Revista Icapara - Número 1

Por Ronaldo Pereira Trudes Paolillo | Publicado em 01 de junho de 2024 | 56 visualizações

Revista Icapara - Número 1

Revista Icapara - Número 1

REVISTA ICAPARA

História, costumes, rituais e outros aspectos culturais da vila de Icapara
2024

Imagem da Capa - Revista 1

Índice

  • Introdução
  • Características da vila de Icapara
  • Configuração das casas
  • Atividade Econômica
  • Eventos Sociais e Música
    • Demão ou Ajuntório
    • Fandango
    • Bois no Carnaval
    • Batimento de Arroz
    • Festas Juninas
  • Curandeiros e Benzedores
  • Calendário religioso, de trabalho e eventos

Introdução

A vila de Icapara, durante praticamente todo o século XX manteve seu modo de vida tipicamente caiçara, com seus costumes, rituais, técnicas de cultivo, pesca e festejos. A partir dos anos de 1970, o modo de vida do Icaparano começou a mudar, deixando a atividade econômica existente, baseada na pesca e agricultura, para o trabalho assalariado e modo de vida mais urbano.

Características da vila de Icapara

A vila de Icapara é considerada o berço da cidade de Iguape, já que o primeiro núcleo populacional, segundo Young (1896), “deu-se originalmente na barra de Icapara sendo transferida para o atual sítio entre 1620 e 1625 por ser mais abrigado dos fortes ventos que assolam constantemente a região” (apud QUEIROZ, 1978, p. 5).

A vila encontra-se às margens do Mar Pequeno e, durante boa parte de sua história, tinha o rio como única forma de conexão com o mundo externo. A vila sempre ficou protegida pela mata que acompanhava o curso do rio, só sendo possível ser vislumbrada após a chegada a seu porto principal, às margens do rio Icapara.

Este porto, usado para a ancoragem das canoas dos pescadores da vila, até os anos 1970, era conhecido como “porto de Domingos Cuba” pois ficava na propriedade de Domingos (Cuba) Bernardo (1905-1979), e foi, após sua morte, vendida e já nos anos 1980 desativada. Desta forma, o porto da vila passou a ser o porto às margens do Mar Pequeno, que já era usado para a parada de barcos maiores, como os de pesca, o da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, a lancha Samaritana e o de passageiros chamado Princesa. Devido a existência de um pequeno cais de madeira, construído a pedido de Júlio João de Carvalho (1895-1980), recebeu inicialmente o nome de “porto de tio Júlio” e atualmente é conhecido como “porto da Prancha”.

Portos da vila de Icapara

O principal transporte entre Icapara e Iguape era feito através da canoa motorizada (bateira) de Júlio João de Carvalho, guiado por seu funcionário Rosalino; este barco “desde 1949 realiza regularmente o percurso ida e volta de Iguape a Icapara uma vez por dia vencendo a pouca distância em três horas de viagem para cada turno” (Queiroz, 1978, p. 5). O barco Samaritana ancorava esporadicamente para trazer remédios e vacinas aos moradores. O da Sorocabana era principalmente usado em época de eleição para levar os eleitores à cidade e o barco Princesa fazia as viagens de passageiros com mais conforto que a bateira de Júlio João.

Hoje, além deste porto, usa-se para a ancoragem de canoas o “porto do Elói”, ao sul da vila (ver mapa).

“Tradicionalmente, a aldeia se divide em duas partes ou bairros conhecidos como Buruí e Valinho” (Queiroz, 1978, p. 29), ficando o Buruí no lado sul e o Valinho no lado norte. Na região central ficam o porto, a Igreja católica, a escola pública e o comércio.

A distribuição das casas na vila seguia um modelo de agrupamento familiar, ou seja, as casas dos filhos eram construídas dentro do perímetro de terras pertencentes aos pais. Segundo Lecocq-Müller (1949, p. 1), pela vila “esparramam-se as habitações, dentro de pequenas clareiras abertas no meio da vegetação natural”. Não existiam limites entre as propriedades de grupos familiares distintos. As casas “construídas dentro da mata, (...) se comunicam por trilhos que atravessam estreitas faixas de mato, de cerca de 20 a 50 metros” (Pierson & Teixeira, 1947, p.8).

