Revista Icapara - Número 3

Por Ronaldo Pereira Trudes Paolillo | Publicado em 01 de junho de 2025 | 32 visualizações

Revista Icapara - Número 3

Revista Icapara - Número 3

REVISTA ICAPARA

número 3

História, costumes, rituais e outros aspectos culturais da vila de Icapara

Ronaldo Pereira Trudes Paolillo
2025


Imagem da Capa - Revista 3

Índice

  • Passado da Vila
  • Principais famílias
  • Casamento
  • Métodos de pesca
  • Lendas e medos

Passado da Vila

Sobre a história de Icapara esbarramos na escassez de documentos históricos e, para que possamos entender um pouco do seu passado, se faz necessária a utilização da tradição oral como fonte inicial para abordar alguns eventos e narrativas que traremos a seguir.

Ao utilizar a abordagem oral para descrever acontecimentos de séculos passados precisamos considerar que a história se funde com as lendas locais.

Faremos também um comparativo com o pouco material escrito relacionado à vila.

Fundação

No relato local coletado por Pierson & Teixeira (1947) diz-se que a fundação de Icapara se deu por um português que veio para cá junto com outros e por aqui ficou vivendo da pesca. Esse português e seus descendentes, misturaram-se com os indígenas, “[...] desenvolveram a população e fizeram do lugar o que é hoje” (Pierson & Teixeira, 1947, p. 9).

Outros relatos falam que navios jogavam criminosos europeus na nossa costa e que esses degredados passaram a se unir, tornando-se piratas e praticando saques em navios que passavam pela região. Existe inclusive a lenda de tesouros enterrados por tais piratas.

Podemos relacionar estas histórias a um português, conhecido como bacharel de Cananéia, que aparece no diário de Pero Lopes de Souza contando sobre a visita de seu irmão Martim Afonso de Souza à região de Cananéia em agosto de 1531. Pero Lopes relata que enviaram Pedro Annes, piloto de um dos navios e que falava a língua indígena, em busca dos líderes indígenas do local. No dia 17 de agosto ele retorna em um bergantim acompanhado do “bacharel”, Francisco Chaves e cinco ou seis castelhanos, demonstrando que já sabiam da existência do bacharel e aguardavam a sua chegada. Deste fato Young (1898) revela que a embarcação possivelmente chegou com as pessoas citadas, partindo de Icapara.

Consta, por tradição em Iguape, que em tempos remotos um bacharel desterrado estabeleceu-se ao pé d'um pequeno monte situado em frente à barra de Icapara, sobre cujo monte ele levava dias inteiros assentado olhando para o lado do mar, até que chegaram mais alguns homens náufragos d'um bote, com os quais ele formou o núcleo da antiga vila de Iguape. (Young, 1898, p. 96).

Sendo assim, a vila de Icapara parece ter sido realmente fundada por esse bacharel português que foi deixado na região em 1501 ou 1502 e foi auxiliado pelos espanhóis que chegaram em 1508.

Representação artística do Bacharel Cosme Fernandes
Figura 1: Representação artística do Bacharel Cosme Fernandes. Fonte: Desenho do autor

O pequeno monte em questão trata-se do Outeiro do Bacharel, atualmente também conhecido como morro do Farol, ficando claro que eles se estabeleceram ao pé deste monte.

“O bacharel de que se trata não é senão Cosme Fernandes Pessoa, por tratamento mais usual conhecido por mestre Cosme” (Sampaio, 1902, p.280).

Outra figura que se juntou ao bacharel por volta de 1530 foi o espanhol Ruy Garcia de Mosquera, “estabelecendo-se em um lugar chamado Iguape, principiando aí a fazer plantações e vivendo algum tempo em relações amigáveis com os seus vizinhos” (Young, 1898, p.68).

Também segundo Sampaio (1902) é provável que o português ainda estivesse vivo em 1542 com aproximadamente 75 anos e morreu deixando alguns descendentes. As terras que deixou a seus herdeiros deveriam ser pagas com uma missa anual pelo descanso de sua alma, já que foi em vida um grande criminoso.

