Adilson Pereira

Memórias, lendas e Carnaval | Data da entrevista: 18 de maio de 2015 | 63 visualizações

Transcrição da Entrevista


Memórias de Infância e Histórias de Icapara


Rapaz, a melhor infância que a gente pôde viver. Porque desde de manhã, quando eu acordava, que eu saía pra rua, só voltava meio-dia. Comia e ia buscar a rua. Eu falo por mim e falo pelos meus colegas todos, aqui era a mesma coisa. Nós tínhamos tanta coisa pra fazer durante o dia que o dia era pouco pra nós. Era de uma coisa pulava pra outra: de jogar bola, correr de barquinha que a gente fala, pegar a canoa e ir rio acima e ir correr mar na coroa. A coroa, o que que é? Onde hoje em dia não existe mais a coroa, mas a coroa, no meu tempo de criança, tinha ondas enormes, que dava pra surfar com ela. A gente pegava a canoa, a mais pequena que estava, ia lá, pegava a maior onda e vinha surfando até a beira. Eu e os meus colegas. Então olha o divertimento que nós tinha. Pegar mar da "Princesa", da lancha da Sorocabana, por exemplo. Nós corria, nós estava brincando, ouvia o barulho da lancha vindo, 4 horas da tarde — como se fosse o ônibus hoje em dia. Naquele tempo era a lancha, né? Você não sei se chegou a pegar a lancha da Sorocabana. Ela fazia a linha Iguape - Icapara. Então o que nós fazia? Estava brincando, daqui a pouco ouvia o barulho da lancha:
"- Vamos pegar o mar da Princesa, da lancha!".
Aí a gente tirava a roupa só pra o barco passar e vir aquelas ondas pra nós ficar nadando em cima delas, né? Tudo era divertimento para nós. O dia inteiro! Nossa infância era o dia inteiro corrido.
Carnaval, por exemplo... um mês antes já começava o carnaval para nós aqui. O que que eles faziam? O pessoal ia pegar boi na ilha (tinha uns bois, uma boiada tudo na ilha aqui), então os caras compravam os bois pra matar durante o carnaval. Só que, antes disso, tinha uma — como se fosse uma farra do boi. Pra trazer o boi da ilha, levavam pro local de matar, né? Então nós, como os manguezais na época eram tudo baixo, de qualquer árvore que se subia aqui dava pra ver a ilha inteirinha. Então nós via os caras fazendo, correndo atrás do boi lá pra pegar, pra laçar, pra trazer no barco. Tudo isso era divertimento para nós. Era o dia inteiro.
Carnaval... se vestia de mascarado. Chegava na época, todos os colegas faziam as máscaras. Íamos lá no morro a pé, pra trazer o saco de barro, de argila, pra fazer a forma, pra colocar papel, papel, papel colado, depois fazer num furador os olhos, o nariz, e fazer a máscara para se vestir no carnaval. Saíam 10, 20, 30 molecada tudo vestidas. Aquilo dava ânimo, dava graça no carnaval. Acabou. Hoje em dia você vê Bituca, como você falou mesmo, pintar a cara... alguns, meia dúzia aí. A molecada mesmo, ninguém faz mais. Mas antes era tudo, todo mundo! Todo mundo se vestia de mascarado, e não dava pra saber quem era. Por exemplo, se você se vestia e usava a sua roupa lá, ninguém descobria quem era — a não ser que você falasse em voz alta, que aí podiam te conhecer pela voz, mas, do contrário, ninguém sabia. Porque perderia a graça se alguém descobrisse, né? Aí você já podia até sair fora, que já acabou pra você. E enquanto isso, tinha gente, todo mascarado usava chicote — tipo assim, uma varinha de bambu pra se proteger, pra ninguém chegar perto, pra tentar. Aquele que tentava, tomava chicotada mesmo, cara. Só pra não chegar perto, entendeu? Só quem já sabia da turma mesmo, que já sabia, cada um sabia quem que era quem porque se vestiram juntos, fizeram a máscara juntos, sabia de cada um quem que era quem. E também era amigo, né? O resto ninguém sabia. Isso é que era o gostoso. Sem contar o carnaval, né? O carnaval para mim, antigamente... não tinha coisa mais legal.
Eu tenho gravado na minha memória a coisa mais colorida... em matéria de cor mesmo, que já vi em toda a minha vida. Não é agora, não é a luz de São Paulo que você vai lá agora no Ano Novo, Natal, tudo iluminado, tudo colorido. Pra mim, está gravada na minha memória que foi uma passeata do Valinho. Eu acompanhei a passeata até lá no Valinho, e até o Buruí, no caso, né? Aí eu tava mais ou menos aqui em frente, aqui em Icapara, aqui no bar, e vinha aqui em casa jantar. Tudo rápido. Quando eu voltei, eles já vinham voltando lá do Buruí. Pronto, aquela imagem ficou na minha memória.
Então, do Carnaval era colorido que fala, porque como não tinha luz elétrica, o que é que eles faziam? 300, 400, 500 lanternas, lanternas de papel de seda com uma vela dentro, de várias cores. Aquilo era o colorido do... coisa mais bonita que eu já vi na minha vida, cara. O colorido do carro alegórico, tanto do Buruí, do Valinho e do Buruí, entende? Sem fazer, sem tirar o Buruí. O Buruí também era muito, os dois, os dois eram, disputava, né? E a gente sabia, na depois de acabar o carnaval, quem ganhou o carnaval nosso. Mesmo na naquela, entre nós mesmo, aqui todo mundo sabia. Se se quando é quando era legal, todos iam estar quem ganhou mesmo, né? Até eles admitiam, o Buruí admitia, o Valinho admitia quando perdia ou quando ganhava, mas sempre tinha essa dava para saber quem ganhou. Como se fosse lá no Rio de Janeiro, né?
Eu, é, outra coisa, essa que você está falando, passou falta, passou necessidade. Eu passei também, mas bem... 10% mesmo, né. Não lembro de ter passado um dia sem comer, por exemplo. Eu tinha a janta, tinha o almoço, tinha o café da manhã, café da tarde, da, do nosso jeito, mas sempre tinha, né. O peixe cozido, pirão de peixe, mas era comida. Só sei, nunca faltou, nunca faltou na minha, quando você dizia desde pequeno, não lembro de ter um dia: "Ah, não tem, minha mãe dizia: 'Não tem comida'". Nunca ela falou isso. Alguma coisa a gente comia.
Lendas


