Trecho da entrevista em vídeo:
Transcrição da Entrevista
Apresentações
(Jucira) Meu nome é Jucira. Tenho, vou fazer 70 anos.
(Domingos) Meu nome é Domingos Jorge. A data de nascimento né? 17 de julho de 1940.
(Jandira) Meu nome é Jandira Pereira Machado e eu tenho 71 anos.
Infância e a Vida no Bairro
(Jucira) Ah, era tudo mata virgem né, era trilha. Não tinha rua, era uma trilha por baixo do mato que a gente andava, aquela areia branquinha. Quando fazia, no verão, que esquentava o sol, a gente andava pela beirinha do mato, porque a gente não usava chinelo, andava descalço, e queimava o pé naquela areia branquinha. Então a gente andava pela beirada do mato e ia lavar a roupa no rio, buscar água ne, porque não tinha água em casa encanada.
(Domingos) A infância da gente né? Naquela época a gente se divertia aí passarinhando ... de bodoque, né? Brincava de, como a gente chamava aqui, de nhá mãe nhá mãe né? E corria atrás, corria atrás do outro. Aquele que pegava aí o outro que era, que corria atrás. E vez quando a gente era pequeno subia naquele morro lá, ó. Quando queimavam o mato a gente ia lá brincar, escorregava lá de barquinha. Colocava em cima do sapê. Aquilo ali deslizava que ia parar lá embaixo. Caçar passarinho e jogar bola né, desde criança, jogar bola.
O Trabalho na Roça e o Bate-Pilão
Plantava arroz, feijão. O arroz era vendido, vendia. Agora o feijão era só pro uso. Agora o arroz colhia bastante que vendia. E mandioca para fazer farinha. Farinha também era só para o uso. Era disso. E pesca. Pescavam também. Que O peixe pra mais para comer. Ne. Pegavam mais pra comer. Então, eles colocavam o arroz. Faziam dentro de casa um negócio, chamava paiol. Tudo cercado assim com bambu em volta e jogavam o arroz. Traziam aquele arroz no saco, colhiam. Viravam lá. Aí depois dali, no dia do batimento, eles pegavam dali, colocavam no meio da casa e chamavam o pessoal. Os homens vinham e com o pé iam amassando aquele arroz, com o pé, e cantando, né. Aí serviam café pra, pra... O dono da casa servia café pra eles. E até bater tudo aquele arroz. Depois que eles moíam bem aí as mulheradas iam lá catavam a palha aí juntavam aquele arroz tudo, ensacado. O arroz que estava já, caiu do talhinho né, e a palha as mulherada catava e punham outro monte ali e os homens iam com o pé moer, né? Bate bate minha gente palhinha de arroz “e eles ali moendo. O pessoal cantando e batendo né. Batiam assim no bumbo, na perna, né?
Na caixa, na caixa.
Na caixa né. Numa caixa, numa caixa de, de, nessas caixas de madeira.
As Casas, as Dificuldades e a Fome
(Jandira) minha casa era uma casa de sapê, ne?
(Domingos) pau-a-pique.
(Jandira) É, de pau a pique. E a gente dormia tudo numa esteira, igual sardinha. E a fresta da porta era tudo grandão igual isso aí sabe? Grandão. E a gente via de manhã a turma passando pro porto, né? ‘que Tinha o porto de domingos cuba, que era onde a turma sentava para conversar, igual a praça, né? E todo mundo passava, a gente deitada e vendo, sabe? Tio Claudino, Benjamim... Toda essa turma, sabe?
(Jandira) Pobrezinho. A gente não tinha nem o que comer. E vinha comprar fiado no bar. E só me mandavam né? Eu que tinha que comprar fiado. Aí Celso xingava a gente, sabe? Xingando. – Ah, a gente. Vocês vêm comprar fiado e seu pai não paga. Aí eu voltava em casa, contava. Eles falavam: vai de novo!
Daqui uma hora Pedro me mandava, Jan... Eu voltava lá: Celso, é pra mandar 1 quilo de arroz. Nem pedia 1 quilo, já pedia meio que era pra vender. Aí vendia... Com muito custo ele vendia. A gente passava muita fome.
Ah, tinha peixe né? Quando tinha o peixe já não tinha a farinha, sabe? Tinha farinha já não tinha o peixe. Era assim.
