Paulo Cesar Franco

O apagamento da cultura tradicional caiçara | Data da entrevista: 13 de setembro de 2015 | 27 visualizações

Trecho da entrevista em vídeo:
Este vídeo apresenta apenas um trecho da entrevista. A transcrição completa está disponível logo abaixo.

Transcrição da Entrevista

Raízes Caiçaras e o Resgate da Identidade na Escola

Então eu sou o Paulo né, sou nascido na Jureia, portanto sou caiçara em 1973. E em 85 com a criação da estação ecológica a gente teve que sair de lá e em 85 a gente veio pra cá, eu vim morar na Vila Nova. Aí me integrei na comunidade católica, na pescaria, na... E em 2003 onde passei a integrar um projeto chamado Escola caiçara da Jureia. Eu comecei uma pesquisa com a cultura caiçara, mais especificamente o fandango. Aqui na região da Jureia.

Esse tempo todo, aí 12 anos de magistério, eu sempre me dediquei a trabalhar com os alunos a questão da cultura caiçara. A gente percebia que os jovens tinham vergonha de ser considerado caiçara, né. O projeto que a gente se envolveu foi em sentido de fortalecer a identidade e, consequentemente ser um protagonista né, é... conhecer a região deles e saber por que que era caiçara. Poder viver na região, mas também lutar para que o bairro fosse se desenvolvendo.

O Impacto das Políticas Ambientais e o Esquecimento em Iguape e Icapara

Acho que a perda né, dos valores está em função de uma falta de política, né, de valorização mesmo da região. É, os jovens não têm perspectiva aqui né, então eles acabam saindo. O turismo vem pra cá de uma forma desordenada, né. Os jovens, eles... por conta de você não ter uma valorização de uma cultura local você acaba aderindo a uma cultura que vem de fora.

Eu costumo dizer que é mais fácil sair do que tentar fazer uma mudança aqui, né.

Já, desde o final da Ditadura Militar, o vale do ribeira de um modo geral, a partir da ditadura militar ele foi... é... destinado a preservação ambiental. Então, se você for ver Iguape a maior parte da área é área de preservação ambiental. Porque é mais fácil vir aqui e preservar sem criar uma política de valorização das comunidades tradicionais. Então Icapara, por exemplo, o centro... é... histórico, né... a origem de Iguape, cadê que tem uma valorização da... do bairro, né. Não se tem. Se perdeu a cultura no Icapara e em toda a adjacência por conta de uma política que valorize. Hoje você vê o que? O que que você vê em Iguape de política cultural. Quem faz isso? Não existe uma política. Não existe político nenhum até hoje que pensasse numa valorização, numa lei municipal de preservação da cultura.

A Perda do Território: O Fandango e os Saberes Artesanais Ameaçados

A política ambientalista tirou da comunidade a terra, né... o direito dela trabalhar... a roça, porque se você for falar de fandango você tem que ter a roça, né... você não pode falar do fandango como uma apresentação em praça publica. Você tem que ter toda a tradição que existia antes, né. O Icaparano ele tinha acesso pra... a roça da mandioca, ele fazia a farinha, depois ele fazia o mutirão e depois ele fazia o fandango né, que era a cultura dele que trouxe lá do século XVI né, que veio mantendo essa cultura até duas gerações atrás, né. A medida que ele não tem mais o território, que ele não pode mais cultivar, ele perde. Por outro também, esse choque cultural, essa vinda dos valores urbanos, que ao chegar aqui foram mudando a ideia dessa comunidade local de pensar.

Então, nós fizemos a partir de... aqui sempre existiu né, os artesãos aqui, O Valter, o tio Florencio, Odilei, tio Joao. Existiram os artesãos que sempre fizeram o remo, a canoa, o tipiti, né, o... então a partir de 2007 a gente começou um trabalho de trazer esse conhecimento, esse saber, a experiência dos artesãos que estavam nos quintais para a comunidade pra que eles pudessem ensinar para os jovens. Mas não deram continuidade porque a caixeta, a matéria prima que era a caixeta, não é... não estava bem... é... legalizada para o corte, então você tinha que buscar numa propriedade que tivesse autorização para extração. Demorava muito e lá eles queriam o material, assim, como se fosse feito em máquina, em série. Hoje nós só temos a lembrança né.

O Extermínio Silencioso e a Expulsão das Comunidades Tradicionais

Então, essa... esse projeto das oficinas de fandango, né, que é uma oficina de saberes caiçaras, no meu caso é um projeto que a gente traz lá de 2003 quando eu estava na Cachoeira do Guilherme, que a gente começou isso lá, então, trazendo esse conhecimento. Então aí você vê é onde entra a dificuldade de você continuar um trabalho né, que devia ser uma política pública, é uma preservação que tirou todas as comunidades do seu habitat natural e jogou pra cidade. Não fez nenhum trabalho de... não respeitou o conhecimento secular dessas comunidades. Então a sociedade acha que é uma coisa boa e a consequência perversa é exterminar as comunidades tradicionais. Lá na Jureia, por exemplo, mais de 300 famílias foram extintas de lá. Foram expulsas, jogadas, ninguém foi indenizado. O Estado ignorou esse conhecimento tradicional.

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