Mas contam... um historiador de Icapara, ele contava que os piratas de Icapara partiram daqui com cinco navios para lutar com os Vicentinos, guerrear com os Vicentinos. Ele me contou para mim. Segundo a história, saíram daqui com cinco navios, chegaram lá com oito — quer dizer, no caminho ainda roubaram mais três para ajudar na força. Inclusive, destruíram tudo, trouxeram os mortos deles, enterraram no Prelado, no cemitério do Prelado. Naquele tempo, com certeza, não existia a Vila da Barra do Ribeira, existia o Prelado só, que era a vila, né? Que era o porto. Enterraram os cem mortos que trouxeram no combate lá. Segundo a história... tio Zacá (Zacarias) confirmou.
Dia a dia


O trabalho maior era a pescaria. A tarde tinha... por exemplo, na pescaria da manjuba. Se saísse uma redada de mil quilos, podia esperar que à tarde tinha uma caixa de cerveja pra turma que ajudou na lança lá. Se saísse dez lances de mil quilos, cada equipe tinha que pagar uma caixa de cerveja aqui. Eles davam até o nome "Vamos pagar a bicuda", né? Que bicuda era... eles davam esse nome.
Então os caras sempre lá na pescaria, no barco precisavam de ajuda mesmo, então se você desse uma redada e não tivesse ninguém para ajudar, a rede ia embora. Em cada ponta da rede tinha sempre dez, quinze caras ajudando. Aí dava sempre redada grande mesmo então, podia esperar que a tarde, a tardinha aqui no bar, a cerveja, de forrar o balcão mesmo.
E o futebol, né? Na época, na minha infância, tinha o melhor time de Iguape, já posso dizer, né? Não é só de Icapara, de Iguape inteiro. Para ganhar do nosso time aqui, tinha que fazer seleção lá para poder se igualar com nós aqui. Então o que você tinha naquele tempo, que hoje não tem? Uma partida de futebol no domingo aqui em Icapara antigamente, você podia ver que a volta do campo inteiro era cheia de torcedores. Hoje já é o contrário. Você vê uma partida de domingo aqui e dá pra contar no dedo: um, dois... meia dúzia de gente assistindo o jogo. Por quê? Naquele tempo não tinha televisão, não tinha Faustão, não tinha, na época, agora não. Domingo não tem novela, mas tem programa, tem jogo de futebol, aquele tempo, a gente meio que assistia o jogo lá, mas a tinha um radinho de pilha no ouvido se ouvindo, né, a Bandeirantes, que era Fiori Gigliotti, no caso, né? Aí a gente vai. E o que fazia os adultos? Depois da pescaria ia tudo pro bar, até a tardinha, ficar batendo papo, né?
Tags:
Carnaval Piratas Memórias Lendas Infância