E as vezes. Uma vez eu fui comer. Vou contar, Pedro não gosta que eu conte essa história. Uma vez eu fui. Eu tava com Machado lá conversando né? Aí ele ia jantar em casa de Landino que ele morava lá, porque pescava aqui. Aí Landino tinha matado uma paca né, e ele ia comer paca lá? Aí eu falei:
“- Ah não vai comer paca lá, jante aqui.”
“- Não, não come aqui em casa que tem janta.”
Aí depois ele desistiu e foi embora, né. Não quis comer, Não quis jantar.
Aí eu falei mamãe, cadê minha janta, ela já estava deitada.
Falou: “Essa infeliz ainda chama o namorado pra vir jantar.” Não tinha nada. Tinha 2 bananas assadas na cinza e Adilson tinha feito boizinho, sabe? Com o cabo da vassoura. Fez 2 chifrinhos, sabe? Fez a perninha, tudo, o chifre e esse era minha janta. Pensou, ia passar a maior vergonha, né?
Bailes, Carnaval e a Igreja
(Jandira) É. O baile era bom. Era bom. Lotava. O baile lotava. Era bom. Era gostoso. O carnaval né, baile de carnaval.
(Jucira) Aqueles bailes deixou saudades.
(Jandira) Tinha em casa de tio Claudino, tinha em casa de tio Dionizio. Aqui em casa de tio Júlio.
(Jucira) Carnaval a gente fazia fantasia. Fazia fantasia, engomava. Fazia aquela água de polvilho, né? Cozinhava assim o polvilho com bastante agua. Enfiava a saia ali pra ficar bem armado. É. Naquele tempo era. Com tudo o sofrimento, com toda a pobreza a gente era feliz e não sabia. Era feliz e não sabia.
(Domingos) O baile na casa de tio Dionizio que a gente sempre frequentava e eu tinha vergonha de ir no baile, mas quando entrava tinha vergonha de sair. Eu acompanhava só, gostava de acompanhar os quatro aqui de Icapara que faziam brincadeira de rua que foram os melhores que já apareceram e que não aparece igual a eles. Era Rosalino, Benjamim, Sezinando e nhô Agostinho do Pontal. Esses 4. Faziam cada brincadeira que, eu quando via, as vezes eu estava no banho, saia acompanhando. Ficava o dia todo acompanhando eles. Quando terminava o carnaval, por exemplo, dali uma semana a gente ficava com aquele som no ouvido, custava pra sair.
(Jandira) Da igreja também. Eles fizeram um ajuntório pra nossa senhora, pra igreja, né? pra ajudar levantar a igreja. Aí plantamos um arrozal. Foi feito um arrozal lá na cajuva, né? Tudo mundo sabe? Tanto homem quanto mulher. Pra Plantar arroz, né Jucira? Lembra? Aí colheram esse arroz e venderam pra fazer a igreja.
A gente ia buscar barro ali no barreiro, ali no caminho do pontal. Trazia. Quem trazia bacia. Até criança pequena trazia uma bacia com barro tudo, pra ir jogando ali sabe pra fazer a construção da igreja.
Causos, Mistérios e Assombrações
(Jandira) Eu só lembro de Pernica. A gente, eu saí meia noite ali da casa de Anselmo que nós estava ouvindo radio. Que toda quarta-feira passava Aquarela Sertaneja né, um programa muito, só de caipira, né? Eu adorava escutar. Aí nós saímos meia noite e esse dia eu fui dormir na casa dela. Aí quando chegou no terreiro de Gonzaga naquela areia tava Pernica, pelado assim de bruços, nadando. Dava a impressão que ele vinha pra pegar a perna da gente, assim sabe. Aí nós vimos ele saímos correndo, correndo e jogamos a porta da mulher até embaixo, da mãe da Malica né? Jogou lá embaixo. E, foi só essa vez que eu vi esse negócio. Nunca mais vi nada.
Daí eu contava pras pessoas antigo né? Eles falavam que era.
E mamãe também, uma vez mamãe foi lenhar. Mas é chato contar isso, né? Porque a mulher, a família é viva, né.
