Transcrição da Entrevista
Infância e Diversão
(Bituca) Agora, na nossa época, nós era o cachorrinho do nosso pai. Ele na frente, a gente atrás ali ó. É uma educação que deixou pra gente. Eu agradeço isso aí. Agradeço de coração, mesmo.
(Eliseu) Divertimento era assim no botoque. E matar passarinho. Cuitelinho. Coitado. Pra matar, pra fritar e pra comer ele. E depois então a gente jogava curuanha. Essa era a nossa diversão. Bolinha de gude. Pra roubar. Roubava tudo eles. Eu no baralho era o maior ladrão. Eu jogava com Antônio Eugenio. Antônio Eugenio era outro ladrão. Um dia nos fiquemos né, nós dois...
(Bituca) Eugenio é o pai de Dito Louco, que faleceu.
(Eliseu) ...Ele ficou em casa, fiquemos nós dois jogando. Eu ganhei tudo o dinheiro dele. E por fim ele pegou o pacote de dinheiro, a moeda, e jogou por cima da janela... no mato de reiva.
(Eliseu) É nós jogava de noite. Noite de luar...
(Bituca) Ahm...
(Eliseu) Nós limpava a areia e jogava...
(Bituca) Tava igual um morcego lá.
(Eliseu) O mais forte mesmo era plantação de rama...
(Bituca) Tá louco! Coisa de índio. Nunca deu lucro pra ninguém, rapaz. Não, aquele tempo tudo bem, agora a turma compra, não planta mais. Ninguém tá plantando mais.
Igreja e Namoro Antigamente
(Bituca) Naquela época tinha a Igreja Católica como tem aí né, a gente ia pra igreja. Naquele tempo era escuro aqui, você não enxergava nada. Então a gente ia pra igreja, e a gente doido pra namorar. Chegava lá, acabava a missa da Igreja pegava aquele toquinho de vela, vinha acendendo pro caminho pra alumiar aqui. Porque era escuro aqui, pra chegar aqui, né. E na casa da vó de Jucira era um túnel de noite. E nós vinha, com aquele pedacinho de vela, toquinho de vela, cada um alumiando. E nós vinha já namorando ali com as meninas.
Bailes e Danças
Baile de viola... Eliseu não dançou, né?
(Eliseu) Não, nunca dancei.
(Bituca) Agora tá dançando... É que nem a formiga e a cigarra....
(Eliseu) Nunca cheguei na porta de um baile.
(Bituca) Ah, eu dancei muito rapaz. Diversão que eu gostava é baile. Onde tivesse um baile eu ia nos quintos dos infernos. Pegava minha mulherzinha, prostrava aqui, ó... Aqui pra ela.
Futebol, Carnaval e Festas Comunitárias
(Bituca) Nós jogava bola aqui pro caminho. Aqui era caminho... Ele pegava, irradiava tudo. Nós jogava assim na frente de casa de um, de outro. Aqui ó. Aqui nós jogava. Casa de tia Joaquina aqui.
Ah, tinha esses mais velhos aí, padrinho Claudino, tinha finado Elói, tio Salvador. Tinha dois, duas bandas aqui de carnaval. Um em casa de tio Júlio Barbosa, ali perto da casa do seu pai e a turma da casa do Zinho aqui, de Elói, de finado Elói. Conheceu, né? Joao Saruva, Dito Saruva. E tinha de padrinho Claudino. Tio Dionizio que tocava ... tava lá, tocava lá. Levava uma viola ensacada nas costas pra tocar lá, pra não pegar friagem. Puxa vida.
Quando acaba o carnaval, você ficava o dia inteiro no salão do baile, deitado lá, pra repassar... Repassar aquela bebedeira que fazia no carnaval. A turma deitado na casa de tio Júlio Barbosa, tudo deitado lá. Aquela ressaca desgraçada do carnaval.
O primeiro peixe que a turma comia na quarta-feira de cinzas, é... quarta-feira de cinzas era aquele bagre papudo, que caia no cerco, né Eliseu? Pra tirar a cachaçada do corpo. E tinha o repasse... mais pinga nele. Eles não falavam de caipirinha... brasileira na época.
Festa junina aqui, ????, pra ganhar de Icapara não tinha outro.
Festa de 8 de dezembro vinha gente de todo esse mundo de deus daí, cara. De Barra da Ribeira, ribeira abaixo, ribeira acima, Iguape, Rocio. Vinha o barco da sorocabana, vinha com a banda de musica tocando aí.
Eh rapaz, fica a turma acampado aqui. Era, tinha uma madeira chamado Covatan, né Eliseu? Que faziam piquenique aqui embaixo. Bem aqui, em frente aqui.
Acabou tudo cara. Acabou o baile de viola, acabou tudo. Aqui em Icapara acabou.
Brincadeiras Folclóricas
(Bituca) Cavalo de Jarová. Brinquemos, rapaz. Mas era bonito.
E tinha o boi. Ah o Boi. Oh o boi. Cavalo de Jarová e o boi. Era uma cabeça de pau amarrado com uma corda. E nós ia puxando.
(Eliseu) Benjamim.
(Bituca) Ahm?
(Eliseu) Benjamim.
(Bituca) Benjamim... finado...
(Eliseu) Cecilio...
(Bituca) Coisa, Rosalino...
(Eliseu) Rosalino.
(Bituca) Com os mais velhos. Com os velhos, se pintavam. Nho Jorge, o pai de Pedro, seu pai. Seu avô.
(Eliseu) Eu vim de pescar manjuba, cismei de fazer um peixe grande. Aí eu cheguei em casa, pus o remo assim, cortei um bambu, parti ao meio, desenhei, espadarte. Digo, é esse. Espadarte. Foi o primeiro.