Em relação às lendas de tesouros enterrados, Young (1902) encontrou duas lendas relacionadas à Icapara. A primeira é sobre uma grande caverna onde os nativos se escondiam para fugir dos perigos e que, após a chegada dos europeus, passaram a usá-la para armazenar ouro em pó e outros objetos valiosos. A entrada da caverna teria sido fechada quando foram obrigados a fugir do povoado e o lugar exato dos tesouros se perdeu para sempre. A segunda lenda fala sobre duas cobras gigantes que atormentavam o povoado e, para matá-las os homens fizeram uma arma que, com um tiro, liquidou uma das cobras e a outra fugiu criando um buraco na terra para se esconder. Os homens da vila bloquearam então o acesso ao buraco prendendo a cobra em seu interior.

Para Young (1902) estas lendas podem estar relacionadas a uma caverna real que os primeiros europeus utilizavam como esconderijo, criando a história das cobras para afastar as pessoas do lugar.

Uma outra lenda fala sobre o primeiro morador branco de Iguape, provavelmente o mesmo bacharel português, que, sendo um degredado e não podendo retornar à sua terra natal, passou a vida juntando ouro em pó. Na ocasião da sua morte teria sido enterrado em uma cova feita diretamente na rocha e seu corpo coberto de ouro em pó sendo a cova fechada com uma grande laje de pedra. Alguns moradores até hoje dizem que o seu túmulo está localizado em algum lugar do Outeiro do Bacharel.

Lenda das cobras gigantes
Figura 2: Lenda das cobras gigantes. Fonte: Desenho do autor

A Guerra de Iguape

A guerra de Iguape foi um evento marcante do início da colonização portuguesa no Brasil.

De acordo com a versão contada pelos moradores da vila, em um passado remoto houve uma guerra entre os Icaparanos e os Vicentinos. Os Icaparanos se uniram para atacar São Vicente saindo do povoado com 5 navios e chegando lá com 8, ou seja, tomando 3 navios no caminho. Destruíram a vila de São Vicente e voltaram com o saldo de 100 mortos do lado dos Icaparanos, estes enterrados no cemitério do Prelado, na Juréia.

Esta lenda se refere ao evento final da guerra de Iguape, que foi a pilhagem de São Vicente pelos espanhóis liderados por Ruy Garcia de Mosquera e os números, claro, fazem parte do imaginário popular, mas o enredo se assemelha bastante à versão contada pelos historiadores que estudaram esse evento.

Quando da chegada de Martim Afonso de Souza e sua frota à Cananéia em 1531, ficou-se sabendo da existência de riquezas em ouro no interior do continente, provavelmente relacionadas ao império Inca, e 80 homens de sua frota foram cedidos para a empreitada liderados pelo capitão Pero Lobo. Seguiram o caminho de Peabiru e nunca mais foram vistos, certamente mortos por indígenas. Segundo Young (1898, p.97) o local mais provável foi nas proximidades das minas de Ivuporanduba ou de Iporanga. Após o conhecimento por Martim Afonso desse episódio, mas não necessariamente devido a ele, em 1534 o bacharel, bem como os espanhóis que o acompanhavam foram intimados a mover-se para a vila de São Vicente.

Para o bem futuro do estabelecimento português que Martim Affonso estava fazendo em S. Vicente não convinha ter uma colônia espanhola tão perto, ainda que fosse pequena, visto ser mais antiga e bem relacionada com os indígenas em redor; e daí as intimações para se reunirem em S. Vicente. (Young, 1898, p. 77).

Ruy Garcia de Mosquera, sendo um homem difícil, não respeitou a determinação de Gonçalo Monteiro, capitão comandante nomeado por Martim Afonso, já que além das posses e da boa convivência com os indígenas da região não queriam se submeter à Coroa Portuguesa.