Então, mamãe foi lenhar, pra lá da água vermelha que tem aquele poco de água. Ela era menina e a mulher já era casada. Tinha até filho. Aí ela foi lenhar e mamãe começou fazer o feixe da lenha, amarrou. E ela falou Benedita fique aí amarrando seu feixe de lenha que eu vou ali tirar uma corda. Aí ela foi, entrou na mata, e quando ela chegou perto de mamãe, chegou com mão de cavalo e pé de ..., mamãe quase desmaiou. Aí ela amarrou esse feixe, se ajudou. Aí mamãe saiu na frente. Chegou em casa começou a chorar e pediu pelo amor de deus que a mãe dela nunca mandasse mais ela, sabe, com essa mulher buscar lenha que ela quase morreu. Ela veio no formato de um cavalo, sabe? Apresentou perto de mamãe no formato de um cavalo.
(Jucira) Então, ah... 3 vezes que eu vi a mesma pessoa. E horário meio dia em ponto. Por duas vezes foi. A primeira vez foi na janela da cozinha do lado da casa de mamãe que tinha a casa de fazer farinha. Na porta era porta assim ne, aquelas portas de pedaço.
Metade. .. que faziam antigamente tinha porta aqui e janela pra cima né. A parte de cima estava aberta e a debaixo fechada. Eu saí na janela da cozinha, aquele vitro da cozinha lá de casa. Eu vi a pessoa quando surgiu assim... por... dentro do.. da casa. Né. Mas levantou assim por trás da porta levantou de costa pro meu lado e foi lá pro lado do forno de fazer farinha, que tinha o forno de fazer farinha e de lá tinha uma porta que saia no fogão de lenha de mamãe, onde mamãe fazia comida. Aí a pessoa foi pra lá. E eu fui lá, entrei, procurei e não tinha ninguém. Olhei até por dentro do forno e não tinha ninguém. La onde a gente punha a lenha. Não tinha ninguém.
Passou dias quando foi, eu tava na área do tanque debruçado, meio dia também. Mesmo horário de meio dia. Debruçado olhando lá pro lado da casa de fazer farinha foi quando surgiu a mesma pessoa. De cabelo cortado assim curtinho, cabelo Chanel, baixinho. E foi outra vez pro mesmo lado, pro lado do forno de fazer farinha. Tudo bem, aí eles não acreditavam.
E depois, a última vez que eu vi, a terceira vez, eu tava, já tinha o muro ali de casa. Eu tava na calcada com mamãe em frente daquele portão dos fundos. Mamãe tava de costas para a casa de farinha e eu tava de frente, foi quando surgiu a mesma pessoa. Aí eu fui ver o horário era mesmo horário. Meio dia em ponto. Aí a pessoa surgiu aí eu fiquei olhando assim, mamãe falou, ela estava conversando comigo:
“- O que que Jucira tanto olha aí.”
Eu falei: “- É uma pessoa que surgiu ali mamãe.”
“- É nada, é Maurício que está lá do outro lado remendando rede”
Eu falei: “- Não, não é. Foi aqui dentro. Levantou ali da porta. É a mesma pessoa que eu já vi 2 vezes.”
Aí entrei lá, procurei, passei, abri a porta que saía no fogão de lenha de mamãe. Olhei, não tinha ninguém. Era a mesma pessoa. Três vezes eu vi.
E uma vez também, nós tinha um cachorro. E ele quando foi uma hora da noite começou a latir, né? Latir forte. Latia, latia, parecia que estava agarrando uma pessoa. Aí nós se levantamos, né Pedro? Lembra aquele? Era na casa da frente. Levantamos, Era uma pessoa que dava uma surra no nosso cachorro. Mas esse cachorro gritava que, nossa casa, era a primeira casa da frente.
Se escutava o chio do chicote. Shhh
É, se escutava o chio do chicote sabe? A pessoa dava chicotada no cachorro, o cachorro gritava.. e não era ninguém também, sabe? Esse daí também nos levantamos pra ver e não tinha ninguém.
