Revista Icapara - Número 4

Por Ronaldo Pereira Trudes Paolillo | Publicado em 01 de novembro de 2025 | 43 visualizações

Revista Icapara - Número 4

Revista Icapara - Número 4

REVISTA ICAPARA

número 4

História, costumes, rituais e outros aspectos culturais da vila de Icapara

Ronaldo Pereira Trudes Paolillo
2025


Imagem da Capa - Revista 4

Índice

  • Hábitos Alimentares e Culinária
  • Receitas
    • Bolo de Roda
    • Cuscuz de Mandipuva
    • Coruja
    • Biju
    • Moqueca de Ova
  • Aspectos Religiosos da Igreja Católica
    • Bandeira do Espírito Santo
    • Festa da Tainha
    • Festa de Nossa Senhora da Conceição
  • Entrevista

Hábitos Alimentares e Culinária

A base da alimentação do Icaparano, assim como o principal cultivo praticado na vila, é a mandioca, utilizada principalmente na forma de farinha, mas também nos derivados como biju, coruja, cuscuz etc. “[...] o alimento básico da população é o peixe e a farinha de mandioca [...]” (Pierson & Teixeira, 1947, p. 16).

Por ter sido, até meados do século XX, um produtor relevante de arroz na região, este também foi um alimento bastante consumido na vila, além, é claro, do peixe. Com o peixe costumam, até os dias de hoje, fazer um ensopado, temperado com sal e alfavaca, que é comido misturado à farinha de mandioca. “Alguns misturam a farinha no prato e fazem com o caldo uma espécie de "pirão"; outros jogam-no na boca e uma colherada de caldo por cima para ‘rodar a farinha’” (Pierson & Teixeira, 1947, p. 16).

A carne vermelha era muito rara e vinha exclusivamente da caça de animais selvagens como a paca, o bugio, o lagarto e a raposa, ou, na época do Carnaval, do boi que era comprado e dividido entre os moradores. “A caça esporádica de uma capivara ou porco do mato, existe como suplemento da alimentação” (Pierson & Teixeira, 1947, p. 10). Dos animais selvagens, a raposa (gambá) era um dos preferidos da vila. “[...] sempre que é caçado, comem-no com manifestações de especial prazer gastronômico [...]” (Pierson & Teixeira, 1947, p. 16). A raposa era feita temperada com sal e pimenta, frita e depois misturada à farinha de mandioca, formando uma farofa. A sua versão defumada era usada para cozinhar junto ao feijão.

Curiosamente, conforme relatado por Mazzilli (1975), a população de Icapara na década de 1970 consumia muito pouco hortaliças e frutas, pois não tinham o hábito de cultivar hortas ou plantar árvores frutíferas.

Das hortaliças consumidas, podemos citar: tomate, chuchu, abóbora, pepino, palmito, couve-flor, repolho, espinafre e alface, sempre em quantidades inexpressivas. Entre as frutas, o consumo restringiu-se à banana, fruta do conde, mamão e laranja, também em quantidades pequenas[...] (Mazzilli, 1975, p. 53).

Ainda de acordo com Mazzilli (1975), que examinou todas as famílias do bairro nos anos 1970, o baixo consumo destes alimentos, o fato de não consumirem leite e ovos e do saneamento básico inexistente relatado por Szarfarc (1970) em sua pesquisa, explique a alta incidência de anemia identificada nas crianças do bairro nessa época.

Independentemente das dificuldades, o Icaparano soube utilizar os poucos produtos disponíveis e criar algumas receitas utilizadas ainda hoje na vila.

Raposa (gambá)

Receitas

Bolo de Roda

De todas as receitas talvez o bolo de roda seja a mais popular e possui versões diferentes para cada bairro da zona rural. A versão Icaparana, considerando os recursos existentes no passado, é uma das mais simples, já que não utiliza leite e menos ovos que as outras versões.

Ingredientes:

  • 2 copos de água
  • 1 colher de sopa de sal
  • 3 copos de farinha de milho em flocos
  • 3 ovos
  • ½ kg polvilho doce
  • Cravo da Índia e erva-doce a gosto (moídos)
  • 1 xícara de óleo

Preparo:

  1. Em um recipiente adicionar a farinha de milho e reservar;
  2. Levar a água com o sal ao fogo. Após aquecer, misturar com a farinha de milho até virar uma pasta e esperar esfriar;
  3. Bater a clara até espumar. Juntar a gema e bater mais um pouco;
  4. Pré-aquecer o forno em fogo médio;
  5. Adicionar à farinha de milho os ovos, o óleo, o cravo e erva-doce moídos e, aos poucos, o polvilho. Amassar até desprender das mãos;
  6. Pegar um punhado de massa, fazer rolos com as mãos e unir as extremidades, no formato de uma roda;
  7. Assar por 45 a 50 minutos em fogo médio.
Bolo de Roda e café

Cuscuz de Mandipuva

A mandipuva, massa feita a partir da mandioca curtida, é um ingrediente versátil na culinária caiçara. Por exemplo, se misturada à mandioca ralada produz a farinha d’água. Pode também ser usada para fazer tanto o cuscuz quanto a coruja.