Decidiram então buscá-los à força sob o comando de Pero de Góis, porém foram emboscados e “nem sequer puderam salvar os barcos ou canoas, dos quais, se aproveitaram Mosquera [...]” (Varnhagen, 1877, p. 166). Isso tudo porque Mosquera e os demais tinham, alguns dias antes, tomado de assalto uma embarcação francesa e usado suas armas e munições para aguardar a embarcação vinda de São Vicente.

Vários soldados e indígenas ficaram atocaiados nos mangues próximo ao Outeiro do Bacharel e, quando o esquadrão desembarcou, foram violentamente atacados por tiros e flechas. Ao bater em retirada foram novamente surpreendidos por outro ataque dos espanhóis que os aguardavam na barra do Icapara. “[...] houve então uma ‘grande matança’ e o próprio capitão Pero de Góis ficou gravemente ferido [...]” (Bueno, 2016, p.92).

Aproveitando-se da vitória em Iguape, foram até São Vicente, pilharam tudo o que encontraram, destruindo inclusive o Livro do Tombo, onde ficavam registradas as escrituras de sesmarias. “[...] voltaram à Iguape, e sendo perseguidos pelas forças de [Ruy] Pinto e [Pero de] Góes seguiram para o Sul até a ilha de Santa Catarina” (Young, 1898, p.77).

A esse ataque, juntou-se uma ressaca na mesma época que devastou as casas e o pelourinho, castigando tanto São Vicente que quase acabou de vez com o povoado, levando por volta de uma década para se recuperar da destruição.

Estes espanhóis foram vistos mais tarde, no ano de 1537 no porto de Candelária, no atual Uruguai, em um navio com destino à Buenos Aires, claramente fugindo dos portugueses de São Vicente.

Mesmo Icapara ficando durante algum tempo abandonada pelo bacharel e os demais europeus, continuou a ser o núcleo da vila de Iguape, aos pés do outeiro do Bacharel.

Principais famílias

Conforme Pierson & Teixeira (1947) relatam em sua pesquisa sobre Icapara, o entrelaçamento de parentesco na vila abrange praticamente toda a população. Eles identificaram na lista de chamadas da escola local os principais sobrenomes existentes, a saber, Trudes, Pereira, Barbosa, Matos, Silva e Ribeiro, tendo também uma grande mistura entre esses sobrenomes. “De três partes da população, duas são Trudes. Matos é a maior família depois desta, Barbosa é a seguinte. Essas três são aparentadas entre si” (Pierson & Teixeira, 1947, p. 18).

Comparando estas informações com o censo de 1765, por exemplo, notamos que os principais nomes mudaram bastante nesses quase 200 anos, sendo Rodrigues e Souza os sobrenomes mais comuns, com 7 ocorrências cada, seguido de Carvalho, Cubas, Nunes e Ribeiro. O Sobrenome Barbosa aparece apenas 1 vez no documento.

Tabela 1 – Censo de Icapara: 1765
Sobrenomes Pessoas por sobrenome
Rodrigues, Souza 7
Carvalho, Cubas, Nunes, Ribeiro 5
Barros, Gomes, Guedes, Pereira 4
Alves, Silva 3
Morais, Pontes, Siqueira, Teixeira 2
Aguiar, Amorim, Assunção, Barbosa, Borges, Caetano, Cardoso, Costa, Coutinho, Cruz, Fernandez, Muniz, Oliveira, Reis, Santos, Sardinha 1

Fonte: Elaborada pelo autor com base nos Maços de População de Iguape e Xiririca

No censo de 1846 o nome mais comum passa a ser Nunes, com 17 ocorrências. Seguido por Lopes, Pereira e Ribeiro com 6 ocorrências cada.

Não devemos, no entanto, considerar essas quantidades como reais uma vez que os censos no período da colônia e império eram muito falhos e muitos dos nomes coletados não tinham a informação do sobrenome.