E depois outra vez, já na outra casa também. Eu acordei de madrugada com o cachorro gritando, latindo, né . Aí avançava, parece que avançava e gritava. Avançava numa pessoa e gritava. Aí eu levantei. Levantei, fui, saí na área dos fundos, porque o cachorro foi pros fundos, né. Começou a latir lá na frente e foi pros fundos. Levantei, saí na área dos fundos e ele voltou pra frente, o cachorro. Aí eu ia pra frente, quando eu ia o cachorro vinha pros fundos, latindo. Aí depois eu peguei, fechei a porta e ele parou também de latir.
Era uma coisa, não sei. Aquilo ali eu não posso saber contar o que foi aquilo ali. Era um negócio que ele estava vendo e conforme o lado que ele estava eu ia, ele corria para outro lado.
Quando você era pequeno, também. Você tinha uma tosse né, aí uma noite você não conseguia dormir da tosse e eu levantei fui esquentar leite pra você. Quando eu abri a porta da geladeira que eu peguei o leite deram um assobio tão forte ali do lado da janela, do vitrô da cozinha. Aquele assobio forte que parece que me doeu no ouvido. Aí eu peguei o leite, quando fui para pra esquentar o leite, pra virar pra esquentar, por no fogo lá pra esquentar foi quando deram outro assobio forte. Aí me arrepiou tudo o braço, sabe. Aí eu fui lá pro quarto, falei pro seu pai. Ai Pedro, eu não esquentei o leite. Vamos comigo na cozinha que tem um... Você não escutou esse grito, esse assobio forte. Era um grito forte, um assobio tão forte. Ele falou que ele escutou sim, ele também escutou no quarto.
E também outro, quando a gente morava na primeira casa da frente, que... era você mesmo. Que eu levantei também para esquentar leite. Acho que já era você. Fui esquentar leite pra você, quando eu cheguei na cozinha, nossa porta de cozinha também era de 2 pedaços. Tinha um cara me olhando, sabe? Um olhão pela emenda das 2 portas. Aí que eu vi o cara, eu corri pro quarto, eu fui lá chamei seu pai, seu pai veio. Saiu pra fora, naquele tempo não tinha luz, era lampião né, querosene. Aí seu pai saiu fora pra ver se tinha alguém, não tinha ninguém. Mas aquele acho que era gente que tava olhando. Tarde da noite.
Saudades, o Pai e a Alimentação
(Jucira) Eu sinto saudades de tudo. Com tudo, né?. A gente não passou tanta necessidade. Mas eu acho que naquele tempo a gente era feliz e não sabia.
(Domingos) Tudo era gostoso.
(Jandira) Ah, eu gostaria do Icapara, gosto do Icapara como ele era antes, sabe? Antigo né?. Agora não tem muita graça.
(Jucira) Aquela areia branquinha era só trilha né, que a agente andava, trilha por debaixo do mato, brincava, meu pai do céu. A gente brincava de roda, as meninas né.
(Domingos) Aquele caminho da campina né, que era cheio de caminho que saía lá no Buruí, né. Acabou aquele caminho.
(Jandira) Só que era muito sofrimento né naquele tempo.
(Domingos) Sofrimento. Porque alimentação era negativa naquela época. Mamãe, se não fosse ela também... papai bebia.
(Jandira) Papai bebia muito
(Domingos) Papai bebia, né. Com nove filhos. Só que ele não era um alcoólatra né. Papai bebia aos sábados. Calçava um chinelo...
(Jandira) As vezes tirava a semana. (risos)
(Domingos) Cortava a barba. E Era domingo, dava vontade de jogar bola, tinha tudo que dar a volta por lá, pra não passar por aqui de vergonha. E levavam ele pra casa de noite. Se ninguém levasse talvez ele ficasse a noite toda bradando né? Fazendo zoeira...
(Jucira) Gritava né?
(Domingos)...Como não tinha ninguém mais na rua, aí...
(Jucira) Chamavam Urutagua.
(Domingos) .. tio Zacarias, tio Quinco, levavam ele.
(Jandira) Eu ia chamar, eu ia buscar ele no bar. Aí ele falava: então agora cante a moda da pinga.
Eu falava: “A Malvada pinga é que o que me atrapalha.” Vinha cantando até chegar em casa. Aí ele obedecia, era... De todos os filhos, quem ele obedecia pra vir embora era eu.
(Domingos) Chegava em casa não conseguia abrir... não tinha o trabalho de por a mão pro vão da parede pra abrir a tranca pra entrar. Metia o pé, jogava a porta embaixo.
