Fábio da Silva

Transformações e memórias de Icapara. | Data da entrevista: 12 de setembro de 2015 | 28 visualizações

Trecho da entrevista em vídeo:
Este vídeo apresenta apenas um trecho da entrevista. A transcrição completa está disponível logo abaixo.

Transcrição da Entrevista

A Liberdade da Infância em Icapara

Bom, eu me chamo Fabio da Silva, sou nascido em Icapara, Iguape, São Paulo. Tenho 33 anos de idade.

Nascer em Icapara, inicialmente, tinha uma essência até um pouco indígena, né? Pela questão de conviver com casas sem muros... Então, era uma coisa de liberdade total. Todo o espaço era espaço de recreação, não tinha limitação. Não precisava ir a uma quadra nem a um campo para jogar futebol, jogava-se na rua. Empinava-se pipa em qualquer lugar, jogava-se taco em qualquer lugar.

E essa característica foi se perdendo de lá para cá. Hoje, morar em Icapara tem sido uma questão mais urbanizada, mas ainda não se perdeu totalmente aquela liberdade, porque, comparando com os grandes centros, a gente ainda tem a liberdade de viver e desfrutar da natureza.

O Impacto do Turismo e o Individualismo

Sobre a perda da cultura, eu não vivi essa época, mas acredito que nas décadas de 60 e 70 começou a vir o turismo. O turismo começou a conhecer Icapara. E esse turismo veio como vieram os portugueses para o Brasil: na base da troca. "Te dou uma garrafa de cachaça e você me leva para pescar". A galera que levava para pescar se iludia com aquela boa vida que o turista trazia para cá. E essa, no meu pensamento, foi a pior troca.

Aí, os jovens começaram a ter o capitalismo como referência e deixaram de viver o que era vivido aqui. Essa forma de pensar criou o tal do individualismo. Cada um se fechou no seu espaço: "Eu não falo com fulano porque ele vai tirar proveito de mim, não falo com cicrano...". Então, não houve mais a troca que existia antigamente, que era a dos mutirões, da roça, da dança, do fandango. Hoje, o caiçara ficou restrito, ele se fechou, se perdeu, porque em tudo o que ele faz — ou poderia fazer — ele acha que alguém vai tirar proveito.

Raízes e Projetos Sociais: Jiu-jitsu e Tradição Caiçara

Eu nunca quis sair daqui. Sempre quis morar, viver, criar meus filhos e ter uma vida tranquila. A gente não precisa de grandes coisas, de grande riqueza; precisa viver bem, feliz.

Eu trouxe o Jiu-jitsu para cá. Vai fazer 4 anos agora em março que temos as aulas em Icapara. Fora isso, temos um projeto que vamos lançar no ano que vem: o Centro de Tradição Caiçara. A ideia é envolver tudo o que se encontra aqui a partir de três referências principais — mar, rio e mato — e retratar tudo o que existe de mais exuberante na terra e na água.

A "Pedreira": De Centro de Recreação ao Abandono

Ação sem recurso é só ação, é jogar pedra na água. A Pedreira, poxa, é um lugar que nós tínhamos como o melhor centro de recreação de todos. Vinha gente da Praia do Leste, da Vila Nova, do Pontalzinho... todo mundo vinha para a Pedreira.

Mas a Pedreira deixou de ser isso por causa da expansão urbana. Começaram a construir e a vender terrenos dentro dela, coisa que não pode, pois é um afluente, um patrimônio de todos. É o nosso principal rio. Temos histórias das décadas de 60, 70 e 80 de quando se lavava roupa lá. As mulheres se reuniam em volta do rio para lavar roupa. A importância que esse rio tinha para nós era muito grande. Depois veio a água encanada e ele deixou de ser tão essencial para isso, mas nós, como crianças e adolescentes, tínhamos aquele lugar como um espaço de encontro. Aquela pedra linda, bonita, todo mundo se secando lá de tarde... "Ôh, vamos nadar na Pedreira!". Fora isso, havia a pescaria. A gente pescava traíra, cará, vários peixes de água doce. É uma das características do nosso litoral.

E hoje ela está lá, largada, despercebida e com pouco interesse. Tentamos revitalizar uma época; chegamos lá, começamos a mergulhar e encontramos televisão, geladeira, fogão, arame farpado... os caras jogavam rolos de arame farpado para a gente não ir nadar. Tentamos umas duas vezes, mas, infelizmente, temos coisas mais urgentes hoje com que nos preocupar. Não que a Pedreira não seja importante, mas precisaria de uma ação conjunta com o Poder Público. Fui fazer um levantamento e está tudo cadastrado como propriedade particular — até o rio! Eu não sei como isso é possível.

A Assembleia de Deus usava o local para fazer batismos, olha que coisa mais linda. O Marcelo pulava do galho do Guanandi e a água espirrava para todo lado. É lamentável perder a Pedreira que representava tanto.

O Fim do Cerco e as Incertezas com o Futuro

A pesca mesmo... a pesca de cerco, com a qual fomos criados, ninguém pratica mais. Está tudo assoreado, não dá mais para assentar o cerco. Eu não sei o que vai acontecer, mas muita coisa foi perdida. Não sei o que vamos adotar como estímulo cultural e de sobrevivência, está difícil.

Acredito que, agora, com a duplicação da rodovia BR, vai haver uma onda turística, mas será um turismo desenfreado, porque não há a cultura de respeito, não existe legislação adequada. Com essa duplicação, com certeza estaremos à mercê da bondade divina, pois a prefeitura não se preocupa nem em regularizar a situação de terras aqui.

Então, infelizmente, estaremos sujeitos a ficar encurralados dentro do lugar onde nascemos. Tenho a preocupação de que, em um prazo de 10 anos, Icapara estará assim. É uma grande preocupação, porque eu sempre quis criar meu filho aqui.

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