A produção da mandipuva é um processo longo e consiste em curtir a mandioca em uma tina, barril ou balde por 2 semanas ou até amolecer (no passado esta etapa era feita mergulhando um saco com as mandiocas no rio). Depois de mole, retira-se a casca e desmancha a mandioca na mão, debaixo de água corrente, removendo os fiapos. Coloca-se em um saco de algodão e lava até sair o azedume da massa. Em seguida, deve-se prensar a massa, com a ajuda de prensa e tipiti ou outro método, até remover os sucos. No dia seguinte, desmanchá-la com as mãos e peneirar para remover fiapos. Após estas etapas a massa estará pronta para uso.

Ingredientes:

  • 1kg de massa de mandipuva
  • ½ pacote de Amendoim
  • Sal a gosto
Cuscuz de Mandipuva

Preparo:

  1. Torrar o amendoim em uma panela, moer no liquidificador e misturar à massa de mandipuva.
  2. Acrescentar o sal (uma pitada para uma cuscuzeira média)
  3. Forrar a cuscuzeira com um pano e colocar a massa, pressionando para deixá-la bem compacta.
  4. Levar a cuscuzeira ao fogo até a massa ficar firme.

Coruja

A coruja é também uma receita feita a partir da mandipuva, mas, diferente do cuscuz, é feita no forno. Os ingredientes e modo de preparo são praticamente os mesmos nas duas receitas.

Ingredientes:

  • 1kg de massa de mandipuva
  • ½ pacote de Amendoim
  • Sal a gosto
  • Folhas de bananeira sapecadas no fogo para embrulhar

Preparo:

  1. Torrar o amendoim em uma panela, moer no liquidificador e misturar à massa de mandipuva.
  2. Acrescentar o sal (uma pitada ou mais, se necessário)
  3. Fazer um cartucho reforçado com a folha de bananeira, amarrando a parte inferior.
  4. Preencher com a mistura;
  5. Amarrar a outra extremidade e assar por uma hora aproximadamente em temperatura média.
Coruja na folha de bananeira

Biju

Dois tipos de biju eram bastante consumidos na vila. O biju de goma e o biju de massa, ou tapacu. O biju de goma é o que atualmente é conhecido por tapioca. Ambos eram preparados durante o fabrico da farinha na casa de tráfico e são ótimos acompanhamentos para o café.

Biju de Goma - Ingredientes:

  • Polvilho (resíduo decantado resultante da prensa da mandioca)
  • Sal a gosto

Tapacu - Ingredientes:

  • Massa peneirada da mandioca já ralada (antes de levar para a torra)
  • Sal a gosto

Preparo:

  1. Misturar a massa da mandioca ou o polvilho com uma pitada de sal.
  2. Levar ao tacho ou frigideira pressionando para ficar em formato circular e levemente tostada;
  3. Virar e aquecer do outro lado.
Preparo de Biju

Moqueca de Ova

A moqueca é uma receita que utiliza a farinha de mandioca, ovas de peixe e condimentos. Uma outra versão da moqueca é feita com manjuba picada, mais fácil de se encontrar.

Ovas de peixe

Ingredientes:

  • Ova de 3 robalos, bagres ou 250g de manjuba picada
  • ½ cebola picada
  • Cheiro verde
  • Alfavaca
  • Sal a gosto
  • Óleo para refogar
  • Quanto baste de farinha de mandioca
  • Folha de bananeira sapecada

Preparo:

  1. Em uma panela, refogue no óleo a cebola;
  2. Misture as ovas amassadas, a salsa, cebolinha e alfavaca;
  3. Tempere com sal e adicione a farinha de mandioca até ficar com consistência de um pirão;
  4. Transfira para a folha de bananeira, fazendo um embrulho ou para uma assadeira pequena e leve ao forno por 40 minutos.
Manjuba
Moqueca de Ova pronta

Aspectos Religiosos da Igreja Católica

A igreja católica de Icapara é responsável por alguns eventos importantes durante o ano, como a festa da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, e bandeira do Espírito Santo. Alguns destes ocorrem à mais de um século, outros foram sendo adaptados ou introduzidos nas últimas décadas.

