Tupiniquim que se relacionou com o bacharel, é atestada por evidências arqueológicas. O trabalho de Scatamacchia e colaboradores sobre o sítio Mineração, localizado na região de Icapara, revela uma extensa ocupação por grupos horticultores ceramistas com datações que remontam ao início do século XVI, período coincidente com a chegada dos europeus. A análise da área em torno desse sítio demonstra o profundo domínio do território, da pesca ao cultivo da mandioca nas terras férteis, provando a consolidação material e social da comunidade nativa que se mesclou aos primeiros europeus12.
Cabe ressaltar que, devido à escassez de documentos dos primeiros anos do século XVI, a identidade desse homem foi muito debatida antes de se chegar ao nome de Cosme Fernandes. O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen chegou a sugerir que o degredado de 1502 seria Gonçalo da Costa, e Charlevoix sugere em seu relato sobre Ruy Mosquera o nome de Duarte Peres (Edouard Perez).
Il [Mosquera] descendit le Fleuve jusqu’à la Mer; il rangea ensuite la Côte, (...) il y entra, & y bâtit une petite Forteresse. Il trouva les Naturels du Pais assez bien disposés à faire alliance avec lui, & il y ensemenca un terrein, qui lui parut fertile. Peu de jours après un Gentilhomme Portugais, nommé Edouard Perez, qui avoit été exilé dans ce voisinage, vint le joindre avec sa famille, & il le reçut très bien.13
Já Cândido Mendes de Almeida defendeu que o bacharel era, na verdade, João Ramalho, outra figura bastante conhecida nesse período, mas baseado em São Vicente. A tese de Cândido Mendes foi posteriormente refutada pois documentações primárias mostram que João Ramalho era analfabeto. Ao analisar as atas da câmara municipal da vila de Santo André, fundada por Ramalho, pesquisadores verificaram que ele sequer sabia assinar o próprio nome, utilizando-se um sinal curvo, semelhante a uma ferradura para assinar os documentos. Sendo analfabeto, ele não poderia ostentar o título de bacharel, reservado àqueles com formação formal na Europa.
Essas diferentes identificações para o bacharel mostram como historiadores do século XVIII e XIX tentavam preencher lacunas documentais usando inferências, algo que hoje a historiografia costuma tratar com mais cautela.
A chamada guerra de Iguape
A autonomia vivida por Cosme Fernandes e seu grupo em Icapara e Cananeia entrou em conflito com a Coroa Portuguesa após a criação das Capitanias Hereditárias em 1532. Esse choque de interesses deu origem à Guerra de Iguape.
Nessa época, a vila próxima ao Outeiro do Bacharel havia crescido com a chegada de espanhóis, como Ruy Garcia de Mosquera. Mosquera havia sobrevivido a uma expedição fracassada no Rio da Prata e encontrou refúgio por volta de 1530, aliando-se ao bacharel e “estabelecendo-se em um lugar chamado Iguape, principiando aí a fazer plantações e vivendo algum tempo em relações amigáveis com os seus vizinhos”14.
Inicialmente, parecia haver uma tentativa de paz com os portugueses. O bacharel chegou a receber terras de Martim Afonso na nova vila de São Vicente, na região do Porto das Naus. No entanto, sem aceitar o pagamento de impostos e a submissão às leis portuguesas, Cosme Fernandes abandonou as terras em São Vicente e voltou para Iguape.
Considerando os espanhóis uma ameaça, o capitão de São Vicente, Gonçalo Monteiro, exigiu que Mosquera e seus homens deixassem Iguape. Mosquera recusou a ordem, afirmando que seu assentamento estava em terras pertencentes à Espanha, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Essa recusa deu início ao conflito militar.
Gonçalo Monteiro enviou uma expedição punitiva liderada por Pero de Góis para prender os rebeldes. O que os portugueses não sabiam era que as forças de Iguape estavam bem armadas, pois Mosquera e o bacharel haviam saqueado um navio corsário francês dias antes, conseguindo armas de fogo e artilharia. Quando a força de Pero de Góis tentou desembarcar em Icapara, foi surpreendida por uma forte emboscada nos manguezais. Os portugueses sofreram muitas baixas e bateram em retirada, mas foram novamente atacados na barra de Icapara. A frota de São Vicente foi destruída, e Pero de Góis ficou gravemente ferido.
Aproveitando a vitória, os rebeldes de Icapara navegaram até São Vicente, que estava desprotegida, e atacaram a vila. A povoação foi saqueada, e um dos maiores danos causados foi a queima do Livro do Tombo, o que destruiu os registros oficiais de terras da região. Além disso há registros de que fortes ressacas marítimas açoitaram a vila na mesma época, destruindo a infraestrutura remanescente, de tal forma que São Vicente levou quase uma década para se recuperar dos danos econômicos e institucionais da Guerra de Iguape.
Sabendo que Portugal enviaria um forte contra-ataque, Mosquera e os espanhóis fugiram para o sul, fixando-se inicialmente em Santa Catarina. Em 1537 foram identificados no porto de Candelária (no atual Uruguai) navegando em direção de Buenos Aires15.
O bacharel Cosme Fernandes, porém, permaneceu em Icapara, protegido por sua influência entre os indígenas locais, onde continuaria a viver seus últimos anos.