Essa configuração começou a mudar também a partir dos anos 1970. Após a construção da estrada ligando o centro de Iguape à vila no final dos anos 1960, iniciou-se a prática de delimitar as propriedades com cercas e muros, em parte devido ao alargamento das ruas para a passagem de carros, mas também por ser a prática adotada pelos veranistas, que se tornaram donos de muitas propriedades na vila. Os muros passaram a dividir, na maioria das vezes, um agrupamento familiar de outro, mas também as casas individualmente.

O traçado das ruas por sua vez seguiu o desenho inicial das antigas trilhas e, a partir do ano de 1992 com a conclusão do calçamento de paralelepípedos em parte da vila, definiu-se o seu traçado atual.

Configuração das casas

As casas na vila eram durante boa parte do século XX construídas principalmente de pau-a-pique (barreadas ou simples) e madeira. Estes eram os únicos materiais usados na construção das casas pelo menos até o final dos anos 1940. “A capela e a escola são as únicas construções de tijolos” (Pierson & Teixeira, 1947, p.8).

Uma típica casa do Icaparano era formada normalmente por uma sala, que também servia de depósito, um ou dois quartos ladeados por um corredor e uma cozinha ao fundo. As salas, na maioria dos casos, eram assoalhadas, pois precisavam de uma proteção extra para servirem como depósito e, em alguns casos, como salão de baile. Como mobiliário usavam bancos compridos de madeira encostados à parede. Pelos cantos ficavam os cachos de banana para amadurecer, mantimentos e o silo para armazenar o arroz, no caso de família com roça. Os quartos nas casas de pau-a-pique eram normalmente de terra batida e nas casas de madeira, assoalhados e as camas não passavam de esteiras sobre o chão ou sobre uma base de estrado elevada do chão. A cozinha era sempre de terra batida pois o fogo era comumente feito no chão, pendurando a panela através de corrente presa ao teto, sem cadeiras ou mesas na maioria das casas.

Algumas casas mantinham na sua cozinha o pilão para moagem do café ou para a preparação da paçoca de farinha com carne seca e em alguns casos o “tráfico” que era um conjunto de equipamentos para a fabricação da farinha de mandioca. Outras, com mais espaço ou recursos, possuíam uma construção separada do corpo principal onde ficavam o fogão a lenha e a “casa de tráfico”, além de um forno na área externa.

Figura 1: Modelo de casa do início dos anos 1970

O tráfico consiste em um conjunto formado por:

  • Roda: uma roda de madeira de aproximadamente 1,5m revestida com latão áspero. Girada manualmente é usada para ralar a mandioca colocada em um dos lados;
  • Prensa: Comprime a mandioca ralada com a ajuda do tipiti (cesto feito de palha trançada), usado como peneira. O caldo resultante gera o polvilho de mandioca;
  • Forno: tacho de cobre sobre um fogão à lenha, usado para torrar a mandioca prensada.

Com a chegada dos turistas e para garantir uma melhor qualidade de vida para a família, os moradores tradicionais passaram a vender parte de suas propriedades, especialmente as que margeavam o rio, e assim, com o dinheiro das vendas, as casas de pau-a-pique e madeira passaram a ser substituídas por casas de alvenaria. Até o final dos anos 1980 praticamente todas as casas da vila já eram de alvenaria, porém o Icaparano perdeu, como consequência, o acesso ao rio.

Figura 2: Roda

Figura 3: Prensa e tipiti

Atividade Econômica

Na vila desenvolveu-se um gênero de vida ligado tanto à pesca quanto à agricultura. “A pesca constitui a principal atividade econômica” (Pierson & Teixeira, 1947, p.10). A atividade da pesca com redes seguia um calendário específico para os peixes grandes e outro para os pequenos. Utilizava-se também as técnicas de armadilhas como o “cerco” e o “covo”.

O “cerco” é uma técnica para captura de peixes feito a partir de uma esteira de bambu, presa com a ajuda de estacas. O cerco é montado a partir da margem de canais, normalmente próximo aos manguezais. São normalmente montados no início do inverno aproveitando a safra da tainha. Já o “covo” é uma armadilha menor para a captura de pequenos peixes e crustáceos.

Segundo Queiroz (1978) existiam na vila 98 pescadores, sendo 42 que pescavam exclusivamente manjuba, 20 que pescavam manjuba e outros peixes com rede, 34 que pescavam manjuba e outros peixes com cerco e 2 que só utilizavam o cerco para a pesca.