Como observado por Burke (2018), uma cultura, passada de uma geração a outra, é sempre um processo de reconstrução, ou seja, uma tradição sofre mudanças naturais com o passar do tempo. “Nas sociedades baseadas na tradição oral, a memória da comunidade tende involuntariamente a mascarar e reabsorver as mudanças.” Ginzburg (2006, p.128). Portanto, é curioso notar que os eventos religiosos praticados pela comunidade católica foram sofrendo modificações sutis ao longo do tempo até assumirem o formato praticado atualmente.

De acordo com o conceito levantado por Hobsbawn (apud Burke, 2018), muitas das tradições ditas como antigas são mais recentes do que pensamos. Elas são introduzidas na comunidade e passam a fazer parte da cultura local. Estas mudanças, reconstruções e novas tradições são claramente observadas nesses eventos da Igreja católica.

Bandeira do Espírito Santo

Inspirada na folia da Bandeira, evento que era realizado na região durante grande parte do século XX, no qual a bandeira do Espírito Santo, acompanhada de cantoria de folia, percorria diversos bairros do município e era levada de casa em casa.

Nos anos 1980, um grupo de homens que ainda utilizava a bandeira para arrecadar esmolas para as comunidades, trouxe uma arrecadação e a ofereceu para o então dirigente da comunidade católica, Totó Barbosa. A bandeira foi recebida como presente e passou a ser usada pela comunidade, inicialmente para a celebração no dia de Pentecostes, e posteriormente, possivelmente a partir de 2006 ou 2007, em visitas às casas dos bairros de Icapara e Pontal.

Bandeira do Espírito Santo

Neste evento, no período entre a Páscoa e o dia de Pentecostes, a partir das 18h, são visitadas por volta de 5 a 6 casas para a realização de devoção com orações e cantoria. No final de cada noite a bandeira pousa na última casa visitada e é realizada a cerimônia de encerramento. No encerramento, com as luzes apagadas, são acesas velas e as fitas da bandeira são seguradas pelos presentes, ao som do cântico “Luz do Senhor”. Por fim as velas são apagadas e a bandeira é guardada pelo morador. Na noite seguinte a bandeira sai da última casa visitada e percorre novas casas até a finalização da festividade no dia de Pentecostes.

Festa da Tainha

A Festa da Tainha foi criada no ano de 1994 a partir da ideia de Gerson Fontes e Antonio Fernandes, então moradores e comerciantes na vila, com a ajuda da comunidade católica e com o intuito de movimentar a economia do lugar. A festa aconteceria em um final de semana do mês de julho, mês de abundância da tainha.

No primeiro ano, o evento contava apenas com o restaurante de Gerson e Antonio, que ofereciam a tainha assada, e mais 5 barracas de comidas típicas, incluindo a barraca da Pastoral da Saúde representando a Igreja Católica. As barracas foram montadas no entorno da praça Nossa Senhora da Conceição, na rua Júlio João de Carvalho. No segundo ano, a festa já contava com 12 barracas, que iam da praça Nossa Senhora da Conceição até a praça dos Cachorros. A partir de 1998 moveu-se para a praça dos Cachorros e por volta de 2004 passou a ser realizada no Centro de Eventos Sezinando Trudes. Apesar de ter retornado em 2013 à praça dos Cachorros, manteve-se nos demais anos no Centro de Eventos.

[Inserir Imagem: Festa da Tainha - Barraca]

Durante quase toda a sua história os próprios moradores se responsabilizaram pela divulgação e realização do evento. Só mais recentemente, a partir de 2017, na gestão do prefeito Wilson Almeida Lima, passou a ser organizada pela Prefeitura de Iguape e contou com uma infraestrutura mais robusta, com apresentações de dança, shows musicais, artesanato, oficinas e barracas com comidas da região.

Apesar de inconsistências em relação a sua cronologia e após uma lacuna de 2 anos (2020 e 2021, devido à pandemia), teve no ano de 2025, já na administração do prefeito Salvador José Barbosa Jr, a 31ª edição, no período de 4 a 6 de julho.

Festa de Nossa Senhora da Conceição

A festa em louvor à Nossa Senhora da Conceição acontece desde a primeira metade do século XX. De acordo com relato de Antônio João de Carvalho Filho (Totó Barbosa), em 1923 a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi trazida pelo Capitão Mateus, português que teria vindo ao Brasil durante a Guerra do Paraguai, e chegou à Icapara no início do século XX. Todas as festas religiosas que aconteciam na época eram patrocinadas por ele.