Na egreja matriz havia ha poucos annos um livro de Tombo, aberto e rubricado por Antonio Ribeiro, vigário collado da villa de Iguape, por ordem do reverendo d. Bernardo Rodrigues Bueno, bispo da diocese, no anno de 1725, em que diz: “Cosme Fernandes Pessôa de grandes merecimentos deixou em seu testamento declaração de que suas terras ficão oneradas com a pensão annual de uma missa para todo e sempre pelo descanço da sua alma sendo como hé de um grande criminoso ficando o parocho encarregado de arrecadar esta dita pensão dos seus herdeiros”16.
“Ruy Mosquera (...) resolveu voltar a Iguape, e consta por tradição que elle foi enterrado debaixo do arco cruzeiro da antiga egreja de Nossa Senhora das Neves de Iguape”.17
Fundamentos documentais da ocupação regional
Confirmar a história da colonização regional e a atuação do bacharel exige muita pesquisa, já que muitos registros locais desapareceram. Sabe-se, por exemplo, que os antigos Livros do Tombo de Iguape e Cananeia sumiram devido ao descuido das autoridades. No entanto, documentos guardados em outros arquivos ajudam a provar a existência de Cosme Fernandes na região.
A principal prova documental de sua identidade é a “Carta de Confirmação” de 25 de maio de 1542, emitida por Antonio de Oliveira, representante de Martim Afonso de Souza. Esse documento foi feito a pedido de Pero Corrêa, que queria confirmar a posse de suas terras no Porto das Naus, em São Vicente. O texto do documento é claro ao registrar que as terras confirmadas confrontavam com uma “terra que era dada a um mestre Cosme, bacharel”, e que essas áreas foram consideradas “devolutas” e seriam repassadas a Pero Corrêa18. Isso confirma que o bacharel abandonou a jurisdição portuguesa de São Vicente para viver de forma independente em Iguape. “O que é bem provável é que o referido bacharel degredado podia ainda estar vivo em 1542, contando a edade presumida de setenta e cinco anos (...19)”.
Outra prova importante da influência de Cosme Fernandes está no Arquivo Geral das Índias, na Espanha. Trata-se de uma carta de 9 de setembro de 1536, assinada pela Rainha da Espanha e direcionada diretamente ao “bacharel... que reside na Cananeia”. O documento evidencia que a Coroa espanhola sabia da longa permanência do bacharel na região e buscava o seu apoio político. Ao instruí-lo a usar seu conhecimento local para auxiliar o novo governador, Gregorio de Pesquera Rosa, no trato de especiarias, a rainha demonstrava que a ajuda esperada era eminentemente estratégica. O fato comprova que a Corte de Castela reconhecia o bacharel como um mediador indispensável e uma autoridade chave para controlar e explorar aquela parte da América do Sul20.
A FUNDAÇÃO NARRADA: TRADIÇÃO ORAL E MEMÓRIA COMUNITÁRIA
Devido à escassez e à dispersão de documentos oficiais sobre os primórdios da ocupação do litoral sul paulista, a comunidade de Icapara estruturou e preservou sua identidade através da tradição oral. Sob a ótica da “Memória Coletiva” de Maurice Halbwachs, observa-se que as lembranças do grupo são reelaboradas para atender às necessidades e aos quadros sociais do presente21. Nesse contexto, a história escrita cede espaço ao mito fundacional, no qual narrativas simbólicas passam a atuar como mecanismos indispensáveis para explicar as origens e fortalecer os laços de parentesco. A análise dessas narrativas revela os caminhos pelos quais a comunidade estrutura seu passado para dar sentido à sua própria existência.
O português fundador: entre história e mito
A figura histórica de Cosme Fernandes Pessoa, o bacharel, sofre uma grande transformação na memória local. Na tradição oral de Icapara, formada ao longo dos séculos e coletada em meados do século XX, a fundação da vila é frequentemente atribuída a um “português” sem nome que, isolado no local, passou a viver da pesca e se misturou com as populações indígenas, originando os atuais habitantes.
Foi um português que, vindo para o local onde é hoje Iguape, junto com outros, parou aqui, no morro Itapé. (...) O referido português é considerado o fundador de Icapara; seus descendentes, misturados com o elemento indígena, desenvolveram a população e fizeram do lugar o que é hoje22.
A memória coletiva retira do fundador suas complexas articulações com a coroa ibérica e seu papel de “grande criminoso” e mercador escravagista, convertendo-o em um arquétipo simplificado: o pescador primordial. A imagem poética do bacharel, que passava dias inteiros no Outeiro observando o oceano à espera de outros náufragos, ilustra perfeitamente o que Halbwachs descreve como a fixação da memória em imagens espaciais e afetivas. O Outeiro do Bacharel atua como o principal “lugar de memória” físico da vila, ancorando o mito de origem na geografia local. Ao focar na miscigenação e na adoção da pesca como modo de vida, a narrativa ameniza as tensões da conquista quinhentista. Cria-se, assim, um mito fundador harmonioso, mesclando a figura do bacharel com outras figuras formadoras da comunidade, legitimando a teia de parentesco e validando a cultura caiçara como uma herança direta de seu primeiro habitante.