Figura 4: Cerco

O principal comprador de peixes durante parte do século XX foi Paulo Alcedo da cidade de Santos, que tinha como tripulação o timoneiro César e seu irmão José “Saguarú”, ambos de Santos; além de Joãozinho e Cecílio do bairro das Pedrinhas, na Ilha Comprida. Alcedo mantinha no porto uma geladeira para armazenagem dos peixes capturados pelos pescadores locais e semanalmente visitava a vila para levá-los. “Durante o tempo de permanência, eles compravam também a pesca excedente, o que passou a representar um pouco mais de dinheiro numa economia quase desmonetizada” (Queiroz, 1978, p.10).

As roças de mandioca e arroz configuravam as principais produções agrícolas na vila, além do feijão e milho, todos produzidos para o uso doméstico. A partir dos anos 1940, porém, o excedente do arroz passou a ser comercializado em Iguape. “Na realidade, essa venda do ‘excesso’ da produção é um pouco relativa, porque o que guardam para o consumo próprio é muito pouco, quase que para uso imediato” (Lecocq-Müller, 1949, p.29).

O cultivo do arroz foi reduzindo a partir da segunda metade do século XX e nos anos 1970 foram plantadas as últimas roças. As roças de mandioca foram escasseando a partir dos anos 1980, assim como as casas de tráfico. Nota-se nesse processo uma relação com a mudança do modo de vida rural, ligado à agricultura para um mais urbano.

Atualmente não se encontram mais casas de tráfico ativas na vila e poucos são os moradores que ainda praticam a atividade de pesca como trabalho.

Eventos Sociais e Música

Os eventos sociais na vila de Icapara sempre tiveram relação com a agricultura e calendário da Igreja Católica. A cultura caiçara fervilhava na vila com os bailes de fandango, festas juninas e os eventos de mutirão.

Demão ou Ajuntório

No processo de cultivo da mandioca ou do arroz sempre houve uma cooperação entre os moradores da vila com o dono da roça na época da colheita ou do plantio. Os mutirões eram conhecidos como “ajuntório” ou “demão” e consistiam em juntar um grupo de moradores para colaborar com a retirada da mandioca ou de outra plantação. O dono da roça oferecia comida e bebida para os participantes e muitas vezes o evento culminava com um baile de Fandango que varava a noite. “Há um certo compromisso moral, na participação da ‘demõ’ generalizada entre os membros da comunidade e isto vem a ser, em suma, um fato econômico que pode ser traduzido por ‘troca de serviço’ ou ‘pagamento por serviço’” (Pierson & Teixeira, 1947, p.13).

Fandango

O Fandango acontecia com uma certa frequência na vila. O Fandango caiçara é mais que uma dança, é uma “expressão musical-coreográfica-poética e festiva da cultura caiçara” (BRASIL. IPHAN, 2011, p.22). Muitos dos bailes de fandango aconteciam após uma “demão”, mas também durante o período de Carnaval e após os festejos juninos em comemoração a Santo Antônio, São João, São Pedro e, em julho, Santa Isabel. No período de Carnaval os bailes aconteciam durante 4 dias seguidos principalmente na de seu Claudino Trudes (1909-1993) e de Júlio João de Carvalho (1895-1980).

Os bailes compreendiam um grupo de músicos tocando e cantando as modas, as moças, que aguardavam nos bancos da sala serem tiradas para dançar e os rapazes, que aproveitavam o evento para cortejar as moças.

Existiam algumas regras a serem seguidas, como por exemplo, as moças não podiam negar uma dança sob a pena de passar o resto da noite sem poder dançar com mais ninguém. Além disso, os bailes eram proibidos para crianças e serviam como rito de passagem para a vida adulta, já que uma vez que o jovem chegasse a uma certa idade passava a ser aceito dentro da casa. As crianças pequenas eram colocadas para dormir em um dos quartos da casa para que os pais pudessem se divertir.

No Fandango existem várias danças, cada uma com sua própria música e coreografia, como o “Bate pé”, o “Sirindi”, além do ritmo “Valsado”. A primeira moda do baile era o “São Gonçalo”, transcrito abaixo, e os ritmos mudavam durante toda a noite.

São Gonçalo não quer missa
nem na rua tirar esmola
São Gonçalo quer fandango
de rabeca e viola.

(Refrão)
Ó, Deus, viva São Gonçalo

Do céu veio uma luz
em cima de nós raiou
foi a luz de São Gonçalo
que agora do céu chegou

(Refrão)
Ó, Deus, viva São Gonçalo

São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das velhas
O que fizeram as moças
Porque não se casaram elas.