Em 8 de dezembro de 1943, foi fundado um conselho para a construção do edifício da Igreja, mas não se sabe se nesta época já era realizada a festa em louvor à padroeira. Como não existem documentos que comprovem o início das festividades, podemos apenas garantir, devido a registros fotográficos, que em 1951 a festividade já acontecia.

A novena de Nossa Senhora inicia-se no dia 29 de novembro e termina em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição.

Uma tradição relativamente recente é a que se realiza no dia 29 de novembro, antes da celebração da primeira novena. Esta tradição, criada por Sezinando Trudes provavelmente para a festa de 1988, passou a chamar-se Alvorada. A Alvorada se inicia às 5h da manhã com celebração na Igreja, seguida por procissão à luz de velas pelas ruas da vila, seguindo o trajeto que inicia na Igreja, percorre algumas ruas da vila e retorna à Igreja, onde acontece o encerramento da Alvorada. Após o evento, um café da manhã com comidas típicas, como bolo de roda, bolos diversos e a paçoca de carne seca, é servido no salão da Igreja. Apesar de ter recebido críticas por parte do conselho da Igreja na época da sua introdução por acontecer de madrugada, acabou sendo absorvida e hoje em dia está completamente consolidada no calendário da comunidade.

Procissão do dia 8 de dezembro de 1951
Figura - Procissão do dia 8 de dezembro de 1951. Fonte: Arquivo do autor

Sobre a paçoca de carne seca, o seu preparo também faz parte dos eventos para a realização da Alvorada e começa no dia anterior, 28 de novembro. Voluntários preparam a paçoca fritando a carne seca com alho, que depois são colocados no pilão com farinha de mandioca e socados. A paçoca é uma das iguarias mais esperadas no café da manhã do dia seguinte.

Nos primeiros anos o café da manhã contava apenas com o cuscuz de arroz e alguns poucos acompanhamentos, mas atualmente a paçoca é a mistura mais aguardada.

A celebração da novena é realizada às 19h a partir do dia 29 de novembro e no dia 8 de dezembro a festividade começa às 16h com procissão levando a imagem de Nossa Senhora da Conceição e às 17h a celebração da novena. Após a última novena acontece o encerramento das festividades com fogos de artifício. Além disso, durante todos os dias da festa é realizado um bingo no salão da Igreja.

Procissão com andor

Entrevista

Benedito Roberto Ribeiro, também conhecido como Dito Saruva, vem de uma família musical. Exímio tocador de viola, instrumento que aprendeu com seu pai Salvador, tocador de viola e rabeca. Junto ao pai e aos irmãos João Saruva no cavaquinho, Roberto no tamborim e Elói na rabeca, participava de praticamente todos os bailes da vila, da folia da bandeira e das festas juninas. Eram também os “cantadores” nesses eventos, sendo Salvador e Dito a primeira ou segunda voz, Elói a segunda voz e João a terceira voz.

Nascido em 30 de novembro de 1939, casado com dona Dirce e pai de uma filha, deu esta entrevista no ano de 2015, época da coleta de material para a produção do documentário “Os herdeiros do bacharel (2016)”. Abaixo está um trecho da entrevista.

Benedito Roberto Ribeiro

Entrevista realizada em 11 de setembro de 2015

Benedito Roberto Ribeiro, é... 75 anos. Já vou fazer em novembro 76. Quando era aquele tempo, nossa idade, enquanto nós era novo, aquilo era difícil para nós. Foi uma vida muito difícil. A nossa idade, a minha idade, a idade dos outros e dos que já se foram. Que nós não tinha estrada, nós não tinha o trânsito de motor, porque ninguém possuía motor. Ou era canoa a remo ou a pé pela estrada... estrada do telégrafo.

Aí depois, quando começou a melhorar.... nós não tinha luz elétrica, nós não tinha água encanada, nós não tinha o gás. As mulheres se serviam lavar roupa, tirar água do rio. A vida ali, nossa, era duas vidas aqui sofridas. Uma era a pescaria e outro era a roça. E as mulheres era o serviço mais de roça. Tudo tinha com fartura... pegava o peixe... a fartura nós tinha aqui. Só que o dinheiro não sei por que que era escasso. O dinheiro escasso. Você não conseguia... se você precisava de comprar um sapato, estudar na escola, como nós estudamos até a terceira série. Mas muitos não fez a terceira série porque nós não tinha escola. Icapara não tinha escola. Icapara era uma cid... um lugar isolado. Até muita gente falava, as professoras que vinham do interior de São Paulo, daí ... diziam que isso era uma aldeia. E era mesmo, porque dificultava ela né. Não tinha casa de escola. A primeira casa de escola é aquela que está ali ainda uma metade que foi feito pela colônia de pesca e depois não terminou. Foi terminado depois que veio o prefeito Pedro Coutinho e o filho dele, Marcondes, que veio pra cá de professor que meteu a mão por conta dele, que ele podia mexer né, aí ele conseguiu falar...: “Não, eu vou fazer, se foi feito pela colônia então é do povo. Eu vou dar uma arrumada”.