Degredados, piratas e heróis locais
A violência e a rebeldia que marcaram a região litorânea são reinterpretadas e readaptadas pela estrutura narrativa da tradição oral. Os degredados e desertores europeus, que historicamente formaram núcleos autônomos e hostis à Coroa Portuguesa, são lembrados na memória popular de Icapara como piratas e malfeitores que saqueavam navios e ocultavam as riquezas pilhadas:
(...) tanto a França, a Espanha, pessoas que eram criminosos, bandidos, eles vinham e jogavam aqui na costa de Icapara. Então, o que essas pessoas fizeram? Elas se uniram com os Tupinambás aqui. (...) Esses malfeitores (...) se uniram [e] formaram a pirataria. Os navios que passavam lá fora, eles iam daqui saltear esses navios lá e trazer para a terra aqui.23
A própria Guerra de Iguape ganha contornos épicos, onde a memória atua para subverter a subordinação histórica. A tradição local narra que os icaparanos, em guerra contra São Vicente, destruíram a vila inimiga e retornaram triunfantes, com o saldo de mortos sepultados no cemitério do Prelado, na Juréia. Sob a ótica da teoria de Halbwachs, essa reestruturação da narrativa serve diretamente à coesão e ao orgulho do grupo24. Os números exagerados e a exclusão da liderança castelhana (Ruy Garcia de Mosquera) não são “erros” de memória, mas ferramentas narrativas eficazes que transferem uma vitória tática hispano-portuguesa do século XVI para as mãos dos “icaparanos” genéricos, percebidos como os ancestrais diretos da comunidade. Como explica Alonso, essas narrativas populares invertem os papéis estabelecidos, questionando a visão oficial do Estado e transformando o passado em um campo de dispu25ta. Dessa forma, os marginais da história oficial transformam-se nos heróis da memória comunitária, legitimando a independência de Icapara em relação aos centros de poder coloniais.
Tesouros e elementos simbólicos
O imaginário coletivo de Icapara é povoado por tesouros ocultos e criaturas místicas. Longe de serem apenas causos folclóricos, esses elementos são usados na narrativa oral como metáforas do perigo e da importância do território. A lenda de que o bacharel, impedido de retornar a Portugal por seus crimes, acumulou ouro em pó e foi sepultado no outeiro sob uma enorme laje de pedra com sua riqueza, reflete a ideia da cobiça europeia quinhentista transformada em linguagem do mito local.
Paralelamente, as narrativas descrevem uma grande caverna utilizada para guardar ouro e objetos valiosos, protegida do acesso popular pela lenda de duas cobras gigantes.
Uma (...) lenda, que foi transcripta ha annos no Livro do Tombo da Camara, diz que havia uma grande caverna no monte próximo a villa, habitada durante muitos annos por duas cobras enormes, que faziam grande damno aos moradores na vizinhança e que, para acabar com ellas, os homens fizeram uma peça de madeira chapeada de ferro, com que, dando um tiro mataram uma das cobras, voando a outra pelas mattas, derrubando árvores e abrindo um sulco profundo na terra, de cujo facto provém o nome de Koycoara e que, depois da morte da dita cobra, os homens entulharam a bocca da dita caverna.26
O historiador Ernesto Young sugere que tais lendas teriam sido forjadas intencionalmente pelos próprios europeus para afugentar curiosos de seus esconderijos reais de contrabando, a exemplo da narrativa sobre a grande caverna oculta onde nativos e europeus armazenavam ouro em pó e outros objetos de valor. No entanto, a análise do imaginário de Icapara revela que as cobras gigantes e outras lendas locais como a do Tamanduá antropomorfo, da assombração do pé de Abricó e da figura demoníaca do Saci27 desempenham um papel muito mais profundo de controle social e demarcação territorial. O conto das duas enormes cobras que atormentavam o povoado - que culmina com o aprisionamento da serpente sobrevivente no fundo de um buraco no outeiro - opera como uma forma de interdição geográfica clara. Mais do que guardar tesouros, o mito afasta os moradores dos perigos físicos de se embrenhar na mata ou em cavernas.
Conta uma [lenda] até que eles pegavam os tesouros deles e enterravam por aí. Tem gente aí que crê que existe algum enterrado por aí, não sabe onde está, mas acreditam, né? Só que também ninguém é meio louco de ficar procurando não, porque o que tem de cobra nesses morros aqui, meu Deus do céu. Não dá pra adentrar lá não, então deixa o tesouro pra eles lá.28
Da mesma forma, o Tamanduá antropomorfo e a assombração do pé de Abricó encarnam os perigos climáticos e o risco de andar sozinho na mata. A lenda do Tamanduá, que surge no caminho do Pontal ou nas matas para assustar aventureiros nos dias de sol muito quente, especialmente na hora do almoço, atua como uma barreira disciplinar utilitária: inibe a exploração da floresta e a exposição ao calor extremo nos momentos de maior vulnerabilidade física. Em sintonia com essa lógica, as aparições assombradas na área do Caparinha29, junto ao pé de Abricó e nas proximidades do Outeiro do Bacharel, também se manifestam nas horas de sol a pino. Sendo historicamente um ponto a ser evitado por quem caminha sozinho, o local consolida uma fronteira invisível dentro da própria vila. O medo, portanto, transmitido de geração em geração, é codificado nessas lendas para ditar regras estritas de sobrevivência: respeitar os horários insalubres, evitar o isolamento em áreas ermas e reconhecer os limites impostos pela natureza. Estes símbolos míticos não apenas protegem espólios irreais de antigos piratas, mas resguardam a comunidade dos perigos tangíveis da Mata Atlântica.