(Jandira) Jogava a porta embaixo. No outro dia ele ia arrumar. Ai, ai. Eu não tenho muita saudade não. Era tudo sofrimento.
(Domingos) É que, alimentação naquela época... puxa vida. Imagine finada vovó, né. Finada vovó, finada mamãe que só trabalhava e pouca coisa tinha pra comer. Tinha que fazer das tripas coração pra conseguir alguma coisinha lá pra gente comer. Paçoca de banana era o forte da gente, né, que ela fazia pra comer com peixe assado, cozinhava o peixe...
(Jandira) Ela fazia um caldo. Ela chamava caldo de Betara. Só que não tinha peixe nenhum. Era só o caldo, a água, né, água e sal e ela colocava a alfavaca. Né. Aí cada um tomava um pratão daquele com farinha e ia dormir.
(Domingos) E outro, as vezes que nós ia, ficava assim sem comer nada né, nós ia dormir sem comer e finado papai ia pescar. Como ele sabia que a gente não comia nada ele mandava que fizesse o fogo, pra ter a brasa pra quando ele voltar, assar camarão né. E chamava todos nós pra tomar café ali pra gente comer.
(Jandira) Com o peixe, com as tripas
(Domingos) E com camarão mais né.
(Jucira) Vovó chamava de caldo de Robalinho.
(Jandira) Lá era de betara.
(Jucira) Caldo de robalinho. Ela fazia aquele caldo e quebrava um ovo.
(Jandira) Ah o dela quebrava um ovo, o nosso não.
(Domingos) Nós uma vez, ia tomar café, fomos tomar café antes de deitar. E aquela farinha branca, já estávamos saturados, né? Que pra tomar café só com aquilo. Aí peguei um pouco de brasa daquele pra fazer uma farofa. Pra queimar a farinha, pra ficar na cor da farofa. Coloquei a brasa, saiu preto né? Que queimou a farinha. Aquilo não tinha gosto de nada. Só pra imitar que não era farinha branca, né?
Não era pra menos né. Eram 9 [filhos].
O Pasquim e as Fofocas no Porto
(Jucira) Pasquim... A cozinha era da... da... de mamãe era de pau a pique, de ripa, né. Então era compadre Pido Pava que fazia. Ele sabia qualquer coisa assim de alguma moça que estava namorando fulano de tal, ele já fazia tudo, aqueles versos tudo trovado né, e ia lá e jogava pelo buraco da parede. De manhã a gente se levantava, estava lá.
(Jandira) Na rua às vezes.
(Jucira) É, as vezes jogava na rua também.
(Jandira) Não só de moça. De mulher também, que tava traindo o marido, sabe.
(Jucira) Traindo o marido. Tudo. Fazia e jogava. O mais que fazia era ele, né. Porque ele trovava né. Era tudo rimado.
(Domingos) Ele era presidente do time aqui de Icapara na nossa época. Ele tinha uma caligrafia bonita, né. Mandava ofício pra esses times daí.
(Jucira) Tudo com letra de forma que ele fazia, tudo de 4 em 4 carreirinha de letras, mas tudo rimado.
(Domingos) Ele mandava ofício, no domingo vinha time aí da Aldeia, vinham, pousavam, jantavam, tinha baile e domingo eles tinham jogo né.
E quando a gente ia lá eles faziam a mesma coisa, né. Matavam porco, davam almoço pra gente. Mas ele era o presidente. A vida toda foi presidente do time.
(Jucira) Então ele fazia isso daí e quando era no outro dia o Icapara inteiro já sabia. Aí começavam a comentar... ah, sabia que saiu no Pasquim ...
(Jandira) E era verdade.
(Jucira)...que fulano de tal anda com fulana.
(Domingos) Fulana tá gravida de não sei quem
(Jandira) Fulano saiu e tá morando com outra, né. Fugia de noite da casa dela e ia morar com outro.
(Domingos) Aquele porto lá de Domingos Cuba, onde Dito [Cuba], o filho tem casa. Lá era. Lá varavam todas as canoas depois de...
Lá era tipo de uma praia. Lá era o ...
(Jandira) Era o lugar onde comentavam as coisas.
(Domingos) Lá era o lugar de concentração.