Mas nós estudamos em casa particular, em casa de Gonzaga, aqui em casa de seu Vitoca, em casa de seu Claudino. A escola era dividida pra lá. Até que depois de ... dali de uns anos de... de [19]46 para [19]50 aí veio a primeira escolinha ali onde está aquela mesma. Então ali já foi melhorando. Foi melhorando pra criançada. A criançada já foi estudando. Só que era um estudo que a quarta série demorou pra chegar no Icapara. Então ali era tudo difícil pra nós. Era difícil. Muito trabalho e pouca coisa. Ali você tinha dificuldade até pra comprar uniforme para ir para a escola. Nem tudo tinha, que era calça curta e camisa branca de, de..., de algodãozinho. Então, mas nem tudo tinha. Esse sapato pra nós não era... não existia. A vida era difícil mesmo.

Eu acho que hoje melhorou muito. Melhorou. Que hoje nós temos a estrada, tem a... o mercado hoje no Icapara, já tem os comércios melhores no Icapara, que naquele tempo não tinha né. Aí tem a água encanada. Já não precisa ir pro rio buscar água né, lavar roupa né? Já temos o gás que hoje já todo mundo já tem o seu fogão a gás em casa que nós... já parou de... de ir pra lenhar, né, catar lenha no mato. Mas hoje a vida já está mais fácil. Está mais fácil num sentido. Mas no outro sentido... Acho que na convivência que nós tivemos e na convivência de hoje a vida é mais difícil. Porque antes tempo tudo era bom, tudo era respeitado. Por exemplo quando você “aprontava-se” numa época de carnaval. Aqueles dias parava pra brincar o Carnaval, parava com pescaria, para com o serviço. E tudo dava certo. Tudo trabalhava na base da união. Tudo no amor um no outro, um ajudava o outro. Como a gente ajudava os outros os outros nos ajudavam né? E assim era o Icapara inteiro. Você tinha por exemplo naquela época uma roça. Aí juntava-se 10, 12 pessoas. Mesmo sem você saber, quando você estava na roça o povo estava chegando. Poxa vida, pois eu não convidei. Mas estava chegando pra ajudar você. Ah, mas eu não convidei os senhores pra trabalhar. Não, mas nós viemos ajudar você. E quando você...o outro tinha você também já ia ajudar ele. Que hoje a classe de Icapara e dos outros municípios como até a cidade é cada um por si e Deus por todos.

Entre as famílias que eram pessoas de respeito, pessoas de amor e mandavam na vizinhança e tinha aquele controle. E dizer que aquilo, pra hoje a gente estranha... que hoje você não pode chegar pra um moleque que está bagunçando ou está até desacatando um mais velho onde estiver, você não pode nem falar. É melhor você sair, levantar e não discutir com eles.

Os mais velhos, coitados. Eles trabalharam a vida inteira no serviço e não tiveram condições de ter nada. Não tinha nada. É o que a gente está se referindo aqueles tempos que passou.

Bailes

Aqui no Icapara sempre foi dois lados de baile, que a gente que... na época mesmo chamava de fandango, né? A gente Chamava o fandango. Era ou na casa de seu Claudino, ou falecido Amaro Trudes, aqui na casa de finado Júlio Barbosa, onde está a pracinha, ou aqui em casa de seu Vitoca, em casa de seu Dionísio. O baile né?

Ali era o seguinte, se fosse o carnaval, na época de carnaval você deixava tudo, todo mundo deixava, ia brincar o carnaval. Brincava o carnaval de Sábado, de sábado de carnaval, de sábado gordo que a gente falava até de noite, a meia-noite ou mais de quarta-feira, de terça pra quarta-feira. Aí você tinha aquilo como uma tradição pra todos os tempos quando chegava você ia brincar, você brincava com harmonia com o povo.