GUERRA E IDENTIDADE: HEROICIZAÇÃO DO PASSADO
Narrativas comunitárias frequentemente transformam episódios de conflito em episódios fundadores. No caso de Icapara, os conflitos do século XVI associados à presença portuguesa e espanhola no litoral sul paulista são reinterpretados pela tradição oral como sendo a própria origem da comunidade. O que as fontes oficiais registraram como um mero movimento de contestação do período colonial transformou-se no principal sentimento de pertencimento caiçara.
Conflito e pertencimento
A conversão da guerra em identidade coletiva segue uma lógica simples e eficaz: o conflito colonial gera uma narrativa de origem, a comunidade passa a se reconhecer dentro das dinâmicas dessa narrativa e, consequentemente, o passado revoltoso converte-se em um poderoso marco de pertencimento. Na história desses grupos marginalizados - sejam eles em cidades coloniais, aldeamentos isolados ou comunidades litorâneas -, os conflitos com o poder centralizador costumam ser lembrados como os momentos em que a comunidade definiu o seu destino e assegurou seu espaço.
No caso de Icapara, a própria documentação atesta que a região, durante a expedição de Martim Afonso de Souza e nas décadas subsequentes, era um intenso espaço de disputa fronteiriça entre potências europeias (Espanha e Portugal) e redes locais de poder comandadas por degredados. Esse cenário histórico turbulento e de insubordinação fornece a base material que a memória posteriormente adapta. A guerra atua, assim, como um evento inaugural na “memória longa” caiçara; o passado de conflitos é reinterpretado como a prova da resiliência da comunidade frente às ameaças externas, legitimando a sua soberania invisível (aos livros) sobre o litoral sul de São Paulo.
A transformação de agentes coloniais em ancestrais
Um dos fenômenos mais fascinantes é o modo como personagens quinhentistas perdem suas feições de meros agentes coloniais para serem adotados como antepassados simbólicos da comunidade. Figuras históricas com objetivos próprios e não raramente predatórios - colonizadores, náufragos e aventureiros - sofrem uma verdadeira mutação no imaginário social. Eles deixam o papel de invasores ou degredados e passam a funcionar na memória como fundadores, patriarcas e ancestrais coletivos.
A tradição oral carece de figuras em que a comunidade possa projetar o princípio de sua linhagem; portanto, ela cria uma ancestralidade simbólica. O processo segue um percurso claro: o evento histórico projeta um personagem (Mestre Cosme), que se transforma no herói fundador e consolida-se como o ancestral daqueles que ali habitam hoje. Essa metamorfose não os redime perante o tribunal da história oficial, mas atende à necessidade da comunidade de possuir uma raiz, integrando os exploradores quinhentistas como os pais míticos da cultura caiçara.
Exagero numérico e construção épica
Ao mover esses eventos históricos para a esfera da tradição oral, a memória coletiva aciona um mecanismo de construção da identidade: a amplificação. Os relatos populares, como os registrados no século XX e XXI em Icapara sobre a Guerra de Iguape, apresentam um nítido aumento na escala do conflito: o número de participantes é inflacionado, a violência e as perdas são maximizadas e os lados do conflito são estruturados de forma binária (os “icaparanos” contra os “vicentinos”). O evento adquire, inevitavelmente, a aparência de um épico:
(...) os piratas de Icapara partiram daqui com cinco navios para lutar com os Vicentinos. (...) saíram daqui com cinco navios, chegaram lá [em São Vicente] com oito - quer dizer, no caminho ainda roubaram mais três para ajudar na força. Inclusive, destruíram tudo, trouxeram os mortos deles, enterraram no Prelado, no cemitério do Prelado. (...) Enterraram os cem mortos que trouxeram no combate lá.30
A narrativa produz batalhas de dimensões colossais e feitos heroicos impensáveis para as condições demográficas da época. Essa amplificação narrativa é um mecanismo eficiente de construção simbólica de identidade. A grandiosidade da guerra imaginada fomenta o orgulho comunitário. Essa transformação aproxima-se diretamente do que Eric Hobsbawm denominou “tradição inventada”: trata-se do processo pelo qual as comunidades selecionam elementos do passado e os reorganizam em uma nova narrativa de origem com o claro intuito de produzir continuidade e reforçar a sua coesão e identidade coletiva no presente31.
GENEALOGIA, PARENTESCO E ESTRUTURA SOCIAL
A memória histórica de Icapara encontra sustentação material nas redes de parentesco e nas continuidades familiares que compõem a comunidade. Ao promover o cruzamento entre maços de população, registros paroquiais e a própria memória oral, entende-se que a tradição se ancora na biologia e nos laços afetivos daqueles que continuam a habitar e transformar o território ao longo dos séculos.