(Refrão)
Ó, Deus, viva São Gonçalo

Pegaram em São Gonçalo
Mandaram daqui pra fora,
Pra ser escravo de Deus
pra servir Nossa Senhora

(Refrão)
Ó, Deus, viva São Gonçalo

No “Sirindi”, transcrito abaixo, os versos são cantados sem uma ordem definida, assim como a maioria das modas. A cada estrofe aleatória repete-se o refrão até a dança acabar. Os dois primeiros versos de cada estrofe são repetidos duas vezes.

Quero começar cantando,
Que até hoje ainda cantei.
Quero ver este meu peito,
Se está como eu deixei

Aguapê da beira d’água
Não se corta com machado
Corta-se com canivete
Do cabinho prateado.

Isto já é madrugada
É hora do galo cantar
Quem tem seu amor por longe
É hora de viajar.

Vou embora, vou embora
Daqui eu vou me mudar
Vou embora pra bem longe
Pra nunca mais voltar.

Capinzinho do terreiro
Não se corta com machado
Se corta com canivete
Do cabinho prateado.

Capinzinho do terreiro
Não contes que eu vim pra cá
Não quero que o meu bem saiba
Que eu ando por passear.

Ah meu Deus que eu não posso
Cantar como eu já cantei
Eu quero ver este meu peito
Se está como eu deixei.

Meu Deus, que já não posso
Cantar como eu já cantei
Eu tomei água corrente
Que até no falar eu mudei.

(Refrão)
Ô Sirindi, vamos todos cirandar
Ô Sirindi, vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar
Mais outra meia adiante troque o par

Se essa rua fosse minha
Eu mandaria ladrilhar
Com pedras de diamante
Pro meu amor passar.

A maré que enche e vaza
Deixa a praia ‘descoberto’
De longe também se ama
Não pretendo mais de perto.

Se a ribeira falasse
Contaria do que viu
Contava de dois amantes
Que na ribeira subiu.

Fui na praia escrever
Lá naquela praia ‘infinito’
Veio a onda e apagou
Tudo quanto eu tinha escrito.

Lenço branco na janela
Eu peço que não ponha mais
Vem o vento e balanceia
Eu penso que vós me chamais.

Os bailes foram mudando ao longo dos anos e já no início dos anos 1980 acabaram definitivamente.

Bois no Carnaval

Além dos bailes, outra tradição durante o período de Carnaval era o evento da matança de bois. Nele alguns bois eram comprados na Ilha Comprida e trazidos amarrados em canoas para em seguida serem soltos nas ruas da vila.

No final do evento os bois eram mortos e sua carne dividida entre os moradores que colaboravam com a compra, criando, a partir daí uma outra tradição para as famílias, chamada de “carne de Carnaval”, que consiste em uma carne de panela temperada com cebola e outras especiarias, prato que até os dias de hoje é feito no final de semana de carnaval e é muito apreciado pelos moradores.

Batimento de Arroz

O beneficiamento do arroz, parcialmente realizado na vila era chamado de “batimento” ou “bateção” que, grosso modo, consistia em remover a palha do arroz para depois ser ensacado e enviado para a cidade. Mas o Icaparano transformou a atividade em um evento social muito apreciado no qual o arroz era retirado do silo ou paiol e espalhado pelo assoalho da sala pelas mulheres.

Os homens eram responsáveis por separar o arroz da palha com os pés em movimentos circulares. “O trabalho é acompanhado pelo tom do ‘atabaque’ e de cantos” (Lecocq-Müller, 1949, p.27) no ritmo chamado de “Jongo”. O jongueiro batia um tambor ou caixa e cantava os versos que eram respondidos pelos homens no refrão. Após a conclusão desta etapa as mulheres retiravam o arroz separado da palha e espalhavam uma nova leva, para o jongo reiniciar, tudo regado a muita cachaça. E assim passavam o dia e a noite. “Quando acabam (...) estão todos bêbados de pinga e de cansaço" (Pierson & Teixeira, 1947, p.18).

“Venha ver comadre grilo,”
(Homens) “está querendo dar nos outros.”

“Minha comadre Maria,
meu compadre gafanhoto.
Venha ver comadre grilo, está querendo dar nos outros.”
(Homens) “mas está querendo dar nos outros.”

As roças de arroz começaram a escassear no final dos anos 1970 e o batimento de arroz, por consequência, deixou de ser realizado a partir dos anos 1980.

