Transcrição da Entrevista
A Chegada e as Primeiras Impressões de Icapara
Então, Icapara, eu conheci Icapara quando me casei.
Então, eu casei com Sezinando aí nos viemos. Eu vim conhecer Icapara porque eu não conhecia, só de ouvir falar. E naquela época agente saía as 6h da manhã de santos pra chegar aqui no Icapara 11h da noite. Era caminho. Não havia aquela estrada que tem hoje, não havia nada disso. Eu casei em 50 e em 51 eu vim, né. Aí quando eu chego aqui, era ali onde o Benedito morava, que ali era o porto. Então, o porto é aquele que a gente vai passando de canoa em canoa e vai chegando em terra, né. Porque não tinha porto naquela época. Aí eu vim, aí atravessamos tudo, todo mundo de velinha acesa sabe, esperando a gente chegar, sabe. Bastante gente. O pessoal todo por aqui né? Aquelas senhoras tudo de vestido comprido até os pés, que usava naquela época, né? E Muitos senhores, né, também que tinha aqui, tudo... Tudo com velinha e lampiãozinho esperando a gente na chegada.
Aí, não deu pra mim ver muita coisa porque era noite né, aí eu vim por um caminho. Não sei por onde era esse caminho, chamavam caminho grande. Então eu vim por esse caminho, mas eu só via aquelas casinhas de pau-a-pique e via aquele lampião... aquela luzerninha de luz lá dentro. Porque aquela... eles moravam nessas... nessas casas, né? De pau-a-pique.
No dia seguinte quando levantei que eu fui conhecer Icapara, né, aí que eu vi que aqui era um lugar bem pobre, né, porque o pessoal usava roupa com remendo, as mulheres andavam com roupa comprida... os homens, né, tudo descalço. Ninguém usava calçado. Nem chinelo, nem tamanco, nem nada. Era descalço mesmo que eles andavam, né?
A Simplicidade, a Pesca e o Sentimento de Pertencimento
E eu me apaixonei. Me apaixonei porque foi um lugar que até hoje eu sinto saudade, porque... gente simples, humilde, sabe? Era aquilo que eu gostava de viver, sabe? Eu gosto de viver nisso. Eu gosto dessa simplicidade, né? Aí eu comecei a conhecer o pessoal né?
Então, eles pescavam muito e quando não tinha peixe... Que eles chamavam de peixe grande, que podiam vender para um barco que vinha de Santos, chamava-se Alcedo e esse barco vinha buscar o peixe dele aqui, sabe?
E quando não tinha, assim, peixe, dava aquele sarnambizinho, aquele, aqueles peixinhos pequenos, sabe? Então eles iam pescar aquilo e depois que eles chegavam, que todo mundo sabia que eles chegavam, a gente só via mulher passando com bacia, ia lá porque eles davam o peixe. Aquele peixe não era vendido. Era pra, pra manutenção do pessoal daqui, né? Então eles usavam aquele peixinho pequenininho que não tinha venda.
eu amo Icapara como se fosse minha terra. Como se eu tivesse nascido aqui. Eu sinto que nasci aqui. Porque eu tenho isso aqui como se eu fosse nascida aqui. Talvez quem nascesse as vezes não tenha tanta amizade que nem eu, né. Mas Eu gostava, eu gosto daqui. Gosto demais daqui.
Hoje vai melhorando eu fico contente que vejo eles melhorarem, tudo ne. Mas eu tenho muita saudade de quando eu comecei a vir aqui de canoa. A gente vinha de trem, de ônibus e de canoa. Era o trajeto que vinha até aqui.
A Longa e Difícil Viagem
Juquiá. De juquiá a gente pegava aquele ônibus... Não sei como chama aquele ônibus que tem o bagageiro em cima, é aqueles de comboio né? Aqueles onibuzinho, então ali o bagageiro vinha em cima, né. Aí a agente vinha naquele ônibus até Pariquera. Chegava em Pariquera a gente descia, porque esse ônibus ia pra cananeia. E a gente tinha que descer em Pariquera porque tinha que esperar um ônibus que vinha do sul. Ele vinha do Sul, passava aí e pegava a gente pra levar pra Iguape. Pra trazer aqui pra Iguape né. Chegava em Iguape a gente tinha o ferro bote. O ônibus atravessava de ferro bote também. O ônibus e a gente, né. Aí a gente atravessava de ferro bote aí ali onde tem aquele superm... mercado que tinha antigamente, ali o mercado. Ali era o ponto de pegar a canoa. Ali que a gente peg... Estava meu sog.. meu cunhado, que mora aí, ainda tá vivo. E ele com a canoa, o Floramante com o pai, seu amaro, eles ficavam esperando a gente até anoitecer, né. Aí..., sabe que levava duas horas, duas horas e meia para chegar de Iguape aqui? Não da pra acreditar, né? Contando a pessoa não acredita.