É curioso notar que, alguns dos sobrenomes listados já não aparecem atualmente na vila, porém os descendentes os mantêm como uma espécie de apelido. Temos os sobrenomes Barbosa e Cubas, que, apesar de não constarem mais no registro de identidade dos moradores atuais ainda são usados pelos descendentes dessas duas famílias. Um exemplo é o ex-dirigente da Igreja Católica de Icapara, Antonio João de Carvalho Filho (1915-2018) que era conhecido como Antonio Barbosa ou Totó Barbosa, mesmo que esse sobrenome já não fizesse parte da família a algumas gerações.

Um outro nome bastante curioso é o Trudes, que começa a aparecer nos censos e registros de nascimento somente a partir da metade do século XIX e, já na primeira metade do século XX, passa a ser o sobrenome mais comum da vila.

Este sobrenome, ocorre inicialmente na cidade de Eldorado, antiga Xiririca. De acordo com registros genealógicos, consta que no século XVIII migrou para o Brasil Adrian Trudes, também identificado como Adrião Trudes de Normandia, nascido por volta de 1735 na cidade de Rouen, região da Alta Normandia na França. Casou-se com Bárbara de França (~1746-?) e prosperou na região de Xiririca.

No censo de 1789 aparece com os filhos Luiz de 19 anos, Thomaz de 12, Domingos de 9, Geraldo de 5, Francisca de 17, Anna de 11, Jozepha de 7 e Maria de 2 anos. Possuía também 4 escravos (Antonio de 8 anos, Silvana de 25, Juliana de 6 e Tereza de 12).

Essa informação é confirmada pelo artigo da Revista IHGSP que diz “Em 1789, encontrei [...] Adrião Trudes de Normandia, de cinquenta e três anos, casado com Bárbara de França, de quarenta e três[...]” (Silveira, 1951, p. 114-115).

A relação de Adrião com os Trudes de Icapara ainda não foi comprovada, mas a partir dos anos 1850 nasceram na vila os primeiros Trudes, filhos de Antonio Cubas Trudes e Maria Alves (1835-1905). São eles Maria do Espírito Santo Cubas, José Antonio Trudes, Joaquim Antonio Trudes (1854-1929), João Antonio Trudes (1855-?) e Domingos Antonio Trudes (1875-1931).

Estes filhos deram origem às ramificações da família Trudes de Icapara, ou seja, todos os Trudes da vila são descendentes de um destes irmãos.

Genealogia da família Trudes de Icapara
Figura 3: Genealogia da família Trudes de Icapara. Fonte: Pesquisa genealógica feita pelo autor

Talvez os laços de parentesco que ligavam quase todos os moradores da vila, notado por Pierson & Teixeira (1947), explique uma outra curiosidade em Icapara que é a prática de chamar os mais velhos por “tio” e “tia”, mesmo em casos da ausência desse parentesco entre essas pessoas, já que no fundo muitos sabem que têm algum parentesco com elas, mesmo que distante.

Casamento

Os rituais de casamento na vila até a primeira metade do século XX eram basicamente dois, mas que podiam se desdobrar em outras variantes.

Segundo Pierson & Teixeira (1947) o primeiro ritual consistia em, após os noivos terem manifestado o desejo de casar e terem feito o entendimento entre o casal, as famílias entravam em acordo e um determinado dia ficava marcado para a cerimônia, que nada mais era do que a noiva abandonar a casa dos pais durante a madrugada, levando seus pertences, até a casa da família do noivo. O noivo por sua vez a aceitava em sua casa e o ritual estava finalizado. O novo casal passava a viver na casa da família do marido até constituírem seu novo lar.

Neste método de casamento poderia ocorrer também a inversão e o noivo, após o casamento passava a morar na casa da família da noiva. Outra variação, mais rara, nos casos de rixa ou inimizade entre as famílias, era a noiva fugir para a casa da família do noivo ou os noivos fugirem para algum lugar mais distante até que a união fosse aceita pelas famílias.

O outro ritual praticado era o “casamento em Iguape”, cheio de pompas e festejos envolvendo a vila toda.