Festas Juninas

As festas Juninas eram outro evento muito importante na vila. Durante o mês de junho eram comemorados os dias de Santo Antônio no dia 13, São João no dia 24 e São Pedro no dia 29, e em julho o dia de Santa Isabel no dia 4.

No primeiro dia de festa, de Santo Antônio, era erguido um mastro feito a partir de uma árvore da região, cujo trajeto desde seu corte até a chegada à Igreja era acompanhado de perto pelos fiéis. Após a colocação do mastro em frente a Igreja, uma bandeira do Santo era erguida e, a cada dia de santo era feita a troca e uma nova bandeira hasteada.

Após a cerimônia de hasteamento da bandeira dava-se início à quermesse com leilão e roleta de prêmios. Eram comprados pães e roscas de trança na cidade que eram usados como prêmios do leilão. Os leiloeiros passavam com os pães pedindo lances para os fiéis e o maior lance levava a prenda. Na roleta cada participante recebia um número e o sorteado levava o prêmio.

As festas dos santos deixaram de ser comemoradas pela igreja nos anos 1980 pois foram substituídas pelas festas juninas trazidas de fora, e atualmente este evento não faz mais parte do calendário da vila.

Curandeiros e Benzedores

De acordo com Queiroz (1978), para o caiçara, as doenças sempre provêm de sentimentos negativos vindos do próprio indivíduo, de outros ou do desequilíbrio com o meio exterior através do consumo de elementos considerados “quentes” ou “frescos”.

Nos dois primeiros casos, quando uma pessoa fica triste, tem uma vontade não realizada ou leva algum susto, pode cair doente. Da mesma forma uma criança pode adoecer devido ao excesso de amor de parentes (quebranto) ou de espíritos ancestrais (encosto) e um indivíduo também pode adoecer quando lhe é dirigido um olhar com maus sentimentos como inveja e rancor (mau-olhado). Além disso existia também a crença de que uma pessoa poderia lançar um feitiço contra outra causando, além de problemas de saúde, todo tipo de problemas na vida. Para estes casos recorria-se às “simpatias” e “benzimentos”.

Os benzedores são pessoas “comuns” da vila que receberam essa incumbência de pais ou avós e aprenderam as orações necessárias para males distintos. Para cada sintoma existe uma reza e um benzedor normalmente não trata todos os problemas. O processo de benzimento é realizado com o benzedor executando uma reza com gestos da mão ou com ramo de alguma planta (por exemplo, ramo de arruda) na região afetada.

Em 1976 (...) Icapara conta com apenas cinco benzedores (três homens e duas mulheres) especializados em "sapinho" (estomatite), "cobreiro" (erupção cutânea que, segundo a crença popular, é causada pela passagem de alguma cobra, aranha ou sapo pela roupa),"izipra" (Erisipela) e "chieira de peito" (bronquite asmática). Houve benzedores na aldeia que também benziam espinho na garganta, verruga, "bichas alvoroçadas" (vermes intestinais), mau-olhado e quebranto (Queiroz, 1978, p. 125).

As simpatias assemelham-se ao benzimento, mas não precisam de uma oração. São objetificadas na forma de uma relíquia ou unguento e qualquer pessoa que saiba a receita pode utilizá-la em outros ou em si próprio.

Para cólica, ingere-se água com cinzas da palha de vassoura coada com uma camisa de alguém do sexo oposto do paciente. (...) Para maleita, esfrega-se a região do baço com a folha da rama a qual é depois colocada junto a um formigueiro para que as formigas a carreguem “juntamente com a doença” (Queiroz, 1978, p. 131).

A medicina popular da vila costumava usar vegetais, mas também cânfora, álcool e agentes de origem animal, além de excretos, de acordo com a regra de medicamentos quentes ou frescos.

(...) a urina humana (quente) se emprega para problemas de pele e a cera de ouvido (quente), para dor de dente. As fezes de cachorro (quente) são ingeridas torradas para casos de sarampo e as fezes humanas (quente), para picada de cobra (Queiroz, 1978, p. 62).

Além disso existiu a figura do curandeiro, que passou por quatro gerações na vila, desde o final do século XIX até o final dos anos 1980. O curandeiro é o agente responsável pelo tratamento e cura de doenças se utilizando basicamente plantas medicinais e remédios homeopáticos.

Icapara teve no final do século XIX um curandeiro de origem alemã chamado Ferdinand Von Gothard (1816-1905) e conhecido na região como “Doutor do Mato”. Ferdinand importava da Alemanha os produtos para preparação dos remédios homeopatas que usava para atender a população da vila. “Muito provavelmente tratava-se de um ‘curioso’ a quem a difusão de livros e panfletos populares sobre medicina (principalmente os homeopatas) na época, influenciou” (Queiroz, 1978, p. 72).