Sobrenomes e permanências
Os registros demográficos evidenciam uma certa continuidade familiar na vila de Icapara. O cruzamento de documentos oficiais coloniais e imperiais demonstra a fixação de algumas linhagens. No censo populacional de 1765, os registros dos Maços de População de Iguape32 atestam a predominância de sobrenomes como Rodrigues e Souza, acompanhados por Carvalho, Cubas, Nunes e Ribeiro. Oitenta anos depois, no censo de 1846, o cenário acusa uma permanência orgânica: o sobrenome Nunes desponta como o mais numeroso, mantendo-se a força de famílias como Lopes, Pereira e Ribeiro. Ao avançarmos para meados do século XX, levantamentos sociológicos como o “survey” de Donald Pierson e Carlos Borges Teixeira (1947) constatam que, embora novos nomes como Trudes e Mattos tenham ganhado predominância (a partir da segunda metade do século XIX), o entrelaçamento entre essas famílias (junto a Silva, Pereira e Barbosa) continuava a abranger praticamente toda a população local. “De três partes da população, duas são Trudes. Matos é a maior família depois desta, Barbosa é a seguinte. Essas três são aparentadas entre s33i”. A tradição oral atua criando narrativas que explicam e legitimam a expansão dessas linhagens. No imaginário da vila, a chegada dos ancestrais é frequentemente descrita com contornos de aventura, como ilustra o depoimento da moradora Eurides sobre a origem da família Trudes:
O Trudes veio de longe (...). Foi um refugiado (...) que refugiou-se desses mambembes desses estrangeiros e veio parar aqui, veio parar aqui num navio, chegou aqui, já encontrou esse lugar aqui e ficou. Daqui foi multiplicando, foi multiplicando que encheu o Icapara.34
A recorrência de determinados sobrenomes ao longo dos registros sugere não apenas a permanência de linhagens familiares na região, mas reforça a própria percepção local de continuidade histórica. A lógica é a seguinte: a estabilidade das famílias garante que a memória seja transmitida ininterruptamente pelas gerações, consolidando a narrativa comunitária como sendo a história dos próprios laços sanguíneos. A grande descoberta do “survey” de Pierson e Teixeira reside na estrutura genealógica do local. Eles constataram um enorme índice de imobilidade e uma taxa praticamente nula de imigração. Para os autores, “os laços de parentesco que ligam quase todos os habitantes talvez indiquem, de certo modo, a ausência de imigrações de há muito para cá”35.
Esse cenário secular de isolamento e imobilidade, no entanto, começou a se desarticular a partir da década de 1970. A abertura da estrada de ligação com a cidade de Iguape rompeu a fronteira geográfica da comunidade, expondo a vila à chegada de turistas e à especulação imobiliária. Como consequência, as antigas práticas da economia de subsistência - como a manufatura da mandioca e os tradicionais mutirões agrícolas conhecidos localmente como “demão” ou “ajuntório” - foram rapidamente abandonadas em prol de um modo de vida mais urbano e assalariado. Além disso, os principais espaços de encontro e transmissão cultural, a exemplo dos bailes de Fandango, desapareceram definitivamente no início da década de 198036.
É justamente nesse contexto de profunda reconfiguração do modo de vida caiçara que se compreende a ruptura na cadeia da oralidade. Nota-se, portanto, que a partir dessa segunda metade do século XX, impulsionada por essas drásticas transformações estruturais e pelo fim dos antigos ritos de sociabilidade, houve uma abrupta redução na transmissão da memória para as gerações mais recentes, fazendo com que as lendas e as narrativas atreladas aos mitos fundadores quase se perdessem.
A noção ampliada de parentesco
Do ponto de vista antropológico, as nomenclaturas de consanguinidade em comunidades tradicionais isoladas transcendem os limites biológicos. Em Icapara, termos de parentesco como “tio”, “tia” ou “primo” raramente designam apenas relações genéticas estritas. Eles são extensamente empregados para nomear parentes distantes, amigos íntimos das famílias e, principalmente, os membros mais antigos e respeitados do grupo. Essa prática evidencia a existência daquilo que se conceitua como “parentesco social ampliado” ou como argumenta Marshall Sahlins, o parentesco pode ser entendido como uma “mutualidade de existência”, isto é, relações nas quais indivíduos participam intimamente da vida uns dos outros, compartilhando pertencimento e identidade social37.
A consequência dessa expansão afetiva é a mudança nas relações locais: a comunidade de Icapara passa a funcionar, e a se perceber, como uma imensa e única rede familiar. Nomes tradicionais como Barbosa e Cubas muitas vezes são preservados como “apelidos” em honra à família, mesmo após o sobrenome formal desaparecer dos registros de identidade (como no caso de figuras locais que mantiveram o apelido histórico). A utilização ampliada de termos de parentesco revela a existência de redes sociais densas. São justamente essas teias de familiaridade compartilhada que explicam por que as histórias antigas circulavam facilmente pela vila e por que os mitos de origem não eram esquecidos.
Continuidade simbólica e identidade coletiva
A junção da durabilidade das famílias ao sistema de parentesco ampliado forma o núcleo em que a memória histórica atua e ganha sentido. A continuidade familiar somada às redes de parentesco permite que uma memória compartilhada resulte em uma identidade coletiva forte e inabalável.
