Transcrição da Entrevista
A Vida Antigamente e o Aprendizado
Antigamente a gente se recorda muito que era... até... lógico que passa deixa saudade porque foi um tempo muito bom da gente, né. Até das crianças hoje em dias estão vindo, mas... não viram como nós vimos Icapara no escuro, Icapara sem água, que nossas mães tinham que buscar água lá até... por uma coisa que é bom que eu aprendi que é lavar uma roupa, que hoje sou sozinho e sei me virar. Estou 18 anos sozinho, sou separado, mas soube me manter na vida de carregar uma lenha, buscar uma água, esses tipos de trabalho que a gente fazia né, que hoje não existe mais. Quem que carrega um pote, né, uma vasilha com uma rodilha, uma carga na cabeça como um feixe de lenha. Eles já nasciam com esse... não era com dom... com uma... é, um dom de prática né.
Os Ofícios, a Pesca e o Artesanato
Quinzinho, pra você ter uma profissão. Eu digo: A profissão que a mãe me deu foi saber a nadar, pescar, dar um nó numas cordas, o trabalho deles era roça né, pesca, roça, ia no mato tirar um... cipó, um Timbopeva, fazia um... que hoje tem as caixas já pra colocar os peixes, né, antigamente fazia os balaios, né, os cestos, o chapéu... tudo... chapéu... junco, de palha de junco do campo e era tudo feito por essas mulheres. E antigamente pescava aquele que sabia fazer a rede, passa uma agulha pra por a linha, e hoje ninguém, você vê a molecada que aprendesse esse ofício, né, eles têm que aprender. Mas era um... eu até a pescaria, hoje eu não estou pescando, mas eu gostei muito da pesca que ela me trouxe muitas... muitas coisinhas, que eu aprendi a fazer artesanato.
Saudades da Infância
No tempo de criança da gente tudo muito bom, era sacrificoso mas era muito bom, né, a gente sente saudade das coisas.
A Responsabilidade Após o Baile
A gente era muito atencioso, né, sempre junto, por isso quando eu estava namorando, meu pai falou assim... eu vim num baile, aí... 4 horas da manhã, cheguei em casa tomei banho e lavei a roupa dos dias do carnaval, né. Meu pai só na cama, só olhando pra minha mãe, o movimento dentro de casa. Aí fui me deitar, tipo umas 5:30 essas alturas. Aí ele levantou com a minha mãe, foi lá pro quintal, voltou, falou: - Iraci, se você lavar roupa hoje, tirando um barato assim, Nése, você lavar roupa hoje vai ter que fazer um varal pra você porque Quinzinho já está com todas as roupas no varal.
Os Bailes de Carnaval e as Brincadeiras
Lembro desses bailes os momentos bons, né, das épocas, as brincadeiras, né. O carnaval aqui chegava na quinta feira já iam buscar os bois aí na Ilha. O que tinha na Ilha comprida era só boi e junco, mato, campo, né. E a gente ia lá. Pra gente era a primeira coisa de diversão no Carnaval era isso aí. Pra todo mundo.
Até, mas... como você falou, Dona Anita, o marido dela, ela mesmo, chegava na semana de Carnaval esquecia Santos e vinha pra cá, que aqui que era. O pessoal de Iguape vinha até brincar aqui.
Caçada no Escuro e o Susto com os Morcegos
E a gente saia daqui e ia lá atrás da... ele me convidou: - Quinzinho, vamos matar uma raposa comigo? Eu e o filho dele, que também já tem uma idade de uns 60 anos. Aí fomos atrás do Paraty, aquele Depósito, naquele tempo por ali era sertão, onde é asfalto era caminho de telégrafo. Ele falou: -Quinzinho fique aí que eu vou ver... Olhei pra cima, a raposa não tinha vindo, já ia caindo umas frutas, umas coisas iam fazendo um vento em mim, naquele tempo a gente usava calça, assim bermuda né, aí um vento na perna, no braço, no rosto. Aí falei: - Gozado, tem uma coisa abanando a gente aqui, ele se preocupou que devia ser uma cobra. Daqui a pouco o negócio cortou aqui... senti cortando no calcanhar. –Vou pra lá que um negócio me mordeu. Aí ele veio afobado de lá... alumeia com o Flashlight, viu um... rapaz... tinha o rico que nós esquecemos, até o rico nós passemos. Corremos do lugar, do local, tanto morcego pra querer nos bruxar. Está aí ele quando for embora pode ir ali perguntar.
A Falta de Recursos e a História da Família
Aqui não existia pão, leite, não tinha nada disso. A gente via pão quando o pai da gente vinha de Iguape. Não tinha nada aqui. Era parado. Parado. Sem circulação de movimento, né, não tinha nada. Só tinha o trabalho dos nossos pais, nossos tios, nossos... homens mais velhos, né. Que nós também... nossa família ali... Nós também estava.... aquela rua ali é rua Elídio Trudes que era irmão do meu avô. Vovô Elídio era... conhecia... a avó dele... já de idade hein, uns 80 anos, de cama, uma loira, magra, alta, lustrada. Elídio Trudes era um... um tio, irmão do meu avô que depois se casou com a tia Amara, e daí que veio todos nós que hoje estamos por aqui, e estão vindo e vão vindo... é... estão vindo e vão vindo...