Os parentes e amigos mais chegados dos nubentes acompanham-nos até Iguape, todos em canoas. Lá o casamento é feito nas formas comuns, no cartório e na igreja, às vezes só na igreja. Na volta, ao se aproximarem de Icapara, ainda no mar, soltam foguetes cujos estampidos anunciam a próxima chegada. Então o pessoal que ficou em Icapara, vai ao chamado "porto" para o "casamenteiro". O "casamenteiro" que vem a ser a festa do casamento, constitui-se do seguinte: a chegada em terra dos recém-casados, com seus companheiros, os quais, ao desembarcar, cumprimentam, apertando a mão de todos os que estão esperando no porto. Atrás dos recém-casados, vem uma pessoa distribuindo, aos que vão sendo cumprimentados, cachaça aos homens, vinho às mulheres e balas às crianças. (Pierson & Teixeira, 1947, p. 19)

Após isso os noivos voltavam a sua vida normal, porém na casa da nova família.

Métodos de pesca

Os métodos de pesca encontrados na vila de Icapara são basicamente os mesmos encontrados em outras regiões do Brasil.

Toda a técnica usada na pesca é um misto possivelmente da técnica portuguesa e indígena. As redes, em suas diferentes formas e tamanhos, bem como os anzóis, cada tipo adequado para uma espécie de peixe, parecem ser partes materiais da cultura portuguesa. A maneira como lançam as redes e pescam os peixes também[...] (Pierson & Teixeira, 1947, p. 11)

Mas, ainda segundo Pierson & Teixeira (1947), o uso do “cerco” e do “covo” são provavelmente herança indígena, bem como as canoas.

Em sua pesquisa, Lecocq-Müller (1949) fala sobre os períodos de pesca de peixes “graúdos”, que vai de outubro a março e de “miúdos”, de maio a julho. A pesca de peixes graúdos ocorre do início da noite até a madrugada e para esse tipo de pesca utilizam-se redes de fios mais resistentes, com boias e malhas maiores, uma vez que são lançadas em alto mar. Para os peixes miúdos, que ocorre de dia mesmo e sem regra específica, já que dependem da observação da chegada dos cardumes, utilizam redes de fios mais finos e malhas pequenas. “Esta pesca é feita com redes que são puxadas para a praia da própria vila ou, mais raramente, para a praia [...] conhecida pelo nome de Prainha” (Lecocq-Müller, 1949, p.26).

“A pesca de alto mar, exigindo grandes e bem aparelhados barcos, praticamente não é feita por estes pescadores modestos, cujos exíguos recursos não podem custeá-la” (Souza, 1945, p. 666).

Segundo Mourão (1971), a pesca da manjuba, mais tradicional, é também a atividade principal da vila. Já a pesca da tainha, do robalo e outros peixes são menos valorizadas. Os tipos de pesca mais comuns são o cerco, a rede de espera (para pesca do robalo), o currico e o picaré.

Tabela 2 - Período de ocorrência das espécies de peixes em Icapara
Espécie Temporada
Bagre Mais no verão (dezembro)
Betara Ano todo, mais no verão
Cação Mais janeiro, fevereiro e março
Corvina Ano todo, mais setembro
Camarão 7 barbas Ano todo
Carmarão legítimo Setembro - fevereiro
Caranha Ano todo
Enxova Ano todo
Galo Ano todo
Goete Ano todo
Linguado Ano todo
Manjuba Setembro a abril

Tainha
Figura 4: Tainha. Fonte: Desenho do autor

Espécie Temporada
Misturado Ano pouco
Miraguaia Mais no verão
Mero Mais no verão
Parati Ano todo
Pescada amarela Mais no verão: janeiro
Pescadinha Mais no verão: janeiro, fevereiro e março
Pescada cambucu Mais no verão
Pescada branca Mais no verão: janeiro
Pescada olhuda Mais no verão
Pescada foguete Ano todo
Piraginca Ano todo
Pregereba Dezembro, janeiro e fevereiro
Raia Ano todo: mais janeiro
Robalo Setembro, novembro, janeiro, fevereiro e março
Sardinha Setembro a fevereiro
Sargo Ano todo: mais janeiro e fevereiro
Sorocaba Ano todo
Tainha Inverno: maio a junho
Viola Ano todo
Xareu Setembro a dezembro
Xerelete Setembro a dezembro
Caranguejo Ano todo
Ostra Ano todo (pouca)
Siri Ano todo

Fonte: Elaborada pelo autor com base em Mourão, 1971

Algumas técnicas, como o cerco, já não são mais utilizadas na vila. Falaremos então de algumas técnicas empregadas atualmente pelos pescadores.