Ao longo do tempo, a comunidade passa a interpretar o passado quinhentista não como um conjunto de crônicas externas, mas como a história da própria família. Eventos históricos como o assentamento do bacharel e as batalhas com os vizinhos vicentinos são percebidos como episódios formadores da genealogia local. A articulação entre permanência familiar, redes ampliadas de parentesco e circulação de narrativas históricas contribuíram decisivamente para a construção de uma identidade coletiva, ancorando a comunidade na antiguidade e na legitimidade do seu território.
DOCUMENTO E MEMÓRIA: TENSÕES E CONVERGÊNCIAS
A pesquisa histórica demanda uma rigorosa reflexão sobre o uso das fontes primárias. Ao examinar o caso do litoral sul paulista, torna-se necessário estabelecer um diálogo comparativo entre a memória oral, conservada nas comunidades caiçaras, e a escassa documentação histórica oficial. A análise dessas fontes não deve criar um julgamento de valor, determinando qual dos dois registros detém a “verdade” dos fatos, mas deve servir para desvendar os mecanismos pelos quais ambos produzem, em seus próprios termos, interpretações do passado.
Silêncios documentais e preenchimentos narrativos
A documentação administrativa da época colonial, geralmente produzida por representantes da metrópole ou por autoridades locais, apresenta lacunas, pois foi elaborada principalmente para fins administrativos. Os documentos oficiais raramente se propõem a registrar a vida rústica, as interações, as perspectivas e o cotidiano dos nativos; geram-se assim imensos “silêncios documentais”.
Nesse contexto, é fundamental recorrer novamente às reflexões de Michel-Rolph Trouillot que demonstra como o poder atua na produção da narrativa histórica, criando silêncios já no momento de elaboração das fontes e dos arquivos. Para Trouillot, “qualquer evento específico entra para a história sem algumas de suas partes constitutivas”38 e “silencia-se um fato ou uma pessoa como um silenciador silencia uma arma de fog39o”. As ausências na documentação não são meros esquecimentos, mas resultados de relações de poder.
Ao invés de simplesmente preencher essas lacunas a tradição oral opera sob lógicas e ritmos distintos, produzindo narrativas próprias que dialogam com esses silêncios documentais para explicar a origem da comunidade. Quando os Livros do Tombo desaparecem ou não registram toda a complexidade da integração em torno da Vila Velha de Iguape (Icapara), as lendas e a memória da comunidade acabam preenchendo essa lacuna. Isso não acontece por simples invenção ou fantasia, mas pela forma como a própria comunidade interpreta e transmite o seu passado. Os personagens marginalizados da historiografia viram os pescadores solitários de Icapara. Assim, o que não aparece nos registros do cartório pode ser percebido na vida cotidiana da vila, nas redes de pesca e na convivência entre as pessoas, revelando um lado mais humano da colonização que não ficou registrada na escrita oficial.
Seleção, simplificação e permanência
A memória coletiva possui uma dinâmica própria de preservação: ela não arquiva todos os eventos do passado como uma enciclopédia. Ela tem uma função prática e funciona por meio de três processos principais. O primeiro é a seleção, quando o grupo lembra apenas dos acontecimentos e das pessoas que considera importantes para o presente. O segundo é a simplificação, que transforma processos históricos complexos - como as disputas ligadas ao Tratado de Tordesilhas - em histórias mais simples e fáceis de entender. Por fim, há a permanência, que garante a transmissão contínua dessas narrativas ao longo do tempo, ajudando a reforçar a identidade e a legitimidade do próprio grupo.
Dessa forma, disputas complexas pelo controle do território passam a ser lembradas como uma espécie de luta pela autonomia ou pela liberdade local. Esse ajuste da memória não deve ser visto como um erro da tradição, mas como parte de sua função social: reinterpretar o passado de maneira que ele dê sentido e fortaleça a identidade do grupo no presente.
Memória como produção histórica
O que se percebe ao observar povoados como Icapara é que a memória coletiva também participa da construção da história. Por meio de seus relatos de origem, de histórias de feitos heroicos e de mitos transmitidos entre gerações, a comunidade constrói a sua própria compreensão do passado. Essas narrativas ajudam a afirmar o vínculo dos moradores com o território e a reforçar a continuidade da comunidade diante das transformações e das pressões da modernidade que, muitas vezes, ameaçam apagar essas experiências.
Conforme argumenta Maurice Halbwachs, a memória coletiva se constrói dentro dos grupos sociais e vai sendo refeita ao longo do tempo a partir das lembranças e experiências compartilhadas40, que são selecionadas, simplificadas e reorganizadas de acordo com as necessidades identitárias da comunidade. A “mestiçagem moral” apontada por Capistrano de Abreu no século X41VI encontra sua tradução contemporânea na capacidade que esses grupos têm de mestiçar o fato e a lenda. Ao dialogar com os fragmentos documentais, a memória de Icapara revela que a história do Brasil não se encontra apenas nos arquivos e registros oficiais, mas também nas narrativas daqueles que viveram à sombra do Outeiro do Bacharel e incorporaram uma guerra distante no passado à memória de suas famílias e da comunidade.