Histórias de Assombração: O Tição de Fogo
Olhe, sobre assombração, pra começar, primeira coisa que fiquei vendo aqui nesse lugar é que quando morria gente tinha medo. Morria gente que você tinha que ir lá ver mas você tinha medo, então, tudo bem. Isso quando eu tinha 7, 8, 10 anos.
Quando eu tinha mais ou menos uns 14 anos, eu estava na praia do leste, meia-noite, em junho do ano 70. Estava eu, meu pai e mais 5 irmãos. Estava pescando. Aí meu pai bradou de lá da beira da água, de dentro do barco:
-Quinzinho, vem pegar a corda! Pra sair do lanço. Isso que ele falou que eu ia... do jeito que está eu e você.... com meu irmão... sujeito solta um cacete... um tição de fogo, como nós costumava falar... um tição de fogo caiu lá na nossa frente, passou por cima de nós caiu lá e espalhou a brasa. Eu fui correndo, não quis saber de nada, deixei meu irmão, eu fui correndo cheguei na popa da canoa, quando fui pra pular dentro da canoa ele falou:
- Não, não é pra pular aqui, por que você tá com sono? Veio pra dormir? Não viemos pra dormir, viemos pra pescar. Falei:
-Pai, mas um cara jogou um tição de fogo.
- Que nada! Não quis nem saber.
– É, tição de fogo...
Aí, tudo bem. Ele ralhou com nós, demos lanço, tirei... pegamos um bocado de tainhas... mais de umas 200 tainhas. Aí daquilo viemos embora, aí ninguém falou mais desse negócio, do tição de fogo. Aí quando foi de manhã ele falou: -Quinzinho, e o tição de fogo? Eu falei:
- Tição de fogo porque foi tição de fogo mesmo, pai.
- Quem jogou? Eu falei:
- Sei lá quem jogou.
Naquele momento eu não vi quem foi.
Os Causos de Caçada do Velho Claudino
O velho Claudino, ele tocava viola pra nós na casa dele e ele contava que fez uma caçada com o irmão dele, o Oscar. Aí o Oscar, chegou do mato o Oscar falou assim: - Claudino, você fica aí com a... vendo algum passarinho chegar por aí, alguma caça e eu vou mais aí na frente. aí foi. Chegou lá daqui a pouco a espingarda, Claudino ouviu um tiro: Poww. Lá. Oscar já segurou lá um sujeito, já. Aí daqui a pouco nhô Oscar vem de lá dando risada... passando por debaixo de um pau, né. O vento deu desarregou a árvore, ele passou por baixo. Bateu a coronha da espingarda, tirou tudo a frente do chapéu dele, aí eu rachava o bico do jeito do cara, e o cara...
O Trabalho na Infância e os Estudos
E antigamente aqui a gente não se envolvia muito a estudar porque eu fiz a segunda serie, tinha muito peixe e a gente precisava de pescar e fui obrigado a ficar no trabalho com meus pais.
Mutirão na Roça e Festejos
O povo ia trabalhar na roça convidava quarenta, cinquenta pessoas pra ir cavar ou ir derrubar, ou roçar. Chegava à tarde, janta pra todo mundo, baile pra todo mundo.
O Trabalho de Antigamente vs. A Mordomia de Hoje
Então eles tinham que trabalhar, eles tinham que plantar, eles tinham que ter... levar barcada de lenha, como chegava a levar também pra Iguape, todo mundo fazia esse trabalho e como chegou um pouco a mordomia, a gente diz que tá ruim, tá ruim mas não vejo nada ruim, então o povo também parou de trabalhar.
A Abundância da Terra e a Venda dos Terrenos
A gente tinha oito, nove anos, chegava um velhinho, que a gente não conhecia esse velhinho, mas conhecia a viúva do velho. – Vamos comigo – bastante menino e menina – vamos comigo ali no Caparinha que amanhã vou pra Iguape tenho que levar uma barcada de melancia e uma barcada de laranja. Hoje os caras saem daqui pra ir comprar lá. Não é que acabou, acabou porque ninguém planta, que terreno tem. Os terrenos foram tudo vendidos por isso está aí. Chegou aqui na época o Adibório na época ele trocava, dava uma calca, um canivete, uma bola de plástico por causa... por cinco, dez, vinte alqueires de terra. Tá vendo, o povo dava, como você falou, não ligavam pra isso.
A Labuta do Pessoal
O pessoal aqui trabalhava muito, labutavam muito, né. Trabalhava.
A Perda das Tradições Musicais
Não tem ninguém aqui que saiba tocar um violão, tocar uma sanfona... ninguém se ajeitou nada disso aí, né, hoje em dia. Antigamente tinha os caras que tocavam. Tocavam viola, rabeca, sanfona. E eles morreram, ninguém se interessou a copiar aquela profissão, morreu.
A Chegada do Carro e as Diversões
Os tempos que passou foi muito bom. A gente, a primeira vez que viu carro andar por aqui, a gente se pendurava no para-choque de um fusca, a mesma coisa que estivesse dentro de um caminhão, entende? Pra nós era diversão, entende, aquilo ali.
A Autossuficiência e a Vida Sozinho
Sou separado mas me viro. Faço minha... meu rango, cuido de mim, cuido de minha roupa. Se a gente não... não tendo ninguém pra cuidar da gente a gente que tem de se virar mas tem que já saber se virar, né. Se não saber fazer nada, aí que não vai fazer porque não sei fazer aí fica desanimado.
Apresentação
Meu nome é Joaquim Trudes Filho, 64 anos.