Espera

A pesca de espera é a técnica de rede estática retangular para pesca em rios e no “mar pequeno”. O tamanho da malha indicará o porte do peixe que se espera capturar. Normalmente usa-se a malha 18 (é uma rede com 90 mm entre os nós e 18 cm de malha esticada) para a captura de peixes como robalo, caranha e pescada amarela, entre outros do mesmo porte. Nesta técnica a rede é solta no final da tarde e visitada pela manhã do dia seguinte.

“É um tipo de rede disposta verticalmente e fica ao fundo, por meio de âncoras (poitas), e são sinalizadas por boias na superfície” (CEPSUL/IBAMA).

Rede de Espera
Figura 5: Rede de Espera. Fonte: CEPSUL/IBAMA (Gamba, Manoel da Rocha. Itajaí-SC, 1994)

Caceia

A caceia é o tipo de pesca realizada em redes de normalmente 1,5m de altura com boias. As redes de malha 10 ou 11 são usadas para a captura de tainha e outros peixes do mesmo porte e malhas mais finas, como as de 1,2cm a 2,4cm, são usadas para a captura de manjuba. Nesta técnica a rede é esticada e passada nos canais e rios, sem a necessidade de mantê-la estacionada, como na rede de espera.

Arrasto (Lanço)

A rede de arrasto é usada para captura de peixes a partir de grupos de pescadores em terra e na água e é praticada na praia, sendo o trabalho muito bem dividido entre eles. Uma pessoa na praia acompanha a chegada dos cardumes observando alterações na superfície da água. Uma vez identificado, alerta os pescadores na canoa com a rede que imediatamente partem para cercar o cardume.

Sem demora, a praia enche-se de gente - homens, mulheres e crianças - prontos e dispostos a tomar parte na pescaria que beneficiará a todos. Neste momento, o interesse geral concentra-se no lanço que se vai efetuar, deixando-se para depois todas as outras ocupações (Souza, 1945, p. 669).

Após completar o cerco a canoa retorna à praia e a rede é puxada aos poucos, trazendo os peixes capturados para a terra.

As redes nesta técnica normalmente têm de 60 a 70 metros de comprimento, mas podem alcançar até 600 metros, com a altura variável entre o centro e as extremidades, podendo o centro ter o dobro da altura das extremidades. Isso ocorre para que a rede forme uma espécie de saco onde o peixe se acumula no final do processo de arrasto. A parte de cima, ou tralha superior, possui flutuadores responsáveis por manter a rede na vertical e a parte de baixo, ou tralha inferior, possui chumbos para manter a rede em contato com fundo. Nas extremidades utilizam-se pedaços de madeira, chamados calões, que ajudam a afastar a tralha superior da inferior.

Pesca de Arrasto
Figura 6 - Pesca de Arrasto. Fonte: Revista Brasileira de Geografia, 1945

Picaré

O picaré é um tipo de rede de arrasto menor e é usado para captura de peixes na praia por apenas 2 pescadores. Enquanto a rede de arrasto convencional tem no mínimo 60 metros, o picaré tem apenas 20 metros.

“Nas noites escuras, saem os pescadores com o picaré - rede pequena - ao ombro, a fim de pescar os peixes miúdos que se aproximam da arrebentação” (Souza, 1945, p. 669).