(Bituca) Mas era bonito, rapaz. Divertido. Não tinha confusão. A turma brincavam bonito. E bebiam hein. Bebiam pra desgraçado.
Fogueira de Festa Junina e o Fim das Tradições
(Bituca) Quando chegava uma festa junina tão bonita, cada um fazia uma... avôs nossos... Cada casa fazia uma fogueira. Pegava uma tainha rapaz, assava na fogueira assim... finado Teodoro Vito. Teodoro. A garrafa, um litro... um garrafão de cachaça assim, comendo a tainha assim, tudo com sangue assim, rapaz. Amanhecia o dia ali. Onde é o Mané Português, ali.
Aí acabou tudo, rapaz. Morreu os velhos... com essa molecada aqui não sai nada mais. Os velhos... falei, o dia que padrinho Claudino morrer acabou Icapara. Acabou o baile. Cadê o carnaval bonito que mexia com todo mundo? Não tem mais carnaval.
Mascarados de Carnaval e Confusões
(Bituca) Nós fazia mascarado com uma forma de barro. Fazia com... eu, Ademir, Toucinho, nós fazia muito. A ... e... e fazia aquilo ali né... mascara japonesa, tudo, com jornal e colava com goma, goma de farinha, assim. Nós colava com aquilo ali. Acendia lanterna no carro do carnaval. Não tinha luz... então a lanterna com uma vela lá dentro. As vezes batia vento, pegava fogo.
Nós ia pro lado do valinho, os cara pegava com o estilingue, furava tudo. A briga tava feito já. Nós era uma praga rapaz.
Eles tinham uma inveja da turma aqui do Buruí, porque a turma ganhavam. Esse aqui que fazia o carro do carnaval pra nós...
(Eliseu) É eu. Esse pessoal é eu.
(Bituca) Não saiu aquela música? Aquela musica do carnaval que é ... A cobra comendo o sapo. Esse aqui fez. Toucinho, o cunhado dele, Toucinho chegou assim, toucinho é dito, né? Falou pra Osias. Falou: Osias, viu o sapo comendo a cobra... A cobra comendo o sapo? Osias malcriado, falou: Não, ela tá comendo o seu [suprimido], seu [suprimido]. Meteu-lhe a boca.
E tinha o Zé pereira também, que nós batia o Zé Pereira: Viva o Zé Pereira, umbigo de bananeira... era assim né? Hoje quem que faz mais?
Visagens e Assombrações
(Bituca) Meu senhor... aí onde é a casa de finado barbeiro, seu avô, que era tia Calu... ali... aqui nós ia comprar querosene no bar de celso, sabe que horas? Uma hora da tarde por causa de visagem. Medo. Nós saia aqui bem de dia de medo de visagem. Era um cafezal, sabe? cobria assim. E daqui de casa de tia Calu, em bora pra lá. Aí nós ia uma hora da tarde pro meio da tardinha de medo de visagem. Nós ia comprar querosene pra de noite. Num dava tempo hein? Hum, hum, hum.
Eu vi um assombração sim. De dia. Era meio-dia, vim da escola. É pessoa morto. Finado João Franquinho, pai da Maritana aqui. Eu vim aqui. Vim da escola e fui jogar bola lá no Buruí, na casa de Benedito Franco, onde era a casa de Batista antigamente. Quando cheguei bem naquela estrada de Zé da Estrada ali, naquele caminho, tinha uma vala. E tinha uma galinha com um monte de pintinho acompanhando. Então aquela coisa me deu uma roçada na perna assim: vrampppt. O mato deitou. Ah, só podia ser assombração. Mas finado João Franquinho, nós brigava muito, falou que ia dar uma corada em mim. Foi ele mesmo. Eu vi uma camisinha listrada. Então, eu não esqueci até hoje não. E foi mesmo... pra executar.
Lembranças do Pernica
(Bituca) Pernica, nós... eu... quando ele estava bêbado. Ele sentava ali onde é casa de Narciso de tio Vitóca. Ele tinha um armazém. Nós ia lá desentralhar rede pra ele. Ele era português ele. Um docinho pra gente, um tostão. Que coisa né? Pernica era um português. Aí quando ele morreu, ele morreu parece que de câncer. No enterro, no guardamento dele, parece que foi papai, nhô Arcides, pai de Cesar. O resto da comida dele de uma semana acabaram comendo de noite. Pedro nascimento... tudo bêbado.
E outro, quem pescava com ele, ele pagava o pescador que pescava com ele por tamanho. O pequeno, que era baixinho, recebia menos. O mais alto recebia mais. Né Eliseu? Ô meu filho, pega doce aí, daquele jeito que português fala. Tinha uma venda de doce... ele tinha um armazenzinho, ali onde é a casa de Narciso, do lado de... em frente Periquito ali...
O Lobisomem
(Bituca) Eu vi um lobisomem uma vez. Eu namorava. Vinha lá do valinho eu vi um. Um cabrito grandão assim sabe? Que nem um.. esse coisa, como é? Um bezerro branco. Eu tava indo na casa do meu sogro lá, na casa da Neusa. Aí ele chegou, o cachorro atacou eu vi e voltei. Eu louco pra dormir com Neusa, lá na casa do pai dela. Ele entrou numa canoa velha, bateu o pé faz ... bew, bew... eu digo... Ah, não me deu coragem. Eu tava dormindo em casa do meu cunhado Nozor. Um animal branco rapaz... o cachorro comendo solto em cima dele.
Identificação Final
(Bituca) Ó, eu tô... eu vou... até 31 de dezembro vai pra 77, ah... 67. Estou com 66 praticamente.
Bertolino de Oliveira Carvalho
(Eliseu) Eliseu da Silva, 85