(Jucira) Era cheio de canoa...
(Domingos) De, as coisas. Primeiro corriam lá pra depois ir trabalhar, ninguém ia trabalhar sem ir lá. Depois que saiam de lá que pegavam, que saiam trabalhar, mas primeiro tinham que ir lá... depois de um baile. Quando brigavam. O comentário lá. Uma zoeira danada comentando. Mas lá era o ponto principal de...
(Jucira) Onde saiam as fofocas. Saiam as fofocas, né?
(Jucira) Então. Nessa época tinha o pasquim que faziam. As coisas que aconteciam no bairro ele fazia tudo em papel, escrevia e jogava pra rua, dentro das casas, pelo buraco da parede. Que as casas eram de pau a pique, tudo de pau a pique. Ele jogava pelo buraco da parede, no outro dia estava o comentário na rua. Ele fazia isso.
(Domingos) Nas casas mais conhecidas.
Ele jogava na rua, o cara ia passar pegava... abria...
(Jucira) Abria e aí já saia comentando.
Noites de Luar e a Perda das Tradições
(Domingos) Note de luar, nessa areia perto dos bares ali, os mais velhos ficavam...
(Jucira) Se reuniam ali ...
(Jandira) Ali que se reuniam pra contar história né.
(Domingos) Ficavam ...
(Jucira) Se reuniam ali ficavam tarde, até tarde da noite... Noite de lua, né. A lua clareava tudo porque não tinha luz naquela época.
(Jandira) Era aí que Dito meu irmão ficava, escutando, falava em visagem, falava... depois ele ia correndo embora.
(Jucira) De medo, né?
(Domingos) A aí a gente deixava eles conversando ali e depois que ouvia bastante coisa. Aí a gente saía de dois paquerar pra lá, depois voltava.
(Jucira) Namorar...
(Jucira) No verão, nós principalmente, papai fez um banco lá na frente de casa. No outro lado da rua, que era caminho, era trilha. Aí nós sentava tudo lá no tronco da.. como é que é ela...?
(Domingos) Uvaia.
(Jucira) Uvaia. Tronco da Uvaia. Papai fazia banco né, ficava tudo sentado. Até depois de dormir. A noite né, só com o luar. Com a claridade da lua.
(Domingos) Tinha noite que a gente nem tomava banho né?
Nhô Oscar disque uma vez, tomou banho, lavou a perna.
(Jucira) Ai, Pedro... (risos)
(Domingos) Aí quando ele foi dormir não conseguia dormir. Ele teve que ir lá fora sujar a perna pra ir dormir... (risos)
(Jandira) Por quê?
(Domingos) Não acostumava.
(Jucira) Não era acostumado a tomar banho.
(Jucira) Olha, porque aqueles mais idosos que eram da tradição né, foram indo embora, falecendo né.
(Jucira) Ninguém quis mais, igual a erguida de mastro, né. Que era tão bonito ninguém quis mais. Mesmo a turma da Igreja... Ah isso aí já era...
(Domingos) O padre que tirou.
(Jandira) Não foi o padre. O povo não quiseram mais fazer, ai ai.
(Jucira) Tinha acompanhamento de bandeira né. A gente saia acompanhar a bandeira. Durante o dia, a tarde assim, saia acompanhar a bandeira, onde parava, a casa que anoitecia eles faziam o encerro, né. E quando era cedo tinha a alvorada. Aí iam pra outra casa outra vez. A gente tudo acompanhando né.
(Domingos) Era legal. A folia era um divertimento também né, que o pessoal tinha, né.
Era gostoso.
Quando vinha lá do coisa, a gente escutava o barulho da.. da... devagarinho né... Vindo logo a bandeira...
(Jucira) Escutava longe, né.
(Domingos) Passava dois, três dias ele chegava aqui.
E a festa de, de... a festa ... a festa junina daqui. Tanto fogos que atiravam que era só uma serração de fumaça, que uma vez eu vim com uma turma lá do Gil do Baicô que vinham jogar aqui. Peguei uma carona com eles lá no Valo Grande, numa bateira e eles vinham comentando né, que daqui de Icapara, da festa, dos foguetes que atiravam na época de festa junina. E eles comentavam e eu só ouvindo eles.