Picaré
Figura 7: Picaré. Fonte: CEPSUL/IBAMA (Gamba, Manoel da Rocha. Itajaí-SC, 1994)

Tarrafa

A tarrafa é uma rede circular entre 3 e 4 metros com malhas de acordo com o porte de peixe que se deseja capturar. Nesta modalidade a rede pode ser jogada de dentro da canoa ou a partir da terra por uma pessoa apenas. Na vila é normalmente usada para a pesca do parati, tainha e robalo.

A rede ao ser lançada para o alto à sua frente, imprime-se ao mesmo tempo um impulso de giro calculando a força para que caia totalmente aberta sobre os peixes. Em consequência do giro, as chumbadas fazem com que a rede se abra formando um círculo (CEPSUL/IBAMA).

Tarrafa
Figura 8: Tarrafa. Fonte: Desenho do autor baseado em Gamba, Manoel da Rocha. Itajaí-SC, 1994

Contos, lendas e medos

O medo faz parte da história do homem e sempre foi usado como ferramenta para o proteger durante os vários períodos da humanidade. “o medo é um legado que o ser humano carrega dentro de si e que o protege de sua própria extinção” (Barros Neto apud Neto, 2021).

A vila de Icapara possui algumas lendas ou mitos que trazem à tona esse medo do desconhecido e do sobrenatural.

Mitos são histórias sobre seres sobrenaturais, [...] as lendas, por outro lado, são relatos históricos de eventos [...] da antiguidade e, por isso, possuem base em determinado momento histórico. Porém [...] são distorcidas ou exageradas, recebendo sentido fantástico” (NETO, 2021).

Existem algumas histórias que, como vimos em tópicos anteriores, têm um fundo histórico. Outras são contos sobrenaturais que fazem parte do inconsciente coletivo da vila.

Coletamos algumas dessas histórias, contadas nas rodas de conversa e nos alertas que as crianças recebiam dos mais velhos.

Ditos populares

  • A hora propícia para aparição de assombrações é a hora de sol à pino dos dias muito quentes. Evite se aventurar nas matas nesses dias.
  • Quando “a lua faz cocô” (tipo de fungo) no quintal é o sinal de que alguém da família aparecerá grávida.
  • A espuma amarela das ondas do mar causa verruga se encostar no seu corpo.
  • Dançar após a meia-noite de terça de Carnaval para a Quarta-Feira de Cinzas faz com que a pessoa crie rabo.
  • Apontar o dedo indicador para uma planta irá fazê-la murchar.
Espuma das ondas
Figura 9: Espuma das ondas. Fonte: Desenho do autor

Saci-pererê (ou saci-saperê)

Diz a lenda que o saci-pererê é um ser com aparência infantil, possui apenas uma perna e um gorro vermelho na cabeça, que adora pregar peças nas pessoas, azedando o leite, fazendo tranças na crina dos cavalos, escondendo objetos, entre outras molecagens. Mas na vila, o saci tem uma imagem mais perversa, quase demoníaca, assustando os moradores à noite e maltratando os animais.

Coletada por Pierson & Teixeira (1947) a história da relação do saci com o campo de futebol da vila, onde diziam que o saci vinha à noite jogar futebol no campo, pois segundo eles o saci tinha medo de criança, então não frequentava o campo durante o dia. Diz-se que o saci uma vez quis fazer as crianças brigarem entre si e:

[...] para isso trouxe-lhes um cavalo para passearem, mas esse cavalo tinha o lombo muito curto e não cabiam todos. Assim, eles brigariam para montar no cavalo. Mas sabe o que as crianças fizeram? Enfiaram um pau no cavalo e montaram todas e o saci saiu perdendo. Nunca mais mexeu com criança… (Pierson & Teixeira, 1947, p. 21).

Outra história fala de uma família com seu recém-nascido que numa certa madrugada a mãe precisou levantar-se para aquecer leite para o bebê e ouviu um assobio muito agudo, vindo do quintal. Ao olhar pela fresta da parede não conseguia ver ninguém, apenas uma movimentação em volta da casa. Os cachorros passaram a latir e chorar, como se estivessem apanhando de alguém.