O povo tinha aquela educação, o povo gostava daquilo e tudo dava certo. Os novos não podiam quase se aproximar de uma sala de baile porque nós mesmos, eu mesmo, antes de começar a tocar em fandango com os meus pais, meus irmãos, a vida da gente era ficar na rua. Não podia permanecer, a não ser que estivesse chovendo, queria entrar no baile. Então depois que a gente já começou a tocar viola, cantar no baile, então a gente já tinha o direito de entrar no baile né? E... quando eu... quando Floramante era vivo..., Floramante era uma pessoa, que eu gostava muito de Floramante. Floramante para mim era igual um irmão. Então ele era a única pessoa que quando nós estava em casa, muitas vezes ele, sábado assim, inventava um baile, ia ele, falecido Pido Pava, Olivio né, que já todos eles já foram né, já faleceram, eles iam lá convidar para o baile. Não, vamos fazer... É mais nós queremos fazer... falar com papai, com Elói né? Vamos fazer o baile? Vamos.

Nós tinha a casa de Gonzaga, ou finado Joaquim Trudinha, nós ia lá fazer o baile. Aquilo ali dançava até de manhã. E o baile que... aí convidava a moçada, eles mais convidavam a moçada... as moças, por exemplo, os pais das meninas né, os pais da moça. Convidavam para eles irem ao baile pra levar as moças né? E a gente ia. Aquilo era diversão a noite inteira. Aí você dançava a moda que dançava, você tocava a moda que eles pediam, você fazia tudo... Aquilo era uma alegria para o povo.

Folia da Bandeira

Então, depois vinha também uma coisa que foi tradição pra nós foi a folia de bandeira, a bandeira do Espírito Santo ou de São Benedito ou de Nossa Senhora da Conceição.

Quando começava, entrava no Icapara, e a bandeira do Espírito Santo cada um fazia seu trecho, um ia pro Ribeira acima, o rio Ribeira que começava de Iguape pra cá, outro ia aqui beira-mar, que começava do Prelado pra cá, outro ia pro lado de Peroupava, rio de Una, rio das Pedras. Então, aquilo, quando chegava aqui a bandeira, todo mundo deixava seu serviço.

Eu lembro que finado seu Claudino, finado Joaquim Trudinha, falecido Dorandino, tudo deixavam lá e vinham pra cá acompanhar a bandeira, que era uma festa. Onde pousava, chegava aqui e dizia: Hoje nós vamos pousar na sua casa? Você dizia: Não, pode pousar. A bandeira vai dormir hoje aqui, vai pousar aqui. Se tivesse condição, à noite era o baile.

Pousava, tinha aquele jantar para todo mundo e a noite o baile. Pelas 4 horas e meia, 5 horas da manhã aí parava o baile e ia cantar a alvorada. Aí os foliões pegavam os instrumentos e iam cantar desencerrar a bandeira. Quando era no encerro da bandeira de noite, cantava, pedia pouso com a chegada, pedia pouso depois ia para o encerro. Era embolada a bandeira, guardada num fardo e madrugada ao clarear do dia ia ter a cantoria para desencerrar a bandeira. Só ia deixar de acompanhar a bandeira quando se jogava lá para a casa do falecido João Gomes, que terminava aqui. Ia pra lá porque ia seguir pra enseada, lá pra toca do Bugio. E muitos ainda iam acompanhando.

Aquilo o povo ficava até com saudades, porque aquilo é uma tradição que nunca mais a gente viu. Não tem mais ninguém pra aquilo e nunca mais a gente vai ter. Aquilo era uma festa para o povo, era uma festa para o povo.

Mesmo a gente, nós em casa fomos 4 filhos. Começou de Elói, depois veio João, depois veio eu e depois foi Roberto... e papai. Papai era folião, papai cantava folia. Elói, de cantador passou a ser rabequista, aprendeu a tocar a rabeca, já saia como rabequista. Agora, nós fomos “cantador”, eu, João, Roberto, já fomos “cantador”. Compadre Totó, “Totó Baixinho” cantou folia muito, né, cantou muita folia.
[...]