O Trabalho na Roça, o Sofrimento e a Felicidade
Eles plantavam arroz e plantavam feijão pro gasto né? O feijão era pra gasto, quer dizer, mas o arroz eles plantavam pra vender, né? Eles trabalhavam pra lá praquele morro do una, praqueles lados que eles trabalhavam. Eles trabalhavam longe. Eles iam de manhã cedo, as vezes faziam uma choupaninha lá, uma cabana, e dormiam lá pra poder trabalhar, né? Porque pra plantar arroz não foi fácil. Esse pessoal sofreram muito, viu. Porque além deles plantarem lá, no tempo de colher o arroz era aquele trabalho todinho de colher o arroz, aí ensacavam o arroz, depois eles levavam pra Iguape em canoa... em canoa. O pessoal era muito sofrido aqui, mas tinha uma boa coisa, nós não faltava...
Eram felizes. Eu digo pra você, a gente era feliz e nem sabia, viu? Porque A felicidade estava ali naquela humildade da pessoa. E outra coisa, aqui não faltava baile, aqui tinha baile porque socava farinha, tinha baile porque socava o arroz, tinha baile porque ... tudo tinha um baile. E o baile era aquele baile batido né, que chamava né, o fandango.
O Respeito nos Bailes e as Romarias a Pé
Naquela época o que mais interessava, por exemplo, eu, eu era uma pessoa estranha, né, então a gente foi no baile né com... ninguém tirava eu pra dançar. Eles tinham que pedir para o meu marido se ele consentia de dançar comigo, quer dizer que ninguém me chamava pra dançar sem falar com meu marido primeiro, aí ele vinha e falava assim: “seu marido deixou...”. Aí eu dançava. Vê que... Você já viu viver num lugar desse? É maravilhoso, viu? É maravilhoso.
E o meu marido não fazia, não juntava o pessoal na festa do agosto, nós íamos a pé até Iguape pra assistir a novena. Sabe qual era o caminho da gente? O caminho do telégrafo. A gente se guiava pelo caminho do telégrafo. Tinha o... como é que chamava... o caminho do pé, né... o caminho do pé. Então o pessoal se guiava pelo telégrafo, né? Era o único jeito de chegar em Iguape. E a gente atravessava dois morros. Muita gente ia, tia Jorgina, Miquelina, dona... dona Aurora... senhoras de idade. Não deixavam de ir na novena, né? Lá a gente saía tudo em... andando até lá, depois voltava a pé outra vez. Ia a pé e voltava a pé. Aí na volta ele comprava um refrigerante, comprava uns doc... uns biscoitos pra gente vir comendo e com um lampiãozinho alumiando porque não tinha luz.
As Tradições do Baile de Fandango
Olha, o baile era muito interessante, a gente aprende muita coisa, porque a gente vem da cidade com uma outra cabeça né, chegar aqui e via tudo diferente. Então, o baile ... todo mundo descalço... ninguém usava calçado. Só usavam tamanco quando era o batido. Então os homens calçavam o tamanco para fazer barulho no soalho, toc, toc, toc, no soalho. Então era só pra esse horário, essa coisa, que eles usavam o tamanco mas do resto, todo mundo descalço. Mas descalço não era no baile, não. Era Descalço era mesmo, que ninguém tinha calçado, né. Ninguém calçava nada. Nem chinelo, nem sapato, não... era muito raro uma pessoa que pusesse um sapato. Então ali dançava. Ali tinha o violeiro, né, tinha o violeiro, que era... eu me lembro do Oscar. Oscar tocava rabeca. O meu cunhado Claudino tocava violão, sabe... era mais... era rabeca, violão e pandeiro... e o surdo né. Eram esses, os coisos, que eles faziam aquela cantoria né, tudo né. Aí eles cantavam aquela música e a gente dançava. Então chamava-se valsado. Valsado era pra nós, pras mulheres dançar. Agora, quando era batido era para os homens, mas as mulheres também dançavam. Conforme o homem usava o batido, ta, ta, ta, ta, ta, ta... no assoalho, porque era tudo assoalho. Batia no soalho, as mulheres rodeavam em volta dos homens, umas iam pra lá. Elas já tinham o jeitinho de rodar em volta, sabe, aquele o valsado. Era muito bonito, aquilo. A gente amanhecia naquele baile. Mas era um respeito, tinha com tudo, não sei se você chegou a conhecer o Osvaldo, Oswaldo daqui que tinha... ele foi, ele tomava conta, ele gerenciava aqui... Quando era os bailes, ele tomava conta. Quando vinha gente estranha, alguma pessoa que nem era conhecida de ninguém, que aparecia, um andante aí, ele pegava punha na canoa e levava pra Iguape. Não deixava ficar aqui no lugar não, sabe. Então, ele tomava conta... ele era... como que chama... o lugar assim ...