CONCLUSÃO
A construção do passado na comunidade caiçara de Icapara transcende a simples combinação de datas e registros oficiais. Conforme demonstrado ao longo deste artigo, a memória coletiva atua como uma força viva e modeladora, capaz de reescrever a experiência da colonização não como um processo de submissão, mas como a origem de sua própria identidade. A hipótese inicialmente proposta confirma-se: ao converter o passado em prática social de significação, a tradição oral seleciona, simplifica e amplifica os eventos quinhentistas para responder diretamente às demandas de coesão e pertencimento do presente.
Ao investigar a figura do bacharel de Cananeia - historicamente reconhecido como Cosme Fernandes Pessoa, um degredado letrado e articulador geopolítico -, observa-se a sua transformação poética no imaginário caiçara. Despido de suas complexas alianças ibéricas e de sua atuação como mercador, o bacharel é imortalizado como o “português fundador”, o pescador que aguardava solitário por novos habitantes.
Essa abordagem transforma a geografia local no principal suporte físico da memória. O Outeiro do Bacharel, ou Morro do Farol, deixa de ser apenas o palco de uma ocupação colonial para se tornar um testamento territorial da linhagem caiçara, onde lendas de tesouros ocultos e criaturas míticas operam não como folclore vazio, mas como método de sobrevivência e marcadores do território.
De maneira semelhante, a chamada Guerra de Iguape revela o poder da memória em transformar vilões em heróis. O que a historiografia tradicional enxerga como uma retaliação militar luso-vicentina contra um reduto de desertores espanhóis e degredados, a tradição oral reivindica como o épico fundador da vila. Ao heroicizar os insurgentes de Icapara e inflacionar as proporções do conflito, a memória coletiva forja um sentimento de orgulho e insubordinação. Os “marginais” da narrativa metropolitana convertem-se nos patriarcas míticos e nos piratas aventureiros que vivem no imaginário da vila.
Toda essa narrativa simbólica, no entanto, não resistiria sem o alicerce das redes de parentesco. A análise demonstrou que a longevidade da memória em Icapara está atrelada à permanência de linhagens familiares centenárias, evidenciadas pelo cruzamento de censos populacionais e à prática do parentesco social ampliado. Ao aumentar os laços de consanguinidade para englobar toda a rede de convívio, a vila passa a se reconhecer como uma única e extensa teia familiar. Assim, a história do século XVI não é narrada como uma história de estranhos, mas como a biografia dos próprios ancestrais. Essa continuidade simbólica e biológica atua como o principal veículo transmissor dos mitos fundadores através das gerações.
Contudo, é imperativo reconhecer as inflexões que tensionam essa herança. Como pontuado, a partir da segunda metade do século XX, as dinâmicas de transmissão dessa memória sofreram abalos significativos. As profundas transformações culturais, socioeconômicas e o avanço de novas lógicas estruturais sobre o litoral sul paulista ao longo do século passado têm provocado o silenciamento gradual dessas narrativas entre as gerações mais recentes. As lendas e os contos de origem, que antes ditavam o ritmo da vida social e a compreensão do território, encontram-se hoje ameaçados. Esse fenômeno evidencia não apenas uma ruptura, mas a urgência de pesquisas históricas e abordagens que visem compreender essas transformações recentes e resguardar o patrimônio imaterial da vila de Icapara.
Por fim, a análise a partir da história social da memória reforça que documento escrito e memória comunitária são dimensões complementares - e indispensáveis - da experiência histórica. Diante dos “silêncios” inevitáveis da burocracia colonial a narrativa popular ergue-se como um sistema autônomo de significação que revela a experiência histórica pela ótica da comunidade. Icapara demonstra que a história de uma localidade não se encerra nos despachos das capitanias hereditárias; ela pulsa nas táticas de quem nela permanece. A produção comunitária do passado é, em última instância, uma estratégia de soberania. Ao reinterpretar a colonização, domar o mito e integrar o invasor europeu à sua própria genealogia de forma ativa, a comunidade caiçara de Icapara não apenas justificou a sua ancestralidade, mas garantiu o seu lugar permanente na formação histórica do Brasil.