Após sua morte, seu filho Hermano von Gothard e depois seu neto Evaristo Cornélio Gothard assumiram seu posto com o mesmo sucesso de Ferdinand. Evaristo frequentava a igreja Presbiteriana e lá se aproximou de Benedito Nascimento, um jovem morador de Icapara, também um curioso em medicina e acabou fornecendo os primeiros livros de homeopatia a ele.

A partir de então Benedito Nascimento Pereira (1914-1991) transformou-se no quarto sucessor de curandeiros. Estudioso, adquiriu cada vez mais conhecimento sobre medicina homeopática e plantas medicinais e na prescrição de remédios para gripe, tosse, sarampo entre outras enfermidades, ganhando assim a confiança dos moradores da vila. Começou a se dedicar a curandeira com 16 anos, a partir de 1930.

No entanto, o seu prestígio só viria a alcançar o seu apogeu no ano de 1953 com a epidemia de paratifo que ele conseguiu debelar com o emprego de antibióticos. Essa época marcou o fim definitivo do uso da homeopatia e a intensificação do emprego de remédios químicos da medicina alopática (Queiroz, 1978, p. 73).

Com informações coletadas em um livro do Dr. Nilo Cairo da Silva (1874-1928) conseguiu descobrir que a moléstia que acometia a população de Icapara era o paratifo. Apesar de no livro só detalhar a doença, descobriu através de estudos que o tratamento ideal era com a utilização de remédios alopáticos como o cloranfenicol e farmacetina, poderosos antibióticos.

Por estar envolvido também com a política em Iguape, foi denunciado ao Ministério Público por adversários políticos e quase preso, até que conseguiu comprovar que a prescrição desses medicamentos era a mais indicada para o tratamento dessa doença, e foi absolvido.

Benedito Nascimento possuía enorme prestígio na vila e apesar de ter estudado apenas o primeiro ano primário, “a população o considera um erudito e afirmam constantemente que os seus conhecimentos sempre emanam de livros e que, portanto, ele não fica devendo nada aos médicos formados” (Queiroz, 1978, p. 71).

Nunca cobrou por uma consulta e mantinha em sua casa um estoque de medicamentos e aparelho de medir pressão para sempre estar à disposição dos moradores.

Benedito Nascimento faleceu em 26 de outubro de 1991 de complicações devido a um AVC e foi homenageado com o seu nome na UBS do bairro.

Calendário religioso, de trabalho e eventos

Durante grande parte do século XX o tempo do Icaparano dividia-se entre as atividades religiosas, do trabalho e eventos sociais. “o gênero de vida que desenvolveram impõe-lhes um calendário de trabalho cheio, que não justifica a fama de indolentes, que, injustamente, gozam” (Lecocq-Müller, 1949, p.28-29).

Quadro 1 – Calendário anual

Fonte: Lecocq-Müller, 1949, p.25, 27, 28; Queiroz, 1978, p.18

Referências

  • PIERSON, D.; TEIXEIRA, C. B. Survey de Icapara. Fundação Escola de Sociologia e Política, 1947.
  • LECOCQ-MÜLLER, N. Uma vila do litoral paulista - Icapara. Boletim Paulista De Geografia, 1949, n. 1, p. 22-30.
  • QUEIROZ, M. S. Representações de doenças e instituições de cura numa aldeia de pescadores, 1978, 161 p. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, SP.
  • IPHAN - INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Fandango caiçara: Expressões de um sistema cultural, 2011, 97 p.
  • Notas colhidas pessoalmente através de rodas de conversa e entrevistas.

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Tags: Icapara Revista
Referência Bibliográfica

  • PIERSON, D.; TEIXEIRA, C. B. Survey de Icapara. Fundação Escola de Sociologia e Política, 1947.
  • LECOCQ-MÜLLER, N. Uma vila do litoral paulista - Icapara. Boletim Paulista De Geografia, 1949, n. 1, p. 22-30.
  • QUEIROZ, M. S. Representações de doenças e instituições de cura numa aldeia de pescadores, 1978, 161 p. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, SP.
  • IPHAN - INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Fandango caiçara: Expressões de um sistema cultural, 2011, 97 p.
  • Notas colhidas pessoalmente através de rodas de conversa e entrevistas.