Estrada

A primeira... essa estrada aqui pelo morro ela foi aberta em... foi começado a passar máquina foi de [19]64 pra [19]65. Mas veio ser aperfeiçoado mesmo..., mas sem asfalto, com dificuldade, mas sem asfalto, foi pedregulhado tal... foi de [19]69 pra [19]71. Aí já começou... aí veio a companhia da Sudelpa, que os prefeitos requisitaram pelo Estado né, pelo governo. Naquela época foi Paulo Izidio Martins, antes foi... Paulo Izidio Martins eu lembro muito bem. Que tinha a equipe da Sudelpa, que aquilo era pra ajudar todos os municípios né, todos os municípios. Então eles trabalhavam de que jeito? Eles trabalhavam com uma frota de caminhão, máquina, e todos os funcionários pra ajudar. Então eles pegavam ... por exemplo, nós trabalhamos aqui com eles. Foi em [19]72 que nós trabalhamos com eles pra fazer o aterro da estrada de lá, que o prefeito na época foi Jofre Manoel. Aí ele “contratou eles”, eles vieram se instalaram em Iguape. E de Iguape eles vinham trabalhar e a gente trabalhava com eles. E eles... a sede deles era em Pariquera-açu. Fez muita falta o governo desativar a companhia da Sudelpa, porque a Sudelpa ajudou muito. Fazia ponte.

Onde precisava fazia... construía ponte e trabalhava nas estradas. Então daí em diante, desta data em diante, a estrada foi se aperfeiçoando, agora está asfaltada. Então virou uma beleza né? Tem 2 morros, mas o morro sobe com facilidade. Não puderam rebaixar aquela... onde está a caixa d’água ali do morro do Pinheiro porque tem um lajedo de pedra muito grande no meio ali.
[...]

Escola

O respeito na escola. Apanhava na escola e era mandado. Se ele apanhava na escola ele tinha que apanhar e ficar quieto. Que ele ia chegar em casa e apanhar outra vez. Isso era uma educação que hoje não pode fazer né. Eles dizem que não pode fazer isso na escola, mas na minha época faziam. Só eu não alcancei, que isso já foi dos meus tempos mais velhos, foi a palmatoria que era batido pra quem fazia a ... a rebeldia na escola. Aí a professora pegava, ou diretor, e punha a mão da gente, era um pedaço de pau e dava uma prancheada na mão. Aquilo inchava. A palma da mão inchava. Então era a palmatoria. E existe até hoje o nome. E muita gente tem guardado. Palmatória. Por exemplo professores, que passou por aqui ou por outros lugares tem a palmatória.

Então, a escola, o tempo de... o tempo de ... o tempo de um exame na escola pra você ser promovido, por exemplo, do segundo pro terceiro ano, que aqui quarta serie não tinha, tinha que fazer em Iguape ou pra São Vicente. Então era o seguinte, a professora... essa matéria nossa, por exemplo, História, Geografia, Português, Matemática, você tinha que... os cadernos chamavam-se Caderno de Ponto. Caderno de Ponto tava tudo as matérias. Aí você tinha que estudar tudo as matérias, porque quem vinha fazer a... vinha fazer o exame era um professor... um diretor, seja de São Paulo ou fosse de Iguape. O falecido Bento Rocha que era muito bravo, ele vinha fazer. Só que quando ele chegava na sala, A sala de aula, ele chegava no barquinho, no motor, chegava no porto. A professora falava assim:

“- Olha, o professor Bento Rocha chegou.”
“- Ai meu Deus.”

Bento Rocha era uma fera. Chegava na escola nós tudo levantada, fechava a carteira. Ficava tudo de pé. Aquilo era um silêncio. Era um silêncio só. Quando ele entrava, que batia o sapato na entrada, a professora mandava tudo ficar quieto, nós ficava. Ele chegava, pedia bom dia, sempre ele chegava às 8 horas... pedia bom dia, aí ele ia lá pra frente, onde estava a mesa dele né. Aí ele falava assim:

“- Agora vamos cantar o hino nacional, ou o hino da bandeira, ou o hino da independência.”

A molecada tinha uma voz ativa de cantar, que vou te contar. Aí depois ele falava:

“- Bom professora, agora a senhora deixa comigo e pode se retirar que a molecada agora é comigo.”

Aí conforme você... ele passava na pedra, lá na lousa as matérias, e passava tudo.

“- Pode trabalhar.”

Todo mundo ia trabalhar no silêncio. Quando entregava... quando estava pronto... traz o caderno pra mim. Quando você terminava aquelas questões que estavam na lousa né, aí você terminava e levava lá pra ele. E ele já ia corrigir. Já Ia corrigir pra dar nota. Se ele te chamava:

“- Vem na frente, você pode ir embora, você está...”

Você já estava reprovado. Ele não falava que tinha reprovado, mas a gente já sabia que tinha reprovado. E aqueles que ficavam, aí depois que ele corrigia todos os cadernos aí tinha que cantar novamente, despedir dele e levar ele até o porto. E não tinha perdão. Que a gente andava com o caderno, a gente andava pelo caminho estudando, você tinha que decorar, porque senão lá você não sabia. Então a gente andava estudando pelo caminho, lendo, pra decorar, igual um bobo... parece uma pessoa bobo... falando sozinho... pra decorar.