REFERÊNCIAS
Fontes
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Notas de rodapé
1 TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: poder e a produção da história. Tradução: Sebastião Nascimento. Curitiba: huya, 2016, p. 57. ↩
2 YOUNG, Ernesto Guilherme. Esboço Histórico da Fundação da cidade de Iguape. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, v. II, 1896-1897, p. 87. ↩
3 Ibidem. ↩
4 ALONSO, Ana Maria. The Effects of Truth: Re-Presentations of the Past and the Imagining of Community. Journal of Historical Sociology, v. 1, n. 1, p. 33-57, mar. 1988, p. 45-47. ↩
5 RIVERA CUSICANQUI, Silvia. “Oprimidos pero no vencidos”: luchas del campesinado aymara y qhechwa 1900-1980. 4. ed. La Paz: Hisbol, 2010, p. 78. ↩
6 VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História geral do Brazil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Em casa de E. e H. Laemmert, 1877, p. 83. ↩
7 HERRERA, Antonio de. Historia General de las Indias Ocidentales, de los hechos de los Castellanos en las Islas y Tierra firme del Mar Oceano. Tomo Segundo. Década IV, Livro 1. Amberes: Juan Bautista Verdussen, 1728, p. 253. ↩
8 VARNHAGEN, Francisco Adolfo de (org.). Diário da navegação de Pero Lopes de Souza: 1530–1532. Lisboa: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, 1839, p. 29. ↩
9 ABREU, João Capistrano de. O descobrimento do Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013, p. 59. ↩
10 SALLUM, Marianne et al. Genealogias e redes de solidariedade: ancestralidades de mulheres afroindígenas em Apiaí, Alto Vale do Rio Ribeira de Iguape, São Paulo. Habitus, Goiânia, v. 23, n. 3, e15584, 2025, p. 7. ↩
11 YOUNG, 1896-1897, p. 96. ↩
12 SCATAMACCHIA, Maria Cristina Mineiro et al. Análise de captação de recursos da área do sítio Mineração, Iguape, SP. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, n. 1, p. 55-69, 1991, p. 58. ↩
13 CHARLEVOIX, Pierre-François-Xavier de. Histoire du Paraguay. Paris: Chez Rollin, 1756, p. 51. “Ele [Mosquera] desceu o rio até o mar; depois percorreu a costa e, (...) entrou nele e ali construiu uma pequena fortaleza. Ele encontrou os naturais do país bastante dispostos a fazer aliança com ele e começou a cultivar uma terra que lhe pareceu fértil. Poucos dias depois, um fidalgo português chamado Edouard Perez, que havia sido exilado nas proximidades daquele lugar, veio juntar-se a ele com sua família, e foi muito bem recebido” (Tradução do autor). ↩
14 YOUNG, 1896-1897, p. 68. ↩
15 YOUNG, 1896-1897, p. 78. ↩
16 Idem. Subsídios para a história de Iguape: Seus Fundadores. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, v. VII, 1902, p. 294. ↩
17 YOUNG, 1896-1897, p. 80. ↩
18 CONFIRMAÇÃO das terras doadas pelo Ir. Pero Correia ao Colégio de S. Vicente. In: LEITE, Serafim. Monumenta Brasiliae I (1538-1553). Roma: "Monumenta Historica S. I.", 1956. (Monumenta Historica Societatis Iesu, volumen 79). p. 459-464. ↩
19 YOUNG, 1902, p. 283. ↩
20 ALMEIDA, Antônio Paulino de. Memória histórica de Cananéia (III). Revista de História, São Paulo, v. 23, n. 48, 1961, p. 411. ↩
21 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006, p. 39. ↩
22 PIERSON, Donald; TEIXEIRA, Carlos Borges. Survey de Icapara. Fundação Escola de Sociologia e Política, 1947, p. 9. ↩
23 VILLA, Gilson. Entrevista concedida ao autor. Iguape, SP, 18 maio 2015. Transcrição. Disponível em: https://www.icaparamemoria.com.br/entrevista/gilson-villa. Acesso em: 18 jul. 2026. ↩
24 HALBWACHS, 2006, p. 30. ↩
25 ALONSO, 1988, p. 47. ↩
26 YOUNG, 1902, p. 291-292. ↩
27 PAOLILLO, Ronaldo Pereira Trudes. Revista de Icapara n. 3: História, costumes, rituais e outros aspectos culturais da vila de Icapara. Iguape, 2025. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1U4v7x2eJzEp7NxSNWBX8RR4ekhkN45fR/view?usp=sharing. Acesso em: 09 mar 2026. ↩
28 VILLA, op. cit. ↩
29 Trata-se da área intermediária localizada entre a vila de Icapara e o monte conhecido como Outeiro do Bacharel. ↩
30 PEREIRA, Adilson. Entrevista concedida ao autor. Iguape, SP, 18 maio 2015. Transcrição. Disponível em: https://www.icaparamemoria.com.br/entrevista/adilson-pereira. Acesso em: 18 jul. 2026. ↩
31 HOBSBAWM, 2008, p. 9. ↩
32 SÃO PAULO (Estado). Arquivo Público do Estado de São Paulo. Maços de População de Iguape e Xiririca. Iguape, 1765-1846. Rolos: 70 a 75. ↩
33 PIERSON; TEIXEIRA, 1947, p. 18. ↩
34 RIBEIRO, Eurides Pontes. Entrevista concedida ao autor. Iguape, SP, 09 set. 2015. Transcrição. Disponível em: https://www.icaparamemoria.com.br/entrevista/eurides-pontes-ribeiro. Acesso em: 18 jul. 2026. ↩
35 PIERSON; TEIXEIRA, 1947, p. 7. ↩
36 PAOLILLO, Ronaldo Pereira Trudes. Aspectos culturais da vila de Icapara: Transformações ao longo do século XX. Revista Cantareira, [S. l.], v. 1, n. 42, 2026. Disponível em: https://periodicos.uff.br/cantareira/article/view/69492. Acesso em: 18 jul. 2026. ↩
37 SAHLINS, Marshall. What Kinship Is – And Is Not. Chicago: University of Chicago Press, 2013, p. 2. ↩
38 TROUILLOT, 2016, p. 86. ↩
39 Ibid., p. 85. ↩
40 HALBWACHS, 2006, p. 30. ↩
41 ABREU, 2013, p. 59. ↩
Artigo original disponível em Revista Epígrafe (USP).