O Rigor do Inspetor de Quarteirão
Inspetor de quarteirão. Ele era inspetor de quarteirão. Se chegasse alguém estranho ele já pegava e levava de volta. De onde o senhor veio? Não sei oque. Então vai voltar. Não deixava ficar aqui não. Porque era assim, no baile a gente ficava sentada no corredor da cozinha, que tinha um corredorzinho que chegava na cozinha, né. Então a gente ficava sentada no banco. E a gente ficava sentada e a pessoa vinha pedir pra dançar, né? Vinha pedir pra dançar. Se por acaso eu dissesse que não queria dançar com aquela pessoa eu não dançava com mais ninguém. Porque era respeitado, ou você dança com aquela pessoa que te tirou primeiro ou então não dança. Então a gente não dançava. Então, se a gente não saísse com aquele primeiro não saía com mais nenhum, né? Então a gente, às vezes, aquelas que tinham namoradinho, que já tinham olhado, ficava esperando que ele tirasse. Vinha outro na frente e tirava, era obrigado a sair com o outro.
E o inspetor de quarteirão, ele ficava analisando tudo isso dentro do salão. Ah, não, ninguém desrespeitava ninguém. Era um respeito tremendo. Então ele ficava ali, se por acaso alguma moça não queria dançar e depois queria sair com outro ele ia lá, separava eles e não deixava dançar. Era uma coisa, sabe...
A Partilha, a Humildade e a Saudade do Passado
Ah, eu sinto saudade... Eu sinto saudade de... de não ter luz, eu sinto saudade de carregar água, sinto saudade dos... das festinhas que eu tinha uma casinha em frente aqui e nós fazíamos aquela casinh... fazíamos aquela festinha, sabe e aquela criançada toda aí. A gente arrumava um prato com comida, dividia em 3 ou 4 e comia tudo no mesmo prato. Pra não ficarem olhando, esperar um acabar de comer, então a gente fazia assim. Eu punha comida no prato, nós, minha mãe, minhas irmãs, aí punha comida no prato, a gente dividia assim, aí dava uma colher pra cada um né, e ficava os 4 comendo no mesmo prato. Eu tenho saudade disso. Porque era um modo da pessoa se doar, né, se doar, ajudar aquelas pessoas. Mas eu tenho saudade do fogão de lenha, do peixe que estava ali pendurado. Tão gostoso comer aquele peixe salgado ali. Nossa.
Sabe lá o que é a gente ficar de joelhos sentadinho em volta de uma fogueirinha, porque era uma fogueirinha que temos, não pensa que tinha tijolo aqui, tijolo ali pra segurar a panela não, tinha uma trempe que chama, uma trempe pendurada e agente pendurava a panela na trempe. Era assim que a gente cozinhava. Né. Você sabe lá o que é viver num lugar desse? É o paraíso em vida. Porque isso é um paraíso, a gente viver num lugar assim, né? E eu via aquelas coisas assim, meu Deus, aquilo me enchia de alegria, e eu toda... tanto que nossas férias, todo tempo que a gente podia nós só vinha pra Icapara, nunca fomos pra lugar nenhum, sempre pra Icapara. O meu marido, nós quando vinha, passava no Cirilo em Santos, tinha uma padaria, chamava-se Cirilo, e ele fazia aqueles pães redondo, grande, sabe? Aí o meu marido trazia quatro, cinco pães daqueles. Vinha um monte assim, ó. O que que nós carregava de sacos pra cá não está escrito... Aí trazia aquele pão, trazia o queijo, trazia a goiabada, que a goiabada era de caixetinha, assim, antigamente né? Aí o meu marido chegava, entregava tudo pro pai dele, né? Falava: “Ói pai, está aqui essas coisa, o senhor...” No dia seguinte, a gente levantava pra tomar o café, tinha um pedaço de pão pra mim e um pedaço de pão pro Sezinando só. Ele já tinha dividido com todo mundo. [risos] Ele já tinha dividido com tudo mundo. Tinha dividido a goiabada, tinha dividido o queijo, tinha dividido tudo. E tudo ele levava, e tudo... sabe? Mas eu ficava tão feliz, porque eu dizia... como uma pessoa, o coração dessa pessoa, né? Não vai comer sem