Gonzaga Trudes

Infância e dia a dia na vila. | Data da entrevista: 20 de maio de 2015 | 47 visualizações

Transcrição da Entrevista

A Transformação da Vila

Olhe, geralmente... eu acho... acho muita diferença na vila aqui... tem mais população... tem mais... a... o povo se afastou assim de brincadeira... daquelas brincadeiras que faziam nos sábados assim... mutirão de... de roças... e... o pessoal afastaram-se tudo, uns morreram. Porque aqui era... por exemplo, era 100 porcento e ficou em 40 porcento, o resto desviaram tudo de religião, então não foi feito mais essas coisas. A maioria fica por aí bobeando, sem saber o que fazer.

E que tornou-se um lugar bem esquisito mesmo. E o povo aqui virou metade... a metade da população virou tudo crente... crente de uma seita, outros de outra e... mas aqui, a tarde assim, de dia, o pessoal conversando de pescaria, outros na roça sabe, e todo mundo conversava. Agora você quer conversar e não tem com quem.

O Trabalho e a Sociedade na Pescaria

O trabalho aqui sempre foi a pescaria, que tinha na época... agora vai chegar o tempo da tainha. Do tempo que tinha peixe, aqui era rico de peixe. Mas Agora não tem mais, não tem mais nada. Era como uma família né. Por exemplo, eu ia pescar, eu e meu sócio. Eu tinha sócio. Uma sociedade assim de trabalho... de trabalho... fazer cerco. Você sabe o que é o cerco, né? Então, preparava as esteiras tudo e colocava na água. Aquilo ali durava mais ou menos 4 meses... de pescaria. Mas cada vez que você ia no cerco, você chegava lá estava a canoa e meia de peixe. E peixe bom... peixe, que nem a pescada amarela, caranha, esses peixes... e fora o robalo, que o robalo que era o quente mesmo da... era caro e era... e era.... tinha bastante. O barco do Alcedes é que arrecadava os peixes aqui e levava pra Santos.

A divisória era o seguinte: O que eu matava pra eu com os meus companheiros, era pra nós dividir entre... entre os... as pessoas... conforme as pessoas que trabalhavam era o que ele ganhava.

O Antigo Porto e as Viagens a Iguape

Ah, o porto era esse aqui. Era esse é que aqui era o porto do rio, aí oh. Daqui na frente aí... daqui a quatro casas... mas tem que pedir licença para o dono da casa pra você passar pra lá, porque fecharam tudo, aquele que era o porto. Então o porto ficou valendo só o que era o porto grande mesmo, que tinha aqueles ranchos de canoa, aquelas canoas que varavam ali.

Ah, pra Iguape era sacrifício né? Você precisava... era.. era fraquinho eu... eu pro exemplo que fiquei praticamente sem pai. Meu pai morreu cedo. Eu saía aí na vila, né, sempre tinha o pessoal: Quem vai pra Iguape amanhã? Aí, eu vou! Então dá uma carona pra mim, que... carona pra ajudar a remar, né? Por que a canoa também não andava... era no remo só... remo... alguns faziam uma vela de pano assim pra... quando o vento ajudava a empurrar a canoa... ajudava. E a... Iguape também era perto mas no remo você não gastava menos de duas horas... mas era o serviço do dia... quando ia pra Iguape. E quando tinha peixe, também, que a gente matava peixe e não tinha pra quem vender aí ia fazer mercado lá em Iguape, lá também vendia bem.

Os Bailes e os Mutirões

Agora, tinham os bailinhos também divertiam a gente. É, o baile... o baile divertia. Era muito bom. Os bai... os bailes? Os bailes era, esta casa aqui era uma das casas que... mais preferidas... era um salão, um salão grande. Os bailes também aqui tinham os mutirões. Fazia uma roca, pois então... se precisava de fazer uma roça né, aí convidava os seus conhecidos, parentes ou mesmo que não fossem conhecidos, convidava homens e mulheres. E aquele tanto de pessoas, ia lá, chegava em meio dia você ia fazer uma roça, deixava prontinho.