Fandango

Esse é Sirindi. Sirindi é gostoso de dançar ele.

Você sabe uma ocasião, já faz muito tempo. Eu estava lá em Iguape com meu primo, com o falecido Natalino. Aí eu dormi lá, Dirce ficou em casa da irmã e eu fui lá, que nós vinha pra cá pra trabalhar. Aí ele falou:

“- Parente Dito vamos ali comprar um pão?”

Aí fomos comprar um pão. Na descida do Inaguisawa, ali estava um carro. Rapaz, estava tocando um fandango... Puta merda..., mas quando... pela cantoria que eu estava escutando, Natalino... finado Natalino falou:

“- Olhe parente Dito. Fandango aí ó, vamos lá escutar.”

Cheguei lá eram 2 caras. Aí olhei na chapa do carro, chapa do Paraná. Aí ele... ele... você... um rapaz novo assim, na sua altura assim. Eu falei:

“- Rapaz, é o fandango...”

Ele quando me viu assim ficou meio parado assim, encostado, olhando pra mim. Aí finado Natalino falou assim pra ele assim:

“- Fandango! De onde você traz ele?”

Ele falou:

“- Ói quem está cantando.”

Aí que eu:

“- Eu que tô cantando?”
“- É você, é você que está cantando com seus pais, seus irmãos e seus companheiros lá em Icapara na casa do falecido Júlio Barbosa. Numa noite que eu passei lá era sábado e vocês estavam fazendo um baile lá, eu gravei esse no meu gravadorzinho. Eu gravei o fandango, uma moda de fandango que você estava cantando. Quem tá cantando aqui é você. É você com seu pai.”

De fato, era mesmo.

Benedito Roberto Ribeiro (Dito Saruva)

Referências

PIERSON, Donald; TEIXEIRA, Carlos Borges. Survey de Icapara. Fundação Escola de Sociologia e Política, 1947.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? 3ª ed. São Paulo: Zahar, 2021.

LECOCQ-MÜLLER, Nice. Uma vila do litoral paulista - Icapara. Boletim Paulista De Geografia, 1949, n. 1, p. 22-30. Disponível em: <https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/article/view/1420>.

SZARFARC, Sophia Cornblüth. Anemia ferropriva em populações da região sul do estado de São Paulo. Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 6, p. 125-133, 1972.

MAZZILLI, Rosa Nilda. Algumas considerações sobre o consumo de alimentos em Icapara e Pontal de Ribeira, São Paulo, Brasil. Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 9, p. 49-55, 1975.

CARVALHO FILHO, Antonio João de. Entrevista concedida a Ronaldo Pereira Trudes Paolillo, Iguape, SP, 10 maio 1992.

RIBEIRO, Benedito Roberto. Entrevista concedida a Ronaldo Pereira Trudes Paolillo. Iguape, SP, 11 setembro 2015.

Figuras

Capa: Foto tratada digitalmente da Pedreira em meados dos anos 1990. Arquivo pessoal. São Paulo, SP, ago. 2025

Ilustrações geradas por IA a partir de prompt do autor em ago. 2025


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Tags: Icapara Revista
Referência Bibliográfica

PIERSON, Donald; TEIXEIRA, Carlos Borges. Survey de Icapara. Fundação Escola de Sociologia e Política, 1947.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? 3ª ed. São Paulo: Zahar, 2021.

LECOCQ-MÜLLER, Nice. Uma vila do litoral paulista - Icapara. Boletim Paulista De Geografia, 1949, n. 1, p. 22-30.

SZARFARC, Sophia Cornblüth. Anemia ferropriva em populações da região sul do estado de São Paulo. Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 6, p. 125-133, 1972.

MAZZILLI, Rosa Nilda. Algumas considerações sobre o consumo de alimentos em Icapara e Pontal de Ribeira, São Paulo, Brasil. Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 9, p. 49-55, 1975.

CARVALHO FILHO, Antonio João de. Entrevista concedida a Ronaldo Pereira Trudes Paolillo, Iguape, SP, 10 maio 1992.

RIBEIRO, Benedito Roberto. Entrevista concedida a Ronaldo Pereira Trudes Paolillo. Iguape, SP, 11 setembro 2015.

Figuras

Capa: Foto tratada digitalmente da Pedreira em meados dos anos 1990. Arquivo pessoal. São Paulo, SP, ago. 2025

Ilustrações geradas por IA a partir de prompt do autor em ago. 2025