dar para o outro, né? E é isso que a gente encontra na Bíblia, né. A gente saber dividir as coisas, a gente dar as coisas, né? Não ficar egoísta, né, de ficar com ela. Tinha uma senhora, você, acho que não lembra, que morava ali onde estava aquele deposito de material, chamava-se dona... como é o nome dela? Era Benedita. Benedita que morava junto com nhá Tomázia, e ela criava um sobrinho, criava um sobrinho. Eram duas senhoras de idade. E no dia que a gente chegava, ela via a gente chegar. Quando era no dia seguinte, ali pelas 4 horas da manhã, 4 e meia da manhã, eu sei que era noite ainda. A gente escutava: “-Nhá Marica!”, Nhá Marica era minha sogra, né? Chamavam de nhá Marica, “-Nhá Marica!” e nhá Marica “-O que é nhá Tomázia? Entre nhá Tomázia.” Essa hora minha sogra já estava fazendo café, né, porque 4 horas era dia pra eles. Aí nhá Marica... “-Ah, nhá Marica, eu vim aqui pra senhora me arrumar um pedacinho de pão pra mim levar pra Erico.” Pra Erico que era o sobrinho que ela criava, porque corria a novidade que a gente tinha trazido pão e tudo, então ela vinha cedo pedir um pedacinho de pão pra Erico. E eu dizia, ta vendo, que coisa, né? Ah, eu assim, ficava tão feliz, olha, digo, foi o tempo mais feliz da minha vida foi esse. Eu sou feliz. Eu não posso me queixar, eu sou feliz. Mas aquele tempo fui feliz porque eu aprendi muita coisa. Aqui em Icapara eu aprendi muita coisa. Se eu já fui criada com a minha mãe doando, minha mãe dando
A Chegada da Estrada e as Mudanças
Olha, pelo meu modo de ver as coisas, eu acho que Icapara melhorou bastante, sabe o que que aconteceu? Eu acho que as pessoas agora, elas têm um ordenado, porque naquela época ninguém tinha ordenado né, ninguém... vivia do que ganhava e quando tinha, né? Então eu acho que quando começou a vir as coisas pra cá, as pessoas, a estrada, a estrada... a estrada, eu digo mesmo, eu sempre falei e digo, a estrada leva o que presta e o que não presta. Então, veio a estrada, começou a pessoa a querer melhorar, então eles começaram a procurar emprego e tudo. Tá certo que eles trabalhem e que eles ganhem tudo, né? Então eu acho que foi o modo de vida que eles receberam.
O Grandioso Carnaval de Outrora
Que nem numa festa de carnaval. Que festa mais bonita que tinha aqui, de carnaval. O carnaval era a coisa mais bonita que tinha. Todo mundo fazia, era...eles...eles, entre eles, compravam um boi, né. depois matavam e dividiam o boi, né. Então. Tanto que era bonito até ver a matança do boi que eles faziam, tudo. Então eles tinham carne para aqueles dias de carnaval e as mulheres faziam o biju, o cuscuz, e tudo para eles terem o café. Quer dizer, como se fosse a festa de natal da gente, era o carnaval deles. Porque eles se preparavam mais no carnaval do que o Natal. eles ficavam pagando o ano inteiro um boi pra depois dividir. Quantos deles entravam naquela rodinha, o boi era dividido. Depois tinha a festa do boi, antes do boi... matar, faziam festa e soltavam o boi pelo Icapara todo né? E o pessoal correndo atrás do boi, aquela coisa toda, né? E matavam. Matavam o boi, depois que as mulheres passavam tudo de “baciinha” que iam aproveitar os miúdos do boi e depois era dividido aqueles miúdos do boi também, sabe? Então, era o Carnaval. O carnaval sempre foi uma festa.
Hoje em dia nem carnaval nós não temos. Nós não temos mais carnaval. Que o carnaval era ... coisa... era quatro noites de fandango e quatro dias. A gente dançava de manhã, de tarde, de noite. E era assim, cada casa dava aquele horário para dançar na casa dele. Não tinha salão. Na casa que dançavam né. E a gente dançava olha, os quatro dias de carnaval era uma festa aqui no Icapara. Hoje em dia nem se vê carnaval.
Este último carnaval, por exemplo não teve né?