Em outra família, uma criança usava muito o nome do saci ao esbravejar. Ela era a primeira a acordar para preparar o café e certa manhã ao chegar no quintal, viu no bananal, um moleque pequeno e negro, com uma língua vermelha e comprida e olhos acesos como um farol a encarando de forma ameaçadora. Neste momento ela correu gritando e acordando a casa toda. A partir desse dia nunca mais chamou o nome do saci.

Saci-pererê
Figura 10: Saci-pererê. Fonte: Desenho do autor

Tamanduá

Conta-se que na curva do caminho do Pontal existe a assombração de um Tamanduá antropomorfo, que aparece nos dias de sol muito quente, principalmente na hora do almoço para assustar quem se aventura por essas bandas. Apesar da lenda referir-se ao caminho do Pontal, a sua aparição era temida em qualquer lugar de mata na vila.

Tamanduá
Figura 11: Tamanduá. Fonte: Desenho do autor

Assombração do pé de Abricó

O pé de abricó do caminho do Pontal, na área chamada de “Caparinha”, é um outro ponto conhecido de aparição de assombrações, sempre nas horas de sol à pino. Esse pé de abricó fica nas proximidades do morro do Caparinha, morro próximo ao morro do farol. Nas décadas passadas sempre foi uma área a ser evitada quando se estava sozinho. Atualmente a área é mais povoada, mas os moradores continuam relatando essas aparições.

Assombração do Abricó
Figura 12: Assombração do Abricó. Fonte: Desenho do autor

Referências

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YOUNG, Ernesto Guilherme. Esboço Histórico da Fundação da cidade de Iguape. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, v. II, p. 49-151, 1896-1897.

SAMPAIO, Theodoro. Quem era o bacharel degradado em Cananéa? Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, v. VII, p. 280-285, 1902.

YOUNG, Ernesto Guilherme. Subsídios para a história de Iguape: Seus Fundadores. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, v. VII, p. 286-297, 1902.

SOUZA, Elza Coelho de. Pescadores do litoral sul. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, ano VII, n. 4, p. 666-669, 1945.

PIERSON, Donald; TEIXEIRA, Carlos Borges. Survey de Icapara. Fundação Escola de Sociologia e Política, 1947.

LECOCQ-MÜLLER, Nice. Uma vila do litoral paulista - Icapara. Boletim Paulista De Geografia, 1949, n. 1, p. 22-30. Disponível em: <https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/article/view/1420>.

SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, v. XLVIII, p. 81-115, 1951-1953.

MOURÃO, Fernando Augusto Albuquerque. Pescadores do litoral sul do estado de São Paulo: um estudo de sociologia diferencial. 1971. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1971. Acesso em: 21 fev. 2025.

BUENO, Eduardo. Capitães do Brasil: A saga dos primeiros colonizadores. 1ª ed. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2016. 264 p. v. 3. ISBN 978-85-5608-006-6.

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO (SP). Arquivo Público do Estado de São Paulo. Maços de População de Iguape e Xiririca. Iguape, 1765-1846. Rolos: 70 a 75.

CEPSUL/IBAMA (Brasil). ARTES DE PESCA: Artesanal. São Paulo, [sd]. Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/cepsul/artes-de-pesca.html. Acesso em: 21 fev. 2025.

NETO, João. Medos, lendas e outras histórias da velha Santana do Ipanema. Arapiraca, Alagoas, Brasil, agosto 2021. Disponível em: https://www.apensocomgrifo.com/2021/08/medos-lendas-e-outras-historias-da.html. Acesso em: 22 fev. 2025.

Figuras

Capa: OLIVEIRA, Anselmo Alves de. Procissão de Nossa Senhora da Conceição (Foto editada digitalmente pelo autor). Iguape, SP. 08/12/1985.


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Referência Bibliográfica

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Figuras

Capa: OLIVEIRA, Anselmo Alves de. Procissão de Nossa Senhora da Conceição (Foto editada digitalmente pelo autor). Iguape, SP. 08/12/1985.