Ah, fazia o baile... o baile era sagrado... só... o pessoal chegava de noite assim, todo mundo se arrumava e ia pra lá. O bailinho era com viola, né, violinha. Claudino, mano Dionizio, o Chico Nunes, o pai de Zacarias, Zacarias tocava rabequinha, Oscar também tocava a rabequinha dele. Eu sei que fazia... aquelas... bombinho... como é?.. um pandeiro, coisa... e fazia a festa. Desde de... de passar a noite, só pra dançar, não tinha... não tinha nad... As vezes tinha. Tinha por exemplo, quando era mutirão assim, o patrão lá saía o... a janta... aí a janta... todo mundo jantava e entrava no baile. E quando era lá pra... alta madrugada já, saia um cafelão com ca... com mistura... brincadeira não, né. Biju, o Biju de goma, a tapioca que falam né, falam porque aqui... né... isso não fazem mais por aqui. Então o baile amanhecia... amanhecia sempre.

Pr’aqui era a casa de tio Júlio, esta casa aqui... a casa de Claudino, a casa de meu tio Joaquim Trudes e é... a casa de tio Cipião. É tudo sala grande né, então tinha cômodos pras crianças, se tinha estava dormindo, né. Então todo mundo que pegava aquele .. .aquele... juntava todo mundo lá e fazia dormir lá e ia dançar. Vez em quando eu dava uma olhada.

Era verdade mesmo. Chamava uma mulher qualquer lá, pra dançar né. Aí ela mandava falar comigo que era marido dela se eu podia dançar com você. Mas muita gente que... as mocas dançavam com os rapazes mas as mulheres casadas não... não... era difícil abraçar o outro homem sem a ordem do marido. E ele também que era marido dela também fazia a mesma coisa pra... a mulher do outro. Era.. era um negocio bem.. bem organizado.

Lembranças da Infância e da Família

O que ficou na... o que ficou na memoria que eu não esqueci é a pescaria... foi a pescaria... que com 12 anos eu comecei a trabalhar já. Trabalhava na roca com a minha mãe, trabalhava na... nós fazia farinha e plantava roça, rama, mandioca, né, plantava arroz. Eu plantava arroz, plantava feijão, plantava tudo essas coisas. Então eu tenho um pouco de saudade mas não... não lembro tanto que nem a pescaria. A pescaria chama mais a gente, apesar que estar na praia é gostoso na praia.

Mas o que tenho saudades é... é esse negócio né... quando eu era criança que estava na escola, pra mim era uma época muito boa, é onde eu aprendi na escolinha por aqui mesmo. Até os 12 anos. Não pude mais porque meu pai ficou doente. Deu uma paralisia nele que matou a metade do corpo né. Ele Paralisou. Então, não falava, não... então ficou minha mãe, minhas irmãs casaram tudo. Os meninos que eram os fortes... eram mocos, mocos, casaram. Um casou em Santos outro casou em São Paulo. Então a gente sofria porque as vezes dependia de... de... falar com outras pessoas. As vezes não tinha dinheiro pra pagar né, porque o dinheiro naquele tempo era bem basqueiro. Aí depois que comecei a pescar aí a turma arrumava dinhei... dinheirinho, sempre caia uma graninha e dava pra gente fazer a vida.

Histórias de Assombração: O Português Pernica

Eu lembro de uma história. O português, o Pernica. Quando aquele homem... ele morreu de câncer, morreu tudo inchado, e morreu sozinho, ele morava sozinho. E quando descobriram que ele estava morto... o pessoal já sabia que ele estava doente, mas quando descobriram já... fazia três dias... que acharam ele. Aí... acharam porque morreu com as mãos na porta assim, com os dedos pra fora. Aí que acharam ele.

E contando sobre fantasma, essas coisas né, eu quis... pensei de ir num baile lá na casa de Joao Barbosa. Tava... Já não dançava não... participava mais... mas ia lá espiar, né. E fiquei lá até lá pras 10h mais ou menos. Aí falei pra Agostinho já, meu colega: - E você vai ficar ou vai embora? –Ah, eu vou ficar mais um pouco. E eu querendo ir embora né, mas com medo de passar na casa de Pernica. Medo, assim, né. Aquele cisma a toa que a gente tem. Aí fiz a... fiz uma parada assim e falei assim bem alto né: - Eu digo, vou embora, vou embora pra casa que já está ficando tarde. Aí andei um pouquinho e olhei pra trás pra ver se alguém acompanhava pra servir de companhia. Só... de medo do português que tinha morrido... e aí fiquei. Aí, tudo bem. Aí ficamos ali, não apareceu ninguém, voltei. Voltei, fiquei lá, dançaram mais uma marca lá. Aí tornei a falar: -Digo, vou embora, vou embora que é ... que tá ficando tarde, né. Aí não saiu ninguém... terc...segunda vez. Na terceira vez é... saiu Narciso, o meu... sobrinho. Filho de Benedito Trudes. Aí ele me acompanhou. Também tinha medo mas não queria vir sozinho. Aí viemos. Quando nós chegamos no meio do caminho ele passou na minha frente... pra chegar na casa do Pernica, né. E eu atropelei com a perna pra vencer ele... ele corria mais do que eu. Me deixou pra trás... Ah, rapaz. Eu cheguei aqui, eu abri a porta... a porta era ... de trinquinho assim de... simples... era um puxadorzinho. Só pus a mão lá parece que um sujeito me puxou pra dentro. É tudo coisa que a gente pensa... e ele quase derrubou a porta da casa também. Pra entrar pra dentro meteu o pé na porta, que. Se vê que é fantasma é coisa que vem no sentido da gente, né. E isso aí ficou. Não foi... o medo foi porque eu assisti... eu assisti a morte dele... eu assisti porque eu vi quando tiraram o corpo dele tarde... fizemos guardamento. Guardamos a noite toda. Mas depois fiquei com aquele negócio na cabeça que ele estava morando ali mesmo. E nem só eu. Tanto eu como o resto dos meus companheiros. Eu sei que... deram uma corrida...

O Pernica me fez outra parte. Fomos também assistir televisão lá na casa do meu cunhado. Ah... era uma rádio... uma televisão que Anselmo comprou, tinha a venda né. Então comprou e depois vendeu pra...pro Pernica mesmo. Depois Pernica fez uma troca com Totó. Totó ficou com o radio. Então nós íamos assistir novela. É... era o bloquinho, né. Quando saia... despachavam nós e nós vinha pra cá. E viemos. Quando nós chegamos no terreiro de... ali do lado da casa de Joaquim Egino apareceu um sujeito. O sujeito... o Pernica tinha uma canoa bonita assim varado nas ruas mesmo, né. Olhamos ele... com a camisa de xadrez... de... camisa boa né... Mas na claridade da lua vimos que era Pernica mesmo. Mas era eu, Domingos Cabefada, o Narciso,... tinha mais um... ah, Antônio Palmiro. Quando nós... falaram assim: - Pernica tá lá! ... Paramos na porta do rapaz que ia assistir a televisão. Aí: –Vamos, vamos lá, não era ninguém... – Era, era... era um homem! Eu vi também. Aí viemos... Viemos vindo. Quando chegamos perto da casa do homem todo mundo correu. Não soubemos contar quem era. Aí no dia seguinte... aí o português falou assim: -Cara...Cara era o tema dele... Ontem teve uma turma de rapazes, passaram hoje. Passaram ainda no quint... no caminho... saíram correndo tudo de medo. Aí eu comecei a dar risada e digo: - Eu era um deles. E tinha mais três. Corremos de medo do português afinal ele era vivo ainda, sabe, ele não era morto. Pra mim a única coisa que me fez assombro foi só isso aí. Não teve mais.

Costumes e Saudades

Tinha coruja, tinha o bolo de roda. Até hoje ainda fazem. Tem uma mocinha aí que faz. Vez em quando o marido vem oferecer.

Ninguém mais faz ... ninguém mas faz porque a... esse negócio de farinha, essa coisa... porque não tem mais onde fazer. Os que tinham venderam, outros estragou-se tudo e ninguém mais plantou roça, não tem mais roça.

Até hoje... até hoje. Minha mãe deve estar fazendo acho uns quarenta anos... faz uns quarenta anos que ela é morta... uns trinta anos. Eu sonho com ela quase toda noite. Sonho mesmo que ela está morando em casa que está conversando, está... o jeito dela né.

O Narrador

Gonzaga Trudes. Eu estou com noventa... noventa